cultura
15/07/2026

Do que um livro é capaz

A leitura transforma quem se permite atravessá-la.

AUTOR

Fernando Boppré

Livros podem ser livres. Livros podem aprisionar. Objetos táteis, manipuláveis. Quanto mais páginas houver, mais movimentos serão feitos com as mãos. Atravessar a longa trilha de uma Divina Comédia ou de Um Defeito de Cor é um desafio que um leitor pode se orgulhar. É como subir uma montanha. Tem muito montanhista que não consegue chegar ao final de A Montanha Mágica. Porque ler é também um exercício de resistência. Mas tamanho não é documento. Um livro curto como A hora da Estrela ou O Caderno Rosa de Lory Lamby pode atordoar por meses. Um atordoamento que reverbera dentro de quem lê. Como se uma ferramenta poderosa forçasse uma abertura para o desconhecido. Livros moldaram épocas. I Ching registrou a magistral filosofia oracular chinesa. Ilíada e Odisseia deram legibilidade ao mítico mundo grego da antiguidade. Torá, Bíblia e Alcorão desenharam as leis morais do monoteísmo. O Manifesto Comunista estremeceu o chão do patronato. A Interpretação dos Sonhos fez do inconsciente ponto central para o desenvolvimento da psicologia, linguagem normativa para se compreender o “self” nos séculos 20 e 21.

As telas de hoje prometem tornar o livro obsoleto. Não é raro quem entra em uma livraria e pergunta: “As pessoas ainda compram livros hoje em dia?”. Sim, elas compram. Muitas pessoas apertam o orçamento para incluir títulos e autores para suas bibliotecas. Pelos dados da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, realizada pelo Instituto Pró-Livro em parceria com a Câmara Brasileira do Livro, quem mais lê no Brasil são mulheres, crianças e a classe C. Então aquele papo de tiozão de que “as crianças de hoje não leem”, não procede. Quem menos lê hoje são homens brancos da classe A, o que diz muito sobre a limitação intelectual da elite brasileira.

Não são poucos os que mudam os rumos da vida para dedicarem mais tempo aos livros e, portanto, ao conhecimento. A mente dispara ao ler um livro com um enredo instigante. Existe um fascínio incomparável ao ser sugado por uma história bem contada. Agatha Christie vendeu mais de dois bilhões de livros no mundo. Em quantidade, perde apenas para William Shakespeare e a Bíblia Sagrada. Se pensarmos, contudo, que o texto sagrado do cristianismo foi escrito por dezenas de autores e tem dois milênios de circulação, é fato que os mistérios da Rainha do Crime são um fenômeno prodigioso de nossa cultura.

Se você não tem o hábito da leitura, procure introduzi-lo em doses homeopáticas. Ler, comprovadamente, estimula a neuroplasticidade cerebral, o que pode prevenir a demência, por exemplo. Ao se deixar prender nas linhas de um bom livro, você se liberta de um monte de obviedades que abarrotam as telas iluminadas de nossos tempos.

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