cultura
16/04/2026

O crepitar da memória chapecoense

Existem episódios históricos que assinalam a vida de uma cidade. Chapecó tem o seu.

AUTOR

Fernando Boppré

O que cada comunidade faz com a memória das tragédias que vivenciou é uma decisão sensível e política. Sensível porque depende das pessoas se deixarem afetar e se posicionarem contra a violência. Para que ela não se repita. Política porque cabe às instituições públicas manter estas histórias vivas através de eventos, processos de musealização e educativos ou mesmo na edificação de monumentos.

Em outubro de 1950, o linchamento de quatro acusados do incêndio na igreja Santo Antônio, localizada em Chapecó, Santa Catarina, reverberou em jornais e revistas de circulação nacional. “Cenas de barbarismo em Chapecó” (O Estado de S. Paulo), “O massacre de Xapecó” (Folha de S. Paulo) e “A chacina de Xapecó – 300 colonos endemoniados” (O Dia). 

Em 1954, o dramaturgo paulista Jorge Andrade (1922-1984) retomou este acontecimento brutal e iniciou a escrita do texto teatral O Incêndio. A trama coloca em cena o destino trágico de Omar, Luzia, Romualdo, Orlando e Jupira, encurralados pelo coronelismo local exercido por Deputado Galvão, Padre Líbero, Delegado Ulhôa e Coronel Azevedo.

As personagens são fictícias, mas os acontecimentos parecem espelhar o que se passou em Chapecó em 1950. A leitura é extraordinária porque estamos diante de um dos principais nomes da dramaturgia brasileira cujas obras ganharam vida também no cinema e na televisão, destacando-se Vereda da Salvação, versão cinematográfica dirigida por Anselmo Duarte (1965), e Os Ossos do Barão, que se tornou telenovela na rede Globo (1979) e no SBT (1997). 

O texto percorreu longos anos, incluindo a censura do regime militar brasileiro. Foram mais de dez versões, sendo publicado pela primeira vez em 1979 pela editora Global em uma versão com dois atos cênicos e um enredo menor em relação à edição relançada agora em 2026. A partir da pesquisa do historiador Cassiano Mignoni, a editora Humana de Chapecó apresenta, pela primeira vez, a peça em três atos que foi escrita em 1965 e nunca havia sido publicada até então. Um livro que também ganha a dimensão de documento para se manter viva a memória da comunidade. 


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