Rogério Puhl compartilha o processo de criação do mural do elevado da bandeira e fala sobre o futuro da arte em tempos de IA.
FVcomunica!
Se você costuma estar em um dos 20 mil veículos que trafegam pelo Elevado da Bandeira, na entrada de Chapecó, todos os dias, certamente vislumbrou o gigantesco mural colorido que substituiu o cinza insosso dos blocos de concreto da estrutura. A obra de 750m² é assinada pelo artista e ilustrador chapecoense Rogério Puhl, que revelou tudo sobre o processo de produção do mural, sua história com o município e fez considerações sobre a nova geração de artistas.
Depois de 21 dias de trabalho árduo sob o sol escaldante, Puhl aproveita suas férias visitando o berço da arte: a Itália. O cenário de nossa entrevista — feita por videochamada — é uma simples viela de Roma, com suas ruas de paralelepípedo e prédios de paredes coloridas. A paisagem corriqueira não deixa de ser deslumbrante, mas também não é novidade para Puhl, que morou no “país da bota” por 10 anos, divididos entre as cidades de Perugia e Turim. Agora, de volta ao Brasil, ele conta que aceitou com carinho o convite da Secretaria Municipal de Cultura para idealizar e executar a obra no Elevado.
Segundo o artista, ele recebeu um briefing com elementos imprescindíveis para o mural: a força da indústria, a Chapecoense, o novo autódromo e a figura do indígena. Apesar disso, afirma que teve “total liberdade para fazer o que queria” e, por isso, cada parte é revestida de sua personalidade e estilo artístico. “Tem o porco, a galinha e o frango, a base da nossa economia por muito tempo, mas o porco está ali cantando de uma forma divertida, com um topete de Elvis Presley [...] são nesses elementos que eu transformo o real numa forma subjetiva e surrealista”.
Puhl enfatiza que fez questão de incorporar no mural suas memórias no município. Ele, que viveu a maior parte da vida no bairro São Pedro, relata que a mãe costumava fazer a pé todos os dias o trajeto até onde hoje é o elevado, pois fazia serviços de faxina por ali. Para homenageá-la, ele colocou uma dedicatória e a ilustração de uma coroa, para a “rainha Aldonira”, maneira carinhosa que se refere à mãe.
Os dias de trabalho na pintura do mural, embora tão intensos que ele declara ainda sentir dores nas pernas e costas, também foram revitalizantes. Puhl recorda uma experiência inédita em sua carreira de artista durante o processo. “Meu termômetro eram os frentistas e as pessoas que trabalhavam no posto [em frente ao elevado]. À medida que foi acontecendo, eu fui acompanhando a reação deles. No começo ficaram desconfiados, depois começaram a tentar interpretar o que eu estava desenhando. Aí quando entenderam, eles passaram a se reconhecer cada um num personagem”. A experiência inusitada reafirmou a ele a importância de seu trabalho. “Isso é o mais interessante da arte: cada um faz sua interpretação e tira sua conclusão, isso é o mais bonito, essa liberdade que a arte dá”.

Falar sobre arte nos dias de hoje quase que exige falar também sobre tecnologia e inteligência artificial. Por isso, aproveitei o privilégio de conversar com um artista tão experiente quanto Puhl — que se autodenominou um “dinossauro” da profissão — para entender sua visão sobre o tópico.
Irredutível, Puhl constata que a inteligência artificial é “o fim de uma juventude promissora”. De acordo com o ilustrador, a falta de autenticidade e o uso de IA para geração de imagens está tornando os novos artistas preguiçosos. Para ele, a originalidade virou artigo de luxo, e falta aos artistas emergentes posicionamento e humildade. “Eu sempre me sinto inferior a outros artistas e nunca paro de estudar”. Puhl ressalta que constantemente busca inspiração em outros humanos, e incentiva novos artistas a fazer o mesmo. “Pessoas que se dedicam, se comprometem, amam, fazem com paixão, eu me inspiro nessas pessoas em todos os aspectos.”
Quando perguntado sobre que conselho daria a artistas que estão surgindo agora, ele acentua a importância de “comparecer e demonstrar”, e relembra um mural que pintou em Perugia, onde deixou a mensagem “mai rinunciare ai tuoi sogni” — nunca desista dos seus sonhos.
Entusiasta da arte de rua, Puhl acredita que ela é “o principal movimento artístico da nossa geração”. Por isso, o mural que adorna o elevado é ainda mais significativo para ele. “Eu sempre quis deixar uma obra grande para a cidade, para saber da minha passagem por lá, da minha existência. É uma questão de orgulho”.
