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Você já se encontrou hoje?

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A vida nos proporciona grandes encontros, o tempo todo. Alguns deixam marcas profundas, outros nos fazem seguir o dia com um sorriso sincero no rosto.

Eu tinha acabado de sair do cinema quando conheci Janaína. Fui ver O Filme da Minha Vida, de Selton Mello, gravado na Serra Gaúcha, região onde nasci. Não estava nos planos daquele sábado ensolarado, mas resolvi seguir o conselho da minha mãe. “Faça algo para melhorar seu dia”, disse ela sabiamente quando liguei choramingando depois de perder meu óculos de sol. Era um óculos caro. Caro demais para quem tem uma vida meio atrapalhada. Ao sair da sessão, ainda refletia sobre minha ligação afetiva com o filme, quando alguém gentilmente interrompeu minha viagem no tempo. “Moça, você trabalha no shopping?”, perguntou a menina magrinha, de cabelos longos e olhos curiosos. Naquele exato momento eu percebi. Era um encontro.

Janaína, de mais ou menos uns sete anos, estava no ponto de ônibus, acompanhada da mãe, dona Rosa. Quando contei o porquê estava ali, ela logo falou: “eu nunca fui ao cinema”. Dona Rosa, uma senhora de cabelos brancos e olhos cansados, quis explicar. Parecia que há tempos queria falar, e então se abriu. Contou que a menina, filha temporona, segundo ela, tratava um câncer desde bebezinha. Não podia ir para a escola, muito menos para o cinema. Mas fazia duas semanas que tinha ganhado mais uma alta do hospital. A conversa então seguiu por mais uns 30 minutos, até o ônibus chegar e interromper a prosa, que terminou esperançosa. Mãe e filha embarcaram e dona Rosa lá de cima gritou: “dessa vez acho que as coisas vão melhorar”. Nunca mais vi Janaína. Nunca mais pensei no meu óculos de sol.

Henrique, em um dos seus encontros com a estrada (1)

Sempre achei que tinha algum tipo de chamariz que atraía as pessoas e as deixava à vontade em compartilhar comigo suas histórias. Com o tempo percebi que não é uma questão de ser e sim de estar. De estar aberto, atento às sutilezas dos pequenos encontros. Micro-momentos que acontecem na rua, na fila do supermercado, na padaria, no bar, no caminho de casa, dentro do ônibus, com os vizinhos, com desconhecidos. E que, no fundo, somam às nossas experiências e nos tornam quem somos hoje.

“É o que chamamos de devir (vir a ser). Estamos o tempo todo em relação, nos constituindo enquanto sujeitos e, nesse processo, nos tornamos o tempo todo indivíduos com necessidades e desejos diferentes. Ou seja singulares”, explica a psicóloga Maria Carolina Silveira. “E não é isso o belo no ser humano?”, complementa. São situações que não se explicam, acredita ela. Eles simplesmente acontecem. Podemos é chamar de um bom encontro. “Bons encontros produzem o novo, nos tiram do lugar comum, produzem novos sentidos para a vida”, acrescenta a psicóloga. Tem alguns que passam despercebidos e outros, por menores que sejam, produzem ressignificados, re-existência.

Henrique Lammel, por exemplo, jornalista que tive a sorte de encontrar em Porto Alegre no ano passado, estava descrente na humanidade. Tinha perdido a fé nas pessoas, quando decidiu pegar a mochila e conhecer a América Latina, sem roteiro e sem data para voltar. Foram 10 meses, 23.447,60 quilômetros, 119 cidades e seis países. Setecentos quilômetros caminhando e 102 noites acampando. Durante esse caminho todo, muitos encontros. Bons encontros. Ele lembra de todos eles. Não muito bem dos nomes, mas as pessoas, as histórias e toda a ajuda que encontrou pelo trajeto estão muito vivas na sua memória. Ressignificaram a sua própria existência. “Um amigo que conheci viajando falou algo que nunca mais esqueci. Quando tudo que você tem está dentro de uma mochila, quando ninguém lhe conhece e você não conhece ninguém, pouco importa se você é rico ou pobre. Importa quem você é”, conta.

Logo no terceiro dia de viagem, enquanto fotografava uma ilha de Cartagena, na Colômbia, Henrique e uma mexicana que conheceu pelo caminho, foram abordados por seis homens. Roubaram todo o dinheiro que tinham. Enquanto ainda pensando no que fazer, encontraram um jovem colombiano, líder da comunidade, que os levou até a sua casa. Uma casa de pedra e chão batido, contornada por uma cerca feita com galhos de arbusto. No quintal, onde as galinhas se espalhavam, eles encontraram refúgio e descanso embaixo de uma árvore. “Uma família simples, que nos acolheu e nos deu o que comer. O rapaz ainda nos levou até o local de onde saem os barcos e negociou a nossa travessia até a próxima cidade, para continuarmos a viagem”, relata.

“Na estrada recuperei a fé no ser humano e descobri que o planeta é muito maior do que dizem. Porque algumas pessoas têm o mundo dentro delas” – Henrique.

Já no Sul da Patagônia, depois de dois dias caminhando, enfrentando muito frio e vento forte, e preocupado em acampar na estrada, um alento. Um caminhão para na estrada e oferece carona. Um caminhão velho, sujo, com os vidros quebrados. Um motorista de bom coração. “Estar na estrada, com muita chuva e frio, e alguém parar e levar você por dois minutos até um lugar seco vale muito mais que dinheiro. Essas experiências, eu tenho certeza, mudam a gente. Abrem a nossa cabeça. Nos deixam menos preconceituosos. A maioria das pessoas com quem cruzei não tinham grande poder aquisitivo. E mesmo assim, sem bens, elas davam um jeito de ajudar”.

Do tempo em que resolveu viajar, quando lia no jornal sobre pessoas esfaqueadas por um tênis de R$ 100 no centro de Porto Alegre, até agora, muita coisa mudou em Henrique. Graças aos encontros importantes que salvaram sua vida e também aos que garantiram momentos de extrema felicidade e aventura. Como quando percorreu o deserto do Atacama em meio a raios, tempestade e chuva de pedra, com um ciclista chileno que tinha acabado de conhecer. Ou quando visitou Toro Toro, o parque mais famoso de Cochabamba, na Bolívia, com um grupo de pessoas de seis países diferentes. “Na estrada recuperei a fé no ser humano e descobri que o planeta é muito maior do que dizem. Porque algumas pessoas têm o mundo dentro delas”, destaca o jornalista.

O mundo é salvo todos os dias

Eliane Brum, no livro A Vida que Ninguém vê, começa dizendo que “o mundo é salvo todos os dias por pequenos gestos. Diminutos, invisíveis. O mundo é salvo pelo avesso da importância. Pelo antônimo da evidência. O mundo é salvo por um olhar. Que envolve e afaga. Abarca. Resgata. Reconhece. Salva. Inclui.” Pensando nisso e nas histórias que Henrique me contou, logo imagino que o ser humano só conseguiu sobreviver porque trocou experiências entre si. E que as histórias das pessoas que conhecemos ao longo do caminho vão moldando as nossas. Para isso, claro, é preciso estar disponível. Segundo Maria Carolina, estar inclinado. Não só escutar, mas ouvir, por todos os órgãos de sentido.

“Afinal, nos comunicamos por diversos modos. Às vezes não é preciso dizer nada, às vezes é preciso horas de conversa”, acrescenta a psicóloga. E foi assim, quase sem dizer nada, apenas ouvindo, que a contadora de histórias Josiane Geroldi, que tive a graça de conhecer em Chapecó, retomou a sua própria história. Foi em 2015, quando ela voltava de um espetáculo, no norte do Paraná.

Josiane, encontrando o mundo (1)

Bastante cansada, depois de dirigir quase 15 mil quilômetros em seis meses, ela cochilou no volante e o carro capotou. Foi levada para o hospital mais próximo, em Pato Branco. No quarto, estavam mais cinco mulheres. Duas delas, bastante senhoras. Foram elas que acolheram Josiane até a família chegar. Com o quadril e mais seis costelas fraturadas, cansada já da estrada, lá mesmo no hospital decidiu não mais viajar. “Eu estava tão cansada que decidi parar e fazer outra coisa da vida. Esse caminho passou a ser muito perigoso”, relembra a artista. Mas entre as cinco mulheres, estava dona Maria, uma avó cabocla. E dona Maria, quando descobriu que a colega de quarto era contadora de histórias, se empolgou. “Eu adoro contar causos”, disse ela sorrindo.

Foi quando Josiane conseguiu falar pela primeira vez. Pediu para que a senhora narrasse algumas das suas histórias. “Ela foi lembrando e contando os causos. E aconteceu uma coisa muito bonita aquele dia. As pessoas que estavam internadas e os acompanhantes começaram a sentar nas camas para escutar as histórias de dona Maria. E todas as mulheres do quarto tinham memórias de histórias parecidas”, lembra. Uma acompanhante do quarto ao lado, ao ouvir as risadas que fugiam pelos corredores, chegou a se encostar na porta entreaberta para ouvir também. Enfim, o riso e a alegria abraçaram aquele ambiente tão costumeiro de dor. “Depois de dona Maria contar os seus casos ela disse: ai ai, inté se esqueci que tava no hospital, e deu uma gargalhada”.

“A minha experiência com a dona Maria ressignificou a minha existência de fato. Eu precisei quase morrer, para renascer e perceber que o que eu faço não é só por mim” – Josiane Geroldi.

Josiane conta que, naquele momento, as pessoas realmente esqueceram a dor e os motivos pelos quais estavam alí. Dona Maria conseguiu suspender o tempo. “Eu me emocionei e chorei. E percebi que não podia parar. A minha experiência com a dona Maria ressignificou a minha existência de fato. Eu precisei quase morrer, para renascer e perceber que o que eu faço não é só por mim”, reflete. Hoje, ela segue viajando e contando histórias. Toda vez que sobe no palco, agradece muito por ter a oportunidade de encontrar as pessoas, principalmente dona Maria. Afinal, se ela não tivesse se envolvido na história da artista, esse causo de agora poderia ser diferente.

“Foi uma das experiências mais fortes e importantes na minha vida. Desistir nunca mais passou pela minha cabeça. Graças a esse encontro”. Estamos aqui falando das miudezas da vida, de estar aberto ao mundo, sensível ao detalhes ao redor. Olhar e enxergar o outro. Andar mais sem fones de ouvido. Algo incrível pode estar acontecendo ao seu lado nesse exato momento.

Marisa Monte, quando canta a música Gentileza, uma homenagem ao profeta famoso por escrever nas pilastras do Viaduto do Gasômetro, no Rio de Janeiro, pergunta: o que é mais inteligente, o livro ou sabedoria? Mas de onde vem a sabedoria? Há quem diga que quem viaja tem muito para contar, mas como diz Walter Benjamin, o homem que ganha honestamente sua vida sem sair do seu país, que conhece suas histórias e tradições, também tem muito para narrar, basta escutarmos com prazer.

Sobre o autor

Greici Audibert

Greici Audibert

Repórter com interesse em literatura, tecnologia, política, bichos fofos e cultura pop.

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