especial
06/10/2022

A Revolução da Música

O mundo mudou e a maneira de experienciá-lo através da música também. Frente às dificuldades e a diversidade de gêneros musicais, a nova guarda local busca fomentar a cena autoral

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reportagem por FERNANDO BORTOLUZZI e MIRELLA SCHUCH


Se hoje é possível termos contato com inúmeras experiências musicais através de alguns toques na tela de um celular, pouco mais de 15 anos atrás era bem diferente. Tanto os processos de acessar e ouvir música como os de produzir e se inserir no meio foram revolucionados com o passar dos anos.

Foi em uma tarde, logo após um jogo da Chapecoense, no ano de 2005, que surgiram as primeiras composições da banda Variantes. Com um CD – artigo que cada vez mais entra para a cultura nostálgica – comprado em camelô, André Nicaretta (bateria), Gustavo Faccio (baixo e voz) e Willian Nascimento (guitarra) gravaram o primeiro disco demo da banda, com seis músicas autorais e tratamento de áudio caseiro. Chapecó sempre foi muito bem representada pelo rock n’ roll. Com referências de clássicos que marcaram uma geração, como o Grupo Nozes, Conexão Brazil e a Banda Repolho, a Variantes surgiu com o propósito de ir além de apenas fazer covers e fortalecer a cena autoral da cidade. “Tinham muitos shows em chácaras, nós reuníamos duas ou três bandas autorais e íamos para um espaço com 300 pessoas querendo ouvir rock. Isso acontecia mais naquela época porque não havia tantas exigências como hoje, nem precisava ter alvará. As bandas compravam as bebidas e atendiam o público no bar, enquanto outra tocava”, relembra André.

Nos anos seguintes, a antes “banda de garagem” cumpriu seu objetivo. Em 2008 lançou seu primeiro álbum, autointitulado e com 14 músicas, com clipes que chegaram a integrar a grade da antiga MTV Brasil. Com discografia que chega hoje a quatro discos, um deles lançado em vinil, a banda em nova formação – além de André e Willian, agora com Lucas Rocha (baixo), Ronei Zanette (vocal) e Vinícius Lovatel (teclados) – busca se inserir no atual contexto das plataformas digitais e da cena autoral chapecoense. “Antigamente era mais difícil gravar, mas era mais fácil fazer shows. Hoje, com o celular na mão, muita gente nos ouve, mas para uma aceitação e alcance maior, devíamos ter ido para São Paulo, onde conseguiríamos melhores estúdios e espaços. Muitas bandas foram para lá para estourarem”, afirma André.

Há 20 anos morando no Rio, o sambista chapecoense Eduardo Gisi lançou em julho o EP Desbravador ao Redentor, que constrói uma ponte entre a cidade maravilhosa e a capital do Oeste catarinense. Gisi conta que desde os anos 1990 já participava de rodas de samba e pagode em Chapecó, tocando em grupos como Koxixo’s, Santa Terezinha e Doce Vício. “Até os 17 anos, havia feito apenas duas letras inocentes com melodias bem duvidosas. A composição começou a aflorar perto dos 30 anos de idade”, conta Gisi, que desenvolveu seu talento com estudos de violão e a leitura do livro Histórias das Minhas Canções, de Paulo César Pinheiro. Produzido através do Edital Municipal de Fomento e Circulação das Linguagens de Chapecó e com composições próprias, as músicas do EP são interpretadas por três nomes de lá e três de cá. Eliz Bueno, Márcio Pazin e Thiago Cinti são as vozes locais que integram o disco e foram gravadas à distância. Para Pazin, este intercâmbio cultural é de grande importância. “É assim que a gente evolui como artista, conhecendo outras culturas, se misturando com outros músicos e visões de arte, eu já fiz muito disso. A gente tem que valorizar esse tipo de iniciativa”, afirma o cantor e compositor. Eliz conta que veio até Chapecó para gravar e a finalização se deu em Curitiba, onde morava na época, e que “com a distribuição digital, mais pessoas podem conhecer os trabalhos. O usuário acaba experimentando novos gêneros com mais frequência e diversifica as suas preferências”. 

Buscar mais abertura fora da cidade é uma experiência também compartilhada com a banda Stoned Water, formada em 2018, que conta com um disco de nove músicas em português, inglês e espanhol. O guitarrista Zebu há 25 anos divide o palco com o baixista Paulo Franzmann, entre outros projetos, como as bandas Mister Magoo e Garotos da Rua. Junto com o baterista buenairense Landy Moon, a banda faz 90% de seus shows fora de Chapecó. “Não falta espaço por aqui, mas a recepção das músicas autorais não é o que a gente gostaria que fosse. Nós fizemos nove shows em Buenos Aires, terminava uma música que eles nunca ouviram na vida, o público aplaudia e procurava descobrir quem era a banda”, relata Zebu. 

Mesmo com artistas de anos de estrada, a banda nasceu já na era digital. O álbum Vol. 1, lançado em 2019, tem como bases Rolling Stones e Creedence Clearwater Revival, além de outras referências dos anos 1970. As letras são inspiradas no dia a dia, relacionamentos, amigos, família e ex-mulheres, mas o guitarrista ressalta que acha interessante o público ouvir as músicas e tirar as próprias conclusões sobre a mensagem. “Estamos em todas as plataformas, mas hoje as bandas ganham com shows. O streaming é legal, nosso alcance é 99% por lá, mas o percentual que reverte é ridículo, micro centavos. Por isso decidimos lançar o disco físico, para distribuir nos shows, porque o pessoal gosta de levar uma lembrança para casa”.

Há um consenso de que o município já teve mais casas de show para se apresentar. O mais comum atualmente é a contratação de duos acústicos para movimentar os bares à noite. Chapecó dispõe de diferentes espaços, cada um com sua particularidade. Tem a casa que abraça novas bandas da cena underground do rock, seja o som delas cover ou autoral, e tem aquela que foca na música comercial, que dá também oportunidades para quem gosta de tocar as mais conhecidas. Entretanto, com uma cada vez maior variedade de artistas, gêneros e meios culturais, vem cabendo aos novos músicos construir seus próprios espaços.


A nova guarda

Com uma sanfoninha nos braços e apenas quatro anos de idade, Pablo Paludo descobriu uma paixão, sem saber que ela seria o princípio de uma carreira. Ao perceber também o talento vocal do menino, a família precisou apenas dar apoio para que ele aprendesse a tocar a gaita sozinho e começasse a se aperfeiçoar em cursos. Ainda criança, o garoto natural de Guatambu já colecionava aparições na televisão. Os pais buscavam inscrevê-lo nos programas e eventos para ele se apresentar. O jovem começou tocando músicas gauchescas e modões em happy hours de hotéis da região e, aos 10 anos, já tinha o sertanejo Segunda Chance composto e gravado em sua autoria. Mas foi em 2020 que Pablo ficou conhecido nacionalmente. Após quatro tentativas, o garoto – na época com 12 anos – foi selecionado para o reality show musical The Voice Kids, da Rede Globo. “Foi uma experiência muito massa. Fiz muitas amizades que eu tenho até hoje, e a experiência de conhecer os técnicos, no meu caso a dupla Simone e Simaria, valeu muito a pena”, descreve o jovem.

Por conta da pandemia, Pablo, agora com 15 anos, não pôde se apresentar nos shows que conseguiu após a participação no programa. A alternativa foi focar seu trabalho nas redes sociais. “Comecei fazendo stories e conversando com o pessoal. Gravo vídeos de covers, cantadas, fico muito ligado no que está bombando no TikTok. É uma necessidade para o artista hoje em dia, e é algo que eu gosto. Você precisa aparecer para as pessoas, e quem me segue espera conteúdo, tem gente do país inteiro e até de fora”, conta.

Agora, o cantor retoma sua agenda e já realiza shows maiores em feiras, casamentos e festas de aniversário. Pablo já conta com mais trabalhos autorais no streaming. “Gosto de compor sofrência, a maioria das minhas canções são nessa pegada. Penso em continuar lançando músicas, quero viver disso. Ser compositor abre muitas portas, outros artistas podem querer gravar e dali pode surgir uma oportunidade, algum empresário que queira investir”, pontua o estudante.

Assim como Pablo, Laura Tereza, de 19 anos, começou cedo na música. Inserir-se na cena autoral foi o último passo para apaixonar-se profundamente por esta arte. Começou cantando covers em barzinhos e não demorou até conseguir apresentar suas próprias composições de nova MPB e folk em festivais, como o Festival Sonora e Verão Virtual. “Queria lançar minhas músicas justamente para ter uma porta de entrada. Com o cachê desses shows, veio o primeiro EP com faixas que compus e comecei a estudar para evoluir”. Neste objetivo, a internet tornou-se a principal ferramenta para aprimorar-se e apresentar-se durante a pandemia. Em 2020, Quando o Amor Chega estreou nas plataformas digitais, produzido com o apoio de nomes conhecidos da música chapecoense, como Eduardo Menezes e Emerson Kremer, ambos da banda Pinhel.

Dois lançamentos depois, as músicas autorais de Laura Tereza tornaram-se o carro chefe de seus shows. “Chega um ponto que tocar cover em barzinho começa a cansar, tu não tem o reconhecimento esperado. E tudo bem, esses locais funcionam de outra forma, as pessoas não estão lá pra te ver, você é meio que um bônus para o ambiente e tem que tocar o que o pessoal quer. É totalmente diferente ter um evento que o público vai para apreciar realmente o que está sendo criado”, desabafa. Criações suas que muitas vezes falam sobre o que está no coração. A jovem conta que as letras surgem de algo que ela vive ou quer falar, a maioria delas sobre amor. “Coração de Papel já é uma música mais política. Todas as músicas componho com meu violão, sem ele não rola. Tento contar uma história e passar uma mensagem, porque é através disso que as pessoas vão se identificar”.

Diante da diferença entre os públicos, Laura vê a necessidade de criar espaços para incentivar que mais pessoas prestigiem os artistas locais. “Tem muita coisa boa em Chapecó, que às vezes simplesmente não é divulgada. Nessa ideia, criamos o Oeste Autoral e o Arte da Casa, é a galera dando as mãos e fazendo acontecer não só para a gente, mas para que isso tenha continuidade. Sempre tivemos grandes músicos, assim como público, falta só organizar”, afirma a compositora.


O Oeste Autoral é um projeto que visa difundir a cultura regional e incentivar a criação musical de artistas autorais do Oeste catarinense. Em agosto, o grupo realizou a primeira edição do Arte da Casa, que reuniu artistas locais em apresentações exclusivas e com composições próprias.


De dentro para fora

Não há espaço para a arte que não possa ser criado. É com esta incisiva crítica à dificuldade com abertura, em uma forma de manifestação artística ainda mais marginalizada, que a multiartista Jasper, de 22 anos, organizou em julho deste ano o evento de lançamento de seu primeiro álbum, Ilha de Calor. “Até então, só tinha performado dublagens de músicas de outros artistas, a primeira vez que performei minha própria música foi nessa festa. Eu fui a hostess, fiz o design de tudo e divulguei”, conta a ilustradora, drag queen e cantora, que foca a divulgação de seu trabalho em arte urbana e usa a internet como aliada para alcançar pessoas que se identificam com seu gênero e a mensagem que passa.

Um estilo artístico muito diferente da cena local, o hyperpop – mistura de elementos do pop, rap, trap e rock – se funde com a estética disruptiva e letras que nasceram de uma fervura de sentimentos sobre opressões e segregações no espaço urbano de Chapecó. “Comecei com a arte drag quando percebi que poderia utilizar dela para pôr para fora o que havia dentro de mim. Eu já tinha habilidade e gosto para moldar isso de um jeito que me coubesse como pessoa e me expressasse com uma naturalidade que não fosse danosa. Claro que drag é uma artificialidade enorme, mas é na inexistência, na artificialidade que acho o meu eu verdadeiro”, conta a artista, que durante a pandemia uniu sua técnica e sentimentos para descobrir-se como compositora.

Selecionada pelo edital de bandas para se apresentar junto a nomes da música nacional no Magnólia Festival, Jasper ainda vê poucas oportunidades para os artistas locais exporem sua arte. “Não tem pra todo mundo, então artistas acabam dependendo somente de um espaço. Isso não deveria ser uma competição, mas acaba sendo porque não vai ter outro festival semana que vem. Sempre tiveram muitas drags nessa cidade, por exemplo, que se destacam, mas mesmo assim não têm espaço pela falta de interesse em abrir. Não é questão de público, sempre tem gente de várias cidades daqui ao redor interessada”.


O Magnólia Festival é um dos maiores festivais de música e cultura da região. Idealizado por produtores locais e contemplado pelo Edital de Fomento e Circulação das Linguagens Artísticas de Chapecó, o evento traz artistas nacionais e dá oportunidade para que músicos locais e regionais se apresentem para produtores e concorram a integrar o line-up do evento.


Com trabalhos executados no Estúdio do Leo e colaborações de Matheus Bonora e Francisco Faganello, a arte de Jasper tem o duro propósito de provocar um choque cultural. “Se você acha que o problema de uma pessoa marginalizada não é de verdade, é porque aquilo não te afeta e você simplesmente não quer ver. Isso é uma coisa que eu sinto desde que vim morar aqui, uma normatividade brega que está enraizada na cidade. Tudo o que visa mudar isso, que é inovador, assusta as pessoas, até mesmo no meio artístico”, frisa a multiartista. 

Transformar o meio artístico de dentro para fora se faz de suma importância para quem o utiliza para descobrir-se, promover identificação e reclamar sua posição como artista. É com estes propósitos que nasceu, em 2021, o álbum Sinergia, de EJ Mc. O rapper e poeta de 23 anos se identifica como pessoa não-binária e conheceu o hip-hop através do movimento estudantil, quando viu pela primeira vez uma batalha de conhecimento – grupos em que os participantes rimam e se expressam sobre determinado tema. “Na época, me identificava como mulher, e eu ainda sou lido assim. Então era um desafio você ser uma pessoa trans e se inserir em um ambiente majoritariamente masculino e adolescente para falar sobre vivências em um espaço basicamente opressor”. Assim surgiu a necessidade de ser um agente politizador e transformador do próprio movimento.

Descobertas, frustrações, revolta, amor, autoestima, normatividade e comunidade. Todos esses são pontos abordados pela linha do tempo de autodescoberta que é o primeiro álbum de EJ, produzido de maneira independente e com o auxílio de outros profissionais – como o Estúdio do Leo e o Katharsis Studio, de Erechim/RS – e artistas trans da região, como Kairo Madah, Tayo, Jade e Cordélia. “Você começa com aquela chama de querer mudar o mundo e vai entendendo as formas mais efetivas de contribuir com a sociedade. Eu caminhei em direção à arte, que é um lugar seguro para expressar o que penso e de forma a atingir outras pessoas, porque às vezes elas não querem escutar quando a gente fala sobre política, mas por meio da arte a gente consegue tocá - -las”. Com as raízes do rap e do slam – poesia performática que discute temas de resistência – nas ruas, EJ também enfrenta dificuldades em ter espaços para se apresentar fora dos festivais. “Por isso tenho pensado mais em construir nos - sos espaços. Sinto que às vezes a gente tenta muito entrar em portas que nunca vão estar abertas para nós, então construímos a nossa casa e abrimos as portas para as pessoas entrarem. A minha arte só faz sentido em coletivo”, finaliza.

A música nos impacta de tal forma que sincroniza nossos batimentos car - díacos e frequência respiratória conforme o seu ritmo e melodia. Mas esse não é um movimento intrínseco e individual. A música é um fator social que cativa pessoas, conecta gostos similares e faz refletir e mudar ideias a partir das mensagens que carrega. Que aceitemos o convite e adentremos as portas para o rico cenário de vivências e linguagens compartilhadas por quem cria a arte local.

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