A FV recebeu na bancada do podcast falaFV! a cirurgiã-dentista Dra. Angela Aiolfi, especialista em cirurgia e traumatologia bucomaxilofacial, implantodontia e implante facial, e você confere parte da entrevista nesta edição.
Carol Bonamigo
A cirurgia ortognática é um procedimento realizado para corrigir alterações ósseas da face e dos maxilares. Inicialmente, era indicada principalmente para corrigir deformidades dento-faciais e problemas funcionais severos, como dificuldade para mastigar, alterações respiratórias, dores articulares, problemas na fala e desalinhamentos importantes da mordida. Um estudo do Colégio Brasileiro de Cirurgia e Traumatologia Bucomaxilofacial afirmou que 60% da população do país necessitaria de algum tipo de tratamento ortodôntico, mas 5% só resolveria o problema se passasse pela intervenção cirúrgica.
Hoje, além da parte funcional, a cirurgia ortognática também passou a ter um impacto estético importante, pois ela modifica o posicionamento ósseo da face, trazendo mais equilíbrio, harmonia e melhora da autoestima.
A FV recebeu na bancada do podcast falaFV! a cirurgiã-dentista Dra. Angela Aiolfi, especialista em cirurgia e traumatologia bucomaxilofacial, implantodontia e implante facial, e você confere parte da entrevista nesta edição.
Flash Vip: Quando falamos de cirurgia ortognática ou tratamentos de Articulação Temporomandibular (ATM), não estamos tratando apenas de ossos e músculos, mas sim de procedimentos capazes de devolver a alguém a capacidade de sorrir sem dor, de respirar melhor e de se reconhecer com confiança no espelho. Quem normalmente precisa desse tipo de cirurgia?
Angela Aiolfi: A cirurgia ortognática é uma cirurgia eletiva e surgiu inicialmente para que conseguíssemos restabelecer alguma parte funcional do paciente. Deformidades e alterações faciais muitas vezes estão ligadas à oclusão dentária, que é a nossa mordida. Então o paciente era diagnosticado com alguma alteração, que poderia ser tanto da maxila quanto da mandíbula — um encurtamento, alongamento ou projeção da face, por exemplo, ou até mesmo deformidades — e encaminhado a nós. Portanto, a cirurgia ortognática é uma cirurgia óssea, mas estamos tentando cada vez mais encontrar soluções para trabalhar tecidos moles, como músculo e pele, seja no planejamento virtual ou na expertise do profissional. Desta forma, a cirurgia ortognática veio para tratar a parte funcional, mas hoje também tratamos a parte estética junto.
FV: A estética, muitas vezes, é consequência da melhora funcional. Com a intervenção da cirurgia ortognática o paciente dorme melhor, mastiga corretamente e ainda ganha harmonia facial. Como alinhar as expectativas do paciente em relação a tudo isso?
AA: Hoje o paciente não tolera mais fazer apenas a correção funcional, ele quer aproveitar para fazer a projeção do mento, um alargamento da mandíbula, dentre outras possibilidades. Alguns movimentos que fazemos no planejamento virtual podem ser previstos, outros não, pois não conseguimos ter tanta confiabilidade com os tecidos moles apenas na projeção. Hoje, a cirurgia ortognática, apesar de eletiva, é um dos procedimentos que irá trazer funcionalidade, qualidade de vida e também estética. A relação paciente e profissional é muito importante, é preciso criar confiança e alinhar as expectativas. É essencial também que o paciente que possui indicação e está pensando em fazer uma cirurgia ortognática vá mais aguerrido, com muito mais segurança, sabendo os prós e os contras, que é uma cirurgia extensa, delicada, vai mexer com a sua face e teremos uma equipe multidisciplinar envolvida.
FV: Há pacientes que buscam a cirurgia como forma de melhora estética e acabam descobrindo um problema funcional que deve ser tratado antes?
AA: Sim. Temos percebido que muitos pacientes são tratados para a parte estética com tratamentos que não são duradouros e não avaliam a parte oclusal, que é o encaixe da mordida. A cirurgia ortognática e traumatologia bucomaxilofacial, basicamente, trata a parte óssea e, a partir disso, o reposicionamento dos tecidos (musculares, nervosos e a pele). E vemos muitos pacientes querendo tratar uma queixa puramente estética, quando na verdade, seu problema é funcional. Uma angulação do incisivo central, a mordida, a projeção, a inclinação dos dentes, tudo isso é estética e, normalmente, não é avaliado pela parte de injetáveis e harmonização. Nós que realizamos cirurgias ortognáticas avaliamos isso tudo. E não somos apenas nós, cirurgiões. É um casamento entre nós, o paciente e o ortodontista. A inclinação dos dentes importa muito, pois não adianta fazer um movimento ósseo na maxila se a angulação do dente está ruim. Então, precisamos entregar algo que vai ficar esteticamente bom, para que visualmente o paciente se sinta confortável. Há um plano de tratamento que vamos alinhar junto ao ortodontista e o paciente, com os pés no chão, dentro do que precisa ser feito e o que o paciente espera de resultado também.
FV: De acordo com um levantamento realizado pelo Colégio Brasileiro de Cirurgia e Traumatologia Bucomaxilofacial no ano passado, em média, 22,2 mil brasileiros sofrem lesões graves de face todos os anos, provocadas principalmente por acidentes de trânsito. Como entra a cirurgia ortognática nesse sentido de reparação?
AA: Hoje faço parte da equipe de cirurgia e traumatologia do Hospital Regional do Oeste (HRO), e trabalhamos em conjunto com outras especialidades. Quando falamos em cirurgia e traumatologia bucomaxilofacial no âmbito de urgência e emergência, ela tem como objetivo restabelecer aquilo que o paciente já possuía, no sentido de face e seus anexos. Muitos pacientes já tinham uma assimetria ou uma falta de dentes ou já possuíam uma função insatisfatória, então a cirurgia de trauma é dentro da necessidade do momento, reparar algo que é urgência e emergência.
FV: Falando sobre respiração, existe uma relação entre o sono ruim e alterações faciais. Pacientes que sofrem de apneia obstrutiva do sono podem se beneficiar da cirurgia ortognática?
AA: Sim, temos visto a cirurgia ortognática sendo recomendada para o tratamento da apneia obstrutiva do sono. Sabemos que é padrão ouro, mas tem alguns pré-requisitos. A qualidade de vida está diretamente ligada à qualidade do sono e isso está ligado à respiração. Alterações da face, em geral, são tratadas por nós ou pelo otorrinolaringologista. É uma conversa entre vários profissionais, vai depender da indicação para cada paciente, o que está causando essa apneia, a gravidade e a necessidade de agirmos.