O que acontece quando uma pessoa deixa de exercer uma profissão e passa a ser responsável por uma empresa inteira, mesmo que essa empresa seja ela mesma?
Carol Bonamigo
Há alguns anos, o imaginário do trabalho estava associado ao emprego formal. Hoje, uma parcela enorme da população vive de uma empresa cujo único funcionário é ela mesma. Alguns escolheram este caminho, outros foram empurrados para isso, enquanto muitos transitam entre os dois mundos.
Mas a questão que permeia é: quem eu preciso me tornar quando passo a ser uma empresa de uma pessoa só?
Saber cozinhar nunca foi suficiente para vender comida. Fotografar bem não basta para viver da fotografia. Entender de construção não significa saber administrar financeiramente uma obra. E quando você deixa de ser um CPF para se tornar um CNPJ, você vira seu próprio chefe, mas também seu funcionário, seu RH, seu financeiro, seu marketing e tantas outras funções que vai precisar aprender pelo caminho.
Essa foi uma das principais dificuldades que a publicitária Elaíne Cezaro Schleicher encontrou quando resolveu empreender, há 4 anos. Embora ter o próprio negócio nunca esteve no seu radar, este foi um caminho que a encontrou e o qual não se arrepende de ter traçado. O gatilho foi a maternidade misturada com a retomada da vida após a pandemia. A vontade de passar mais tempo com o filho, ter maior flexibilidade de horários e também o mercado que se abriu para atuar mais ativamente no marketing digital foram os impulsionadores para iniciar sua própria empresa.
Os primeiros trabalhos apareceram e então as primeiras notas fiscais (NFs) foram pedidas. “Vi que precisava me formalizar”, relata. E assim iniciou a saga para se tornar uma microempreendedora individual (MEI). “Fui atrás de conversar com pessoas que já eram MEIs e vi que era um processo simples. Eu mesma abri meu CNPJ, entrei no sistema de emissão de notas, cheguei a acionar a prefeitura e assim abri meu MEI e fiz as NFs que precisava”, conta Elaíne.

Como não possui histórico empreendedor na família, a publicitária diz ter encontrado na falta de conhecimento — prático e empírico — seu primeiro grande empecilho. “Para empreender você precisa saber além do seu ofício e dominar outras áreas. Tem que entender de finanças, de administração, de gestão de pessoas. Então esse foi um grande desafio. Compreender que eu precisava saber além do marketing, precisava saber, de fato, empreender”.
Assim, Elaíne procurou a Associação Comercial e Industrial de Chapecó (Acic) e, posteriormente, o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae). Recebeu suporte, participou do MEI Up (um programa de capacitação e aceleração de microempreendedores promovido pelo Sebrae em parceria com as prefeituras), aprendeu sobre precificação, gestão de pessoas, gestão de tempo e fez networking. E quanto mais se inseria no meio empresarial, mais percebia o quanto a sua dor era compatível com a de tantos outros microempreendedores. “Acabamos ficando muito no operacional. Vejo que as pessoas estão carentes de conhecimento, especialmente de outros setores que não o seu ofício”, aponta Elaíne, que participou ativamente da criação do Núcleo de MEIs da Acic, em 2025.

Assim como vários microempreendedores iniciantes, Elaíne pensou que seria fácil trabalhar para si e que ser dona do próprio negócio significaria mais tempo. Mas logo percebeu o preço da autonomia e que se ela parasse, a empresa inteira pararia. “A maior ilusão de todo mundo que vai empreender é achar que vai ter mais tempo. Você não bate ponto, mas acaba trabalhando muito mais que as 8h. No começo a gente pensa que vai ser fácil, vou empreender e virar empresária, mas quando vem o dia a dia, a realidade, a dificuldade da captação de clientes, você repensa se não é melhor voltar a ser CLT”, confessa. Mesmo assim, ela não desistiu, continuou se capacitando, contratou uma funcionária e diz ter conhecido um novo lado de si mesma. “Nós nos acostumamos a estar nos bastidores da empresa, mas quando você é a empresa, tem que estar à frente e se envolver, sair das paredes — seja do seu home office ou do escritório — e buscar conhecimento”, opina.
A jornada de Elaíne se equipara com a de mais 16,8 milhões de brasileiros. Esse é o número de MEIs ativos no país, de acordo com o Ministério do Empreendedorismo, da Microempresa e da Empresa de Pequeno Porte (MEMP). Eles estão presentes em todos os estados e municípios e possuem um papel central na economia local. Para se ter uma ideia, apenas no mês de maio deste ano, a abertura de pequenos negócios no Brasil resultou em 456 mil novos CNPJs, quase 97% do total de novas empresas criadas. Conforme levantamento do Sebrae a partir de dados do Cartão CNPJ da Receita Federal, o número acumulado de empreendimentos desse porte abertos nos primeiros cinco meses de 2026 superou 2,5 milhões, sendo 78% MEIs.
Em Chapecó, no Oeste catarinense, já são quase 27 mil microempreendedores individuais, o que corresponde a 48% das empresas do município.
Mas a liberdade, a autonomia e a flexibilidade têm um preço. Ou vários. Muitos não se importam em trocar as férias e o décimo terceiro pela extinção do cartão-ponto. Outros nem percebem o escambo que fizeram. E nisso, a informação se tornou um ativo tão importante quanto o dinheiro. Como Elaíne relatou, é fácil abrir um CNPJ, difícil é administrar uma empresa, ainda mais sozinho. Portanto, talvez o maior desafio hoje não seja formalizar o trabalhador, mas ensiná-lo a empreender. É sobre reinvenção. Ao se tornar um MEI, a pessoa não muda apenas de trabalho, muda de vida, de rotina e de prioridades.
“Um dos maiores erros que vejo das pessoas que estão iniciando no empreendedorismo é a falta de clareza dos próximos passos que vão acontecer. Eu tenho uma estratégia, qual é o meu público alvo, onde quero chegar, qual a precificação? Sem a clareza dos passos para a gestão do seu negócio, a frustração será grande”, provoca a gerente regional do Sebrae/SC, Marieli Musskopf.
Hoje existem realidades muito diferentes por trás da mesma sigla. O MEI não é um retrato, é um mosaico. Não existe uma única forma de empreender, uma vez que cada empresa não nasce da mesma motivação.
Marieli faz uma comparação entre quem empreende por oportunidade e quem o faz por necessidade. Há uma diferença entre os dois que tange a um ponto central importantíssimo: planejamento. “Quem empreende por oportunidade geralmente se organiza, pesquisa mercado, investe em capacitação e tem uma visão de longo prazo. Já quem empreende por necessidade tende a iniciar a atividade com mais urgência, menor reserva financeira e foco imediato na geração de renda. Isso não significa que um modelo seja melhor que o outro. Muitos negócios de sucesso nasceram da necessidade. O diferencial está na capacidade de transformar uma solução emergencial em uma empresa sustentável”, orienta.
Perguntas como: quanto preciso faturar nos primeiros meses para ter meu ponto de equilíbrio? Qual vai ser o meu salário e quanto vai ficar para a empresa? Quais são as minhas despesas mensais? Isso tudo precisa estar de forma evidente e planejada para evitar que a frustração seja motivo de insucesso.
Ao mesmo tempo que milhares de pessoas estão montando seu próprio negócio de forma ordenada, outras milhares estão se endividando sem ao menos saberem disso. Há quem abra o MEI porque precisa emitir uma NF por algum serviço ou venda e depois esquece que ele sequer existe. Há também o trabalhador que foi desligado e continua prestando serviço ao mesmo empregador, mas com outra configuração, através de pessoa jurídica — o famoso PJ —, mas continua agindo como funcionário daquela empresa. Essas pessoas, em sua maioria, trazem preocupação ao Poder Público e entidades empresariais. “Muitos MEIs que abrem sem a intenção real de empreender, geralmente não sabem das suas obrigações legais, que precisam pagar a guia DAS (Documento de Arrecadação do Simples Nacional) mensalmente, que têm que fazer a declaração de faturamento e, às vezes, encontramos esses MEIs com um alto índice de endividamento, porque ele entendeu que abrindo esse CNPJ estaria amparado, quando, na verdade, ele tem as mesmas obrigações de um MEI que está faturando”, alerta a gerente do Sebrae.

É exatamente esse tipo de situação encontrada diariamente nos atendimentos realizados pelo Simplifica Chapecó. O coordenador do programa, Rodrigo Lima, observa que a simplicidade e a facilidade do acesso da abertura do CNPJ, muitas vezes, provocam a desinformação e desconhecimento das obrigações. E por trás da simplicidade, existe uma complexidade que ninguém enxerga. Ele relata que, desde que a Receita Federal implantou ações por meio de editais que provocam a exclusão do Simples Nacional das empresas inadimplentes, em 2022, tem visto uma série de MEIs enfrentando essa exclusão sem ao menos saber que seu CNPJ continha débitos. “Nosso trabalho é de orientar e trazer à luz da legislação. Explicar que a partir do momento que você é MEI, você não é mais empregado de ninguém, é empresário. E como tal, tem obrigações intransferíveis”, explica.
“Nós temos mais de 26 mil MEIs cadastrados no município e cerca de 40% deles estão inadimplentes”, relata o gerente de Estímulo à Economia de Chapecó, Luiz Carlos Balsan. Um dado cada vez mais preocupante.

Rodrigo ainda atenta para outro fator importante e facilmente negligenciado: a retirada de pró-labore. “Poucos MEIs conhecem isso. Eles não têm essa compreensão que o montante que está vindo em caixa pertence à empresa e que existe a necessidade de que ele, enquanto empresário, faça com que a empresa dele pague o seu salário. E não achar que tudo que está entrando de dinheiro vai parar no seu bolso”, afirma.
Aliás, confundir as finanças pessoais com as da empresa é um erro muito comum cometido pelo microempreendedor. Por isso foi criado o programa Conversa com o Simplifica, que consiste em rodadas com contadores da região para repassar informações acerca das micro e pequenas empresas. “Abrimos as portas para passar orientações e quebrar certos paradigmas, falar da legislação e mostrar as facilidades que temos. Basicamente, em como ele (o profissional da contabilidade) pode facilitar a vida do seu cliente e contribuir conosco. Estamos na 6ª edição e tivemos uma adesão de mais de 150 contadores”, conta Balsan.
A assessoria técnica prestada pelo Simplifica visa também incentivar o MEI a crescer, uma vez que, conforme Rodrigo, essa deveria ser a porta de entrada para criar um negócio e, a partir daí, emergir para outros patamares. “Muitos têm a visão que é melhor tirar o pé do acelerador para não desenquadrar do faturamento do MEI, mas queremos desmistificar isso. Mostrar que, quando feito com planejamento, é benéfico para a empresa. E assim, tirá-los da eterna condição de MEI para que possam subir para uma Micro Empresa (ME) e depois Empresa de Pequeno Porte (EPP)”, opina Rodrigo.
No ano passado, 943 MEIs foram fechados em Chapecó e subiram para a categoria de ME.
A verdade é que, mesmo fazendo a escolha com cautela e pesquisa, muitas pessoas aprendem a empreender... empreendendo. Foi o caso de Grazieli Aline Kunst. A moradora de São Carlos (SC) era funcionária pública da área da saúde em outro município e, assim como Elaíne, pensou em abrir seu próprio negócio para ficar mais tempo com a família. Com formação em Nutrição, viu na demanda por produtos de alimentação natural e inclusiva um mercado que valia a pena ser explorado, principalmente com atendimento especializado de uma profissional da área, com conhecimento técnico, e não apenas uma vendedora. Mas a estabilidade do concurso público a segurou por um tempo.
Ao perceber essa oportunidade que coincidia com a sua expertise, iniciou a loja como um empreendimento paralelo, uma renda extra, e assim abriu seu primeiro MEI. “Quando abri a loja não pensava em largar meu concurso, mas conforme ela foi aumentando e o fluxo crescendo, tive que optar: ou colocava alguém ali, como as outras lojas, ou partia para o propósito que me fez abrir o estabelecimento em primeiro lugar, que era eu mesma atender”, relata Grazieli.
Uma cliente, consultora do Sebrae, falou para Grazieli do MEI Up, que aconteceria em Chapecó, e a indicou a participar. “Com três meses de curso já estava decidida em largar o serviço público e focar totalmente no meu negócio”, lembra.
Isso foi no ano passado. De lá para cá, Grazi mudou o pensamento e a atitude. Investiu na empresa, contratou uma funcionária, mudou a loja de endereço para uma área melhor localizada, aumentou o estoque, contratou um escritório de contabilidade e migrou para ME. Algo que relata ter sido inicialmente assustador, mas extremamente gratificante. “Foi quase como começar novamente do zero. Conheci o Dalvair Angheben (meu contador) durante o MEI Up e ter um profissional dessa área foi um passo importante para o meu negócio crescer de forma segura. Eu mesma já caí na malha fina e paguei multa por algo bobo, que não sabia que precisava fazer e passou despercebido. Não precisamos saber tudo, mas precisamos saber onde procurar”, diz a empresária.

Mas nem tudo são rosas e nem todos os dias são fáceis. Tem dias que o cliente não vai à loja e outros que as vendas não atingem a meta esperada. Mas compensa, ao menos para Grazi, poder passar mais tempo com a filha, ter contato com seus clientes e ver a sua empresa crescer. “Digo que troquei a estabilidade por qualidade de vida. Agora penso até na sucessão, fico olhando a minha filha andando pela loja e penso se ela vai querer trabalhar aqui comigo também”, conta e ainda deixa uma dica para quem está pensando em empreender: “Comece com o que você tem. É difícil começar com 100% do seu sonho pronto e não é por isso que você deve deixar de correr atrás. Com as circunstâncias em que você está, busque começar, saia da sua zona de conforto”.
Grazi e Elaíne mostram que, quando uma pessoa decide empreender, ela não muda apenas de vínculo profissional. Ela passa a carregar uma empresa inteira sobre si. E aprendem, diariamente, que empreender é muito mais do que exercer uma profissão. É reinventar a própria forma de viver o trabalho.