cultura
16/06/2021

A vida em série

Episódio 2

AUTOR

Hilario Junior

Você está em frente ao seu serviço de streaming favorito pronto(a) para decidir o que vai assistir e se coloca em dúvida: ver um filme ou uma série? Geralmente a série que você já está assistindo ganha a disputa e o filme fica ali esperando na sua lista de interesse para ganhar uma nova chance no futuro... mas ela não vem.

Quem acompanha esta coluna deve ter reparado que ela repetiu o título nesta edição, mas com um novo episódio. Não é preguiça, mas uma provocação. O consumo das audiências por entretenimento audiovisual hoje está numa predisposição maior para narrativas seriadas do que isoladas e as razões são muitas.

Começando de trás para frente, obviamente a pandemia da Covid-19 tem sua parcela de influência. Afinal, não poder sair para ver filmes no cinema, ou mesmo, ver a indústria do cinema tirar o pé do acelerador nos lançamentos, ocasionou que os filmes perdessem um pouco da atenção pela falta de novidade. É só olhar os lançamentos em canais de filmes na TV a cabo para ver que há uma seca de lançamentos. Enquanto isso, foi possível pegar uma série que podia ter passado no radar, mas faltado tempo em outros carnavais, de forma que o frisson por este tipo de conteúdo levou até a novos serviços de streamings serem lançados durante a pandemia (como o Disney+ e o Paramount+, por exemplo).

Ampliando um pouco mais o foco, parece que entretenimento de fato vem de narrativas que nos ocupam por mais tempo, em contrapartida de narrativas poderosas, mas que acabam logo. Muito tem se falado no caso dos filmes quanto ao desenvolvimento dos seus personagens em relação ao tempo deles na tela. Um filme de duas horas pode apresentar, desenvolver e resolver histórias de personagens, mas não se compara ao tempo que eles têm disponível num seriado. Isso levou o envolvimento da audiência a ser maior com as narrativas longas que, naturalmente, começaram a parecer mais coerentes e envolventes. 

Alguns filmes recentes tentaram desenvolver personagens em profundidade numa duração longa, como O Irlandês e a versão do diretor Zack Snyder para a Liga da Justiça. Críticas da audiência apontavam que eram filmes longos demais para se assistir, mas, convenhamos, sua duração é menor que uma temporada de qualquer série ou minissérie. Numa outra perspectiva, o universo cinematográfico da Marvel é uma série de mais de 20 filmes que atraiu muitas audiências justamente pelos mecanismos de continuidade entre eles. Outro ponto é que filmes que são sucesso popular na indústria do cinema normalmente vêm com a pergunta: “terá sequência?”.

Todos estes e mais argumentos que você deve ter pensado durante a leitura desta coluna colocam em análise porque esperamos por histórias mais longas e profundas e como o formato de filme está se adaptando no contexto da era de ouro das séries. Fato é que há uma influência mútua, de forma que as séries começaram a ter qualidade cinematográfica e filmes começaram a se conectar como grandes séries. Se este assunto ainda for de interesse e você achar que ele pode ser aprofundado, talvez ele volte na coluna da próxima edição, para um episódio 3. Que tal?


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