Em uma sociedade que celebra a exaustão, sentimos que precisamos sempre dar conta de um pouco mais.
FVcomunica!
Vivemos em uma era que celebra a produtividade acima de quase tudo. Responder mensagens enquanto participamos de uma reunião, revisar um documento enquanto escutamos um podcast, acompanhar notificações enquanto tentamos estudar. A cultura contemporânea não apenas tolera essa fragmentação da atenção — ela a glorifica. Ser multitarefa tornou-se, quase, uma virtude. Mas há um pequeno problema: o cérebro humano não foi feito para isso.
De acordo com a psiquiatra Dra. Rafaela Pavan, do ponto de vista neurocientífico, aquilo que chamamos de “multitarefa” raramente é a execução simultânea de duas tarefas cognitivamente complexas. “O que realmente acontece é um processo chamado alternância de tarefas (task switching). O cérebro desloca rapidamente seus recursos atencionais de uma atividade para outra. Cada troca exige um pequeno custo cognitivo: reorganizar prioridades, recuperar informações da memória de trabalho e reconfigurar redes neurais envolvidas na tarefa seguinte. Esse custo é pequeno em cada transição, mas cumulativo ao longo do tempo”, esclarece.
Estudos em psicologia cognitiva mostram que a alternância constante entre tarefas reduz a eficiência, aumenta erros e prolonga o tempo total necessário para concluir atividades. Em outras palavras, aquilo que acreditamos acelerar nossa produtividade frequentemente produz o efeito oposto: trabalhamos mais e realizamos menos.
Ainda, conforme a médica, existe também um impacto mais silencioso: a qualidade do pensamento. “Processos mentais complexos — como aprender, raciocinar, criar ou tomar decisões — dependem de períodos sustentados de atenção. Quando interrompemos continuamente esse estado de foco, impedimos que o cérebro alcance níveis mais profundos de processamento cognitivo. O resultado é um pensamento mais superficial, fragmentado e reativo”, afirma Dra. Rafaela.
Mesmo assim, curiosamente, o cérebro humano é extremamente competente em uma forma específica de multitarefa: combinar uma tarefa automática com outra que exige atenção. “Caminhar enquanto conversamos, dirigir em uma estrada conhecida enquanto ouvimos música. Nessas situações, uma das atividades já está amplamente automatizada por circuitos subcorticais e exige pouca supervisão consciente. Mas quando duas tarefas competem pela mesma rede atencional — como escrever um relatório e responder mensagens — a simultaneidade simplesmente não existe. Existe apenas alternância. E cada alternância cobra um preço”, alerta.
Para a psiquiatra, talvez, a verdadeira habilidade cognitiva do século XXI não seja fazer muitas coisas ao mesmo tempo, mas proteger a atenção. Criar espaços de monotarefa em um mundo que nos empurra continuamente para a dispersão. “Porque produtividade real não nasce da fragmentação da mente. Nasce da profundidade. Por isso sempre é importante lembrar: não existe saúde sem saúde mental! Como você está cuidando da sua?”.