Muito além do que se vê no desfile, o Fashion Pátio Chapecó revela o processo, as pessoas e as escolhas que transformam moda em experiência, narrativa e conexão.
Carol Bonamigo
Você pode até achar que não se importa com moda. Mas, como bem pontua a icônica Miranda Priestly, em O Diabo Veste Prada, essa é uma ilusão confortável. Porque, no momento em que você escolhe o que vestir — ainda que com a intenção de “não pensar sobre isso” — alguém, em algum lugar, já pensou por você. Tendências foram criadas, reinterpretadas, filtradas e, então, suavemente depositadas nas araras, prontas para serem escolhidas como se fossem acaso.
Para quem assistiu ao aclamado filme de 2006 (que neste ano recebe uma sequência, novamente pela direção de David Frankel e mesmo elenco estrelado), lembra bem quando Miranda (o “diabo” do título, interpretada pela magnífica Meryl Streep), ao dar uma merecida lição na protagonista Andy (Anne Hathaway ainda pré-makeover), diz: “você acha que isso não tem nada a ver com você. Você vai ao seu armário e seleciona esse suéter para mostrar ao mundo que você se leva muito a sério para se preocupar com essas ‘coisas’”. A partir daí, Miranda passa a dar uma verdadeira aula desse mercado multibilionário, falando de coleções de Oscar De La Renta e a cascata posterior da alta costura até que o tom azul-cerúleo chegasse às prateleiras do varejo fast fashion. Miranda ainda termina seu monólogo dizendo que aquela cor representa milhões de dólares e incontáveis postos de trabalho e chega a ser cômico Andy pensar que fez uma escolha que a excede da indústria fashion quando, na verdade, ela estava usando uma peça selecionada para ela pelas pessoas daquela sala. Ou seja, você pode não se importar, até mesmo dizer que é indiferente, mas não se iluda, a moda faz parte da sua vida, mesmo que você não saiba.
Você pode até resistir. Pode dizer que não acompanha tendências, que não se interessa por desfiles ou que prefere o conforto daquilo que já conhece. Mas a moda não depende da sua atenção para existir — ela se infiltra, silenciosa, nas suas escolhas cotidianas.
Ela está na forma como você se apresenta em uma reunião, no look escolhido para um jantar, na roupa confortável de um domingo qualquer. Está na construção de identidade individual e coletiva.
E talvez seja justamente por isso que os grandes desfiles do mundo deixaram de ser apenas vitrines de peças para se tornarem experiências sensoriais. Não se trata mais de mostrar o que será usado, mas de provocar o que será sentido.
A moda é linguagem. E, em alguns momentos, ela deixa de ser apenas expressão para se tornar espetáculo. Quem cresceu assistindo às superproduções da Victoria’s Secret Fashion Show ou, mais recentemente, ao impacto cultural do Savage X Fenty Show, entende que passarela nunca foi apenas sobre roupa. É sobre narrativa, construção de desejo, experiência. É sobre provocar.

Nas últimas décadas, a moda passou por uma transformação profunda. Se antes os grandes centros como Paris, Milão e Nova York ditavam tendências de forma quase unilateral, hoje o fluxo é mais dinâmico, mais descentralizado e plural.
As semanas de moda continuam sendo referência, mas o comportamento do consumidor mudou. A velocidade da informação, impulsionada pelas redes sociais, fez com que tendências deixassem de ser apenas impostas para serem reinterpretadas em tempo real. O que se vê hoje é um diálogo constante entre o global e o local.
É exatamente nesse território — entre o vestir e o sentir — que o Fashion Pátio Chapecó se posiciona e encontra sua força. Na capacidade de traduzir esse movimento para uma realidade específica, sem perder a conexão com o que acontece no mundo.
Na sua 12ª edição, o evento não apenas acompanha o curso global da moda, mas traduz esse movimento para a realidade local com uma ambição clara: transformar o Oeste catarinense em palco de uma experiência que dialoga com o mundo. Mas, antes de qualquer look cruzar a passarela, existe um universo invisível onde tudo, de fato, começa.
Muito antes das luzes acenderem, o Fashion Pátio já está acontecendo. Ele começa em reuniões, em referências, em observações sobre comportamento, mercado e cultura. Começa no olhar. Para o produtor de moda André Guerra, responsável por dar forma ao espetáculo, nada nasce de um ponto isolado. “A resolução de uma nova produção parte de um todo. Não só do que aconteceu na edição passada, mas também do que está por vir. O momento mundial, o que a moda está conversando, o público que esteve presente, tudo precisa dialogar”, explica.
Esse “todo” se desdobra em decisões que o público raramente percebe, mas que sustentam absolutamente tudo. Iluminação, trajeto da passarela, casting, comportamento dos modelos, ritmo, styling. Cada detalhe é calculado para construir uma experiência coerente. E, no fim, existe um objetivo claro, ainda que muitas vezes não verbalizado: conexão. “Esse diálogo com o público é o nosso objetivo. Para que depois isso reverbere também nas vendas, que é o ponto principal”, completa André. Porque, sim, por trás de toda a harmonia, existe estratégia.
Com uma trajetória consolidada no universo da moda, André carrega não apenas a responsabilidade de executar o evento, mas de interpretá-lo. Sua leitura vai além da estética. É comportamento, mercado e percepção. “Existe um estudo muito grande por trás. Nada é aleatório”, reforça.
Essa construção passa por camadas — algumas visíveis, outras completamente escondidas dos olhares não treinados. São meses de planejamento, ajustes e decisões que, muitas vezes, precisam ser refeitas. “Eu começo a trabalhar nessa edição meses antes. É um processo longo, que envolve muitas reuniões, muitos testes, muitas revisões”. E talvez seja justamente essa atenção minuciosa aos detalhes que sustenta a evolução do evento ao longo dos anos.
E se a moda é linguagem, o modelo é o corpo que a traduz. E é no casting que essa tradução começa a tomar forma. Na seletiva, o cenário é quase paradoxal: uma mistura de nervosismo, expectativa e silêncio atento. Um espaço onde poucos passos dizem muito. “Em dois, três passos eu já consigo entender quem está pronto para a passarela”, afirma André.
Mas o que se busca ali vai além da técnica. Existe uma preocupação clara em refletir, na passarela, o mundo real, ainda que sob uma lente cosmética. “A gente precisa apresentar diversidade dentro de um formato que converse com o público. As pessoas precisam se ver na passarela. Quem não quer se ver ali?”, indaga André.
Essa fala revela um dos pontos mais interessantes do Fashion Pátio. Ele não tenta apenas reproduzir o que acontece nos grandes centros. Ele adapta, traduz e, principalmente, aproxima. E, ao mesmo tempo, abre espaço. Espaço para talentos locais, para experiências que, muitas vezes, não existiriam fora dali. “É uma oportunidade rara. Por isso eu procuro trabalhar com o maior número possível de modelos locais”, reforça o produtor.
O casting, nesse contexto, deixa de ser apenas uma etapa técnica e se transforma em um verdadeiro ritual de entrada. Cada modelo carrega não apenas suas medidas e experiências, mas expectativas, inseguranças e sonhos. Enquanto aguardam sua vez, os olhares se cruzam, os passos são mentalmente ensaiados, e o silêncio é quebrado apenas por orientações pontuais.
De um lado, o olhar treinado de quem sabe exatamente o que procura. Não há muito tempo para impressionar. E, ainda assim, tudo precisa ser dito em poucos passos.
E para quem está do outro lado, o processo ganha nova dimensão. O modelo Felipe Pimenta sabe bem disso. Em sua 9ª participação no evento, ele carrega não apenas o status de veterano, mas uma relação afetiva com o Fashion Pátio. “Toda vez é uma experiência nova. Sempre dá aquele friozinho na barriga”, conta.
E talvez seja justamente esse detalhe que diferencia um evento técnico de um evento memorável. A emoção que resiste ao tempo. Mesmo com a evolução do nível, como Felipe mesmo define “cada vez mais alto”, o sentimento permanece. “Nunca foi só um desfile. A gente sabe da responsabilidade que carrega quando entra ali”.
Nos bastidores, longe dos olhares do público, existe também a troca. Entre veteranos e estreantes. Entre histórias e expectativas. “A gente compartilha experiência com quem está começando. E isso faz a gente lembrar da nossa primeira vez também”, compartilha o modelo. É nesse espaço invisível que o evento se humaniza.
Se André constrói o espetáculo e os modelos o materializam, existe um outro eixo fundamental que sustenta o Fashion Pátio: a curadoria. E é aqui que a moda deixa de ser apenas estética para se tornar narrativa estruturada.
Para Cristiane Andretta, gerente de Marketing do Pátio Shopping, esse é um dos maiores desafios e responsabilidades do evento. “Construir uma narrativa de moda exige autenticidade e consistência. Tudo precisa estar conectado ao nosso mix de lojas, traduzindo uma curadoria coerente e acessível ao público”, explica.
Porque, no fim, o Fashion Pátio não é um desfile autoral isolado. Ele é um organismo coletivo. São diferentes marcas, diferentes estilos, diferentes propostas que precisam coexistir dentro de uma mesma história. “Revelar a essência é dar espaço para que cada loja expresse sua identidade. O individual, quando se conecta com o coletivo, ganha ainda mais força”, reflete.
Essa construção exige equilíbrio. É uma equação delicada, mas quando funciona, o resultado é potente. Está entre o desejo de inovar e a necessidade de manter coerência; entre provocar e acolher; entre o conceitual e o comercial. “Existe um trabalho muito forte de alinhamento com os lojistas. A gente orienta, provoca, instiga”, explica Cristiane.
Esse processo dos bastidores é essencial para o resultado final. É ele que garante que, mesmo com múltiplas vozes, a narrativa seja única.
Ao longo dos anos, o Fashion Pátio cresceu. Em estrutura, qualidade e ambição. Mas, como em toda metamorfose, existe o risco silencioso de perder a essência no processo. E talvez seja por isso que a resposta de Cristiane venha carregada de emoção: “O que permanece intocável é o cuidado com cada detalhe e o amor envolvido em cada produção”.
Mais do que técnica e estrutura, é isso que sustenta o evento. “O brilho no olhar da equipe, dos lojistas e do público. Essa energia é o que faz o Fashion ser o que é”, afirma. No fim, são as pessoas. Sempre.
Para 2026, o Fashion Pátio mergulha na transformação. Um conceito que parece, de certa forma, traduzir tudo o que acontece nos bastidores. Inspirado na ideia de metamorfose e no conceito “EgoEco”, o evento propõe um olhar mais sensível sobre a moda, como proteção, expressão e reconexão. Como um casulo que não esconde, mas prepara. Como um processo que não é imediato, mas necessário.
A narrativa acompanha esse movimento da construção silenciosa até o momento da revelação. E é justamente isso que torna o Fashion Pátio tão interessante. Porque, no fundo, ele não fala apenas de roupas. Ele fala sobre identidade, sobre pertencimento, sobre a necessidade, cada vez mais urgente, de ser, de fato, quem se é.
Quando as luzes acendem e o primeiro modelo entra, o público vê apenas o resultado. Mas, naquele instante, tudo já aconteceu. Cada escolha, cada ajuste, cada ensaio, cada conversa nos bastidores, tudo converge para aquele momento.
E, ainda assim, o mais interessante é perceber que o desfile não é o fim. Ele é só o começo. Porque, como já nos ensinou Miranda Priestly — e como o Fashion Pátio reafirma a cada edição — a moda não termina na passarela. Ela continua. No guarda-roupa, nas araras, nas ruas, na forma como cada pessoa decide, consciente ou não, se mostrar ao mundo.
