A tensão diária, os estresses de uma pandemia... o luto.
Angelo Parisotto
O período está difícil, eu sei. Nem sempre conseguimos superar tudo o que a contemporaneidade tem atirado no nosso colo. A tensão diária, os estresses de uma pandemia... o luto.
Eu sei também que você está aqui para ler sobre jogos, mas a verdade é que jogos também nos ensinam e nos ajudam. Já deixo avisado aqui que este texto pode ter alguns gatilhos, mas talvez te ajude a passar por eles.
O jogo desta edição é chamado Spiritfarer e foi lançado em agosto de 2020. Ele foi produzido pela Thunder Lotus e está disponível para quase todas as plataformas (PC, Consoles… só não tem para celular). Foi indicado para diversos prêmios e levou outros tantos.
Mas hoje serei bem objetivo e vou separar minha coluna em três etapas e critérios para que você conheça essa obra-prima: arte, jogabilidade e temática
Spiritfarer foi todo desenhado a mão. A arte é amigável e extremamente autoral. As cores vibrantes nos dão um ar cartunesco, sem, no entanto, nos remeter a uma saída fácil ou de técnica simples. Cada traço de personagem está em seu lugar e conseguimos nos recordar dos detalhes de cada um quando fechamos os olhos.
O gameplay é, por premissa, bastante simples. Temos que cuidar das necessidades dos passageiros do navio e ampliá-lo para que tenhamos mais recursos em um sistema que mistura muito os jogos de fazendinha com ferramentas de exploração e narrativa. Ao mesmo tempo, a simplicidade e o descompromisso que cada etapa do cuidado com o navio nos traz é extremamente convidativo e viciante. Tenho certeza que você há de se flagrar falando para si mesmo “só vou ajeitar essas madeiras aqui” ou “minhas plantinhas estão quase nascendo”. A jogabilidade é preenchida por diversos minigames que nos dão sempre um novo desafio ou algo novo para conhecer. A exploração do mapa é carregada por novas histórias, mas como o jogo não nos pressiona, podemos conhecê-las ao nosso tempo.
Mas e a temática que norteia tudo isto?
Spiritfarer nos coloca no papel de Stella, uma jovem carismática e sempre acompanhada de seu gato branco, Diffodil. Sem maiores explicações, nossa protagonista é incumbida de ser a nova Barqueira dos Espíritos e levar os mais diversos passageiros para o Portal Eterno – isso apenas quando estiverem prontos.
A partir daí, tomamos conta do barco e seguimos nossa jornada em busca de quem necessita de nós. Aí vem a porção mais intrigante.
Os passageiros que encontramos pelo caminho são representados por diversos animais (sapo, cobra, pássaro, etc) e parecem ter algum vínculo conosco durante nossa vida e a deles. Nosso papel é acomodá-los, construir seus quartos em nosso navio, cozinhar suas comidas favoritas e, mais importante, levá-los a superar as pendências de suas vidas para que, por fim, possamos acompanhá-los ao Portal Eterno para que, um por um, nos deixem.
Aqui fica o dilema de verdade: quando nossos “passageiros” nos deixam, tudo que eles tinham fica para trás. Seu quarto, suas comidas favoritas… Mas mais que tudo, as histórias que eles nos deixaram.
Por fim, eles ascendem e somos deixados para lidar com sua saudade. No entanto, o mais curioso e cativante é que antes de sua partida eles nos ajudam a lidar com este momento através de diálogos emocionantes e memoráveis. Eles nos ajudam a encarar nosso luto.
Uma série recente trouxe uma frase que considero de uma sabedoria incrível: “o luto é o amor que perdura”.
Por esta premissa, Spiritfarer é, para mim, a representação de como no luto, os laços e o amor vencem.