DESTAQUE MEIO AMBIENTE E SUSTENTABILIDADE

Uma conta que não fecha

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Ilha das Flores é um documentário premiado de 1989 que evidencia a contradição da sociedade de consumo: um tomate comprado com dinheiro trocado por perfumes é considerado inadequado para um molho usado na carne de porco. Vai para o lixo transportado até o terreno adquirido com dinheiro de um criador de porcos. Lá se torna o alimento de mulheres e crianças que tomam para si o que é descartado pelos porcos. A crítica em si é contra o consumo exagerado e a desigualdade social. Mas ao que remete o desperdício de alimentos quando lembramos que 60% do lixo urbano produzido no Brasil é composto de comida enquanto uma em cada nove pessoas sofre de fome no mundo?

A informação faz parte do relatório O Estado da Insegurança Alimentar no Mundo (Sofi) divulgado em 2014 pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) e Programa Mundial de Ali- a mentos (PMA). O documento serve para alertar, buscar soluções e garantir o sustento de sete bilhões de pessoas em um planeta que produz alimentos para 12 bilhões. Sim, produzimos o dobro de comida que precisamos e mesmo assim 805 milhões de indivíduos passam fome no mundo.

Acontece que 1,3 bilhão de toneladas de alimentos são desperdiçados por ano, o suficiente para alimentar 925 milhões todos os dias. Na América Latina e Caribe, a maior incidência de perdas ocorre nas fases de produção e transporte, mas 15% do descarte se dá nas vendas e junto ao consumidor. Na América do Norte, Oceania e Europa sucede o oposto e entre 30 e 40% do desperdício acontece na casa das pessoas.

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Por isso que em Portugal surgiu um projeto que pode e deve servir de inspiração para outros países. É claro que os motivos que levam às perdas acontecem ao longo de toda a cadeia agroalimentar. Condições de armazenamento, transporte, modelos intensivos de produção, prazos de validade e promoções que incentivam compras exageradas são algumas razões que interferem no índice. No entanto, a preferência por alimentos considerados “perfeitos” acaba restringindo o consumo aos que se enquadram em normas estéticas.

A escolha por frutas e legumes mais bonitos pode fazer parte de um processo inconsciente e hereditário das pessoas. Isso porque nossos ancestrais (milhões de anos atrás) aprenderam que os alimentos maiores e mais bonitos, provavelmente não estavam estragados e tinham menos chances de fazer mal à saúde. Isso tem a ver com os estudos desenvolvidos por Charles Darwin sobre o processo evolutivo dos seres vivos e na organização da vida no planeta. Agora, porém, com tanta oferta de comida, esse hábito inconsciente ou não acaba elevando os índices de desperdício. Tanto que essa exigência dos canais habituais de distribuição resulta na perda de 30% do que é produzido pelos agricultores portugueses.

IMG_0151Gente bonita come fruta feia

É aí que surge a cooperativa Fruta Feia. Da necessidade de inverter tais tendências de normalização que não tem a ver com questões de segurança e de qualidade alimentar. Foi criado então um mercado alternativo para as frutas e hortaliças ditas “feias”. Funciona assim: o consumidor se associa, ganha um cartão e um saco de pano para buscar sua cesta composta por frutas e hortaliças que variam de acordo com época do ano e a oferta na região. São alimentos que os produtores não conseguem escoar por causa da aparência, ou seja, possuem uma pequena batida, são pequenos, tem manchas ou cores diferentes. As cestas menores custam entre 3,5 e 7 euros e são distribuídas semanalmente em pontos fi xados em Lisboa.

Atualmente 500 consumidores associados ajudam a evitar duas toneladas de desperdício por semana, segundo a Cooperativa, que ao alterar os padrões de consumo busca um futuro onde o comércio seja mais igualitário, independentemente do tamanho, formato ou cor do produto. “Fruta feia é fruta boa. Alimento bom é alimento que estraga. Se não estragar, tem algo errado”, acredita a nutricionista e extensionista da Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina (Epagri), Eliziane Casaril, se referindo aos conservantes e agrotóxicos utilizados em produtos que duram muito tempo.

A nutricionista participa da interlocução entre as Secretarias de Educação e os agricultores de 38 municípios da região oeste de Santa Catarina – geralmente organizados em cooperativas – no processo de aquisição dos alimentos destinados à merenda escolar. A Lei nº 11.947, de junho de 2009, determina que no mínimo 30% do valor repassado a estados, municípios e pelo Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE) para o Programa Nacional de Alimentação Escolar (Pnae) sejam utilizados na compra de gêneros alimentícios da agricultura familiar. Além de auxiliar na negociação e na legalização dos produtores, a Epagri ajuda a inserir nos cardápios os produtos que não se enquadram nos padrões. “Tentamos mostrar que talvez a fruta ou o legume pequeno ou mais feinho são muito saborosos e nutritivos. Ainda mais os orgânicos, que tem uma produção totalmente natural”, explica Eliziane.

40 toneladas de alimentos são desperdiçados no Brasil. Das perdas de frutas e hortaliças: 50% manuseio e transporte; 30% comercialização; 20% campo e consumo. Fonte: Embrapa

A Epagri também trabalha na capacitação de agricultores e merendeiras para melhor aproveitamento da comida. As iniciativas, segundo Eliziane, são bem recebidas pelo público, mas a prática esbarra na falta de percepção. “Por não haver uma carência maior de alimentos, pouco dessas ideias se coloca em prática”, lamenta a extensionista. Outro grande entrave no combate ao desperdício, de acordo com a consultora do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) Catalina Etcheverry, é a existência de leis que não permitem doações de comida que sobra, mesmo em perfeitas condições de
consumo.

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No Brasil, atualmente, a responsabilidade civil e criminal sobre danos causados às pessoas que recebem alimentos doados recai sobre quem os doou. E apesar existirem vários projetos no Congresso Nacional com a proposta de modificar a lei que trata das normas básicas sobre alimentos (Decreto-Lei 986/1969), os restaurantes seguem impossibilitados de doar. “Ninguém quer se responsabilizar, porque depois que o alimento sai do seu estabelecimento não existe mais segurança e controle sobre a qualidade e o armazenamento”, expõe a vice-presidente do Sindicato de Hotéis, Restaurantes, Bares e Similares de Chapecó, Gabriela Baptistotti. Ela é sócia de dois restaurantes e assegura existir um esforço para controlar a quantidade de comida elaborada, embora a sobra, por vezes, seja praticamente inevitável. “Sentimos um desconforto pessoal muito grande em jogar comida fora, sabendo que poderíamos ajudar muitas pessoas”, expõe Gabriela.

Já em casa, o processo é bem menos complicado e quem se dispõe a evitar o desperdício contabiliza benefícios. Afinal, não desperdiçar, também é economizar. “É um ato que inicia desde o planejamento de suas necessidades, ou seja, ir ao mercado ou à feira sabendo o que realmente precisa comprar. Uma lista ajuda a ter controle e o melhor de tudo é que deixamos de comprar supérfluos”, destaca a técnica em gastronomia Aliandra Veiga, adepta ao consumo consciente.

O passo seguinte é cuidar o modo como os alimentos são armazenados, porque isso também vai determinar o tempo de duração dos produtos. “Para quem prepara a refeição, o ideial é calcular bem a quantidade de modo a satisfazer a todos, porém sem exagerar para não sobrar no final. Mesmo assim, alguns alimentos podem ser incrementados em outras receitas. Aí vai da criatividade e dedicação de cada um”, lembra a técnica, que dá algumas dicas. “Um molho de carne moída que sobrou pode virar panqueca, recheio para pastel, arroz de forno ou sanduíche”, sugere Aliandra. Poucos alimentos, segundo ela, não podem ser reutilizados. Basta um pouco mais de percepção, imaginação e cuidado. Caso haja dificuldades, a internet, os livros e os profissionais da área estão aí para ajudar.

Mesa farta Brasil

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Foi assim – procurando e encontrando ajuda – que uma importadora e distribuidora de alimentos de Chapecó descobriu um jeito de reaproveitar cerca de 15 mil quilos de alimentos por mês. Segundo o gerente administrativo André Nicola, a empresa foi uma das primeiras colaboradoras do programa Mesa Brasil Sesc, uma rede nacional de bancos de alimentos contra a fome e o desperdício de comida e que funciona há uma década na cidade.

Trata-se essencialmente de tudo que falamos até agora: um programa de segurança alimentar e nutricional e distribuição de alimentos excedentes ou fora dos padrões de comercialização, mas que ainda podem ser consumidos. “Classificamos os produtos antes de enviar aos supermercados. Eles só têm alguma batida ou mancha e o restante é saudável. Não seria justo simplesmente descartar, enquanto tanta gente só tem essa oportunidade de comer”.

Por ano. 1,3 bilhão de toneladas de alimentos vão para o lixo enquanto 805 milhões de pessoas passam fome. Fonte: ONU

A distribuidora destina ao Mesa Brasil uma média de 150 toneladas de alimentos por ano. São cerca de 330 mil refeições. Caixas e caixas de comida antes descartadas e agora distribuídas para as 67 entidades cadastradas no programa. “O Sesc vai até a empresa, seleciona os alimentos e faz a entrega diretamente às organizações que geralmente atendem pessoas em estado de vulnerabilidade social”, acrescenta a nutricionista do Mesa Brasil, Paula Schlegel Reisdorfer. Trinta empresas participam do programa e doam cerca de 33 toneladas de alimentos por mês. São indústrias, distribuidores de alimentos, supermercados, padarias, fruteiras, pessoas civis ou entidades organizadas. “O nosso objetivo é evitar o desperdício e atender um direito de todos, que é o acesso a alimentação adequada”, frisa Paula.

O Brasil é o quarto maior produtor de alimentos do mundo e ao mesmo tempo desperdiça 40 toneladas de comida por dia, segundo a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa). E se você está se perguntando como pode isso acontecer com uma quantidade tão grande de alimentos, o documentário da ambientalista norte-americana Annie Leonard pode indicar uma reflexão.

Story of Stuff (A História das Coisas) mostra o resultado de 20 anos de pesquisas sobre a produção e o descarte de materiais no mundo. Parte da premissa que todas as coisas passam por um sistema de extração à produção, distribuição e disposição. Um processo em crise, porque tem uma estrutura linear em um planeta finito que interage com o mundo real, onde existem sociedades, culturas, economias e meio ambiente. O problema é que esse esquema é mal explicado nos livros, porque eles geralmente ignoram alguns aspectos importantes dessa engrenagem, como os limites do planeta e, principalmente, o
modo como as pessoas participam do sistema.

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Les fruits & légumes moches

Na França, a varejista Intermarché, uma rede de supermercados do país, lançou a Campanha Les fruits & légumes moches (Frutas e legumes feios). Os alimentos fora dos padrões aparecem em cartazes acompanhados de frases como: “Uma maçã grotesca por dia te deixa longe dos hospitais para sempre”, “Batata ridícula eleita miss purê 2014”, “Uma laranja horrível faz um suco maravilhoso”. Os produtos são vendidos com no mínimo 30% de desconto e o público ainda ganha sucos e sopas confeccionados com os alimentos para degustação. A campanha é um sucesso.

Feed Truck

A agência Africa Rio, em parceria com a ONG Make Them Smile e a Truckvan, criaram o projeto Feed Truck com o objetivo de reaproveitar os alimentos que seriam jogados no lixo. A equipe recolhe os produtos que seriam descartados durante o processo de preparação dos pratos em restaurantes e os chefs voluntários elaboram refeições para moradores de rua dentro do food truck. As marmitas são entregues nas ruas do Rio de Janeiro. Cerca de duas mil refeições já foram distribuídas com mais de uma tonelada de alimentos que seriam jogados fora.

Sobre o autor

Greici Audibert

Greici Audibert

Repórter com interesse em literatura, tecnologia, política, bichos fofos e cultura pop.

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