DESTAQUE MEIO AMBIENTE E SUSTENTABILIDADE

Terra viva

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A relação do homem com a terra e um retorno às origens da humanidade

O doutor em agronomia e chefe adjunto de Pesquisa & Desenvolvimento da Embrapa, Ítalo Rocha Moraes Guedes, um dos estudiosos na área do solo no Brasil, menciona em um de seus artigos uma série de ficção científica chamada The Forgotten Planet (O Planeta Esquecido), de 1954, para lembrar como o escritor norte-americano Murray Leinster descreve as condições de superfície de um planeta:

“Nenhum animal vagava por seus continentes. Nenhuma vegetação crescia a partir de suas rochas. Nem mesmo bactérias lutavam para transformar as pedras em solo. Não havia solo. Rochas, pedras, cascalhos e mesmo areia estavam presentes. Mas nada de solo onde pudesse crescer algum vegetal. Nada vivo, por menor que fosse, nadava em seus oceanos, não havia sequer lama no fundo dos mares. Este era um daqueles muitos tristes mundos que apareceram quando primeiro se explorou a galáxia. As pessoas não podiam colonizá-lo porque nada vivera lá antes.”

Poucas vezes, disse o pesquisador, ter visto uma descrição tão didática e cativante sobre a importância do intemperismo, ou seja, dos fenômenos físicos e químicos que levam à degradação e enfraquecimento das rochas, na existência de vida em um planeta. Foram esses os acontecimentos que deram origem ao solo. Evidentemente não o mesmo solo que conhecemos hoje. A terra como vemos atualmente se desenvolveu depois da colonização dos continentes pelos descendentes das cianobactérias, as plantas, possivelmente há cerca de 410 milhões de anos. Uma entidade tridimensional complexa e muito mais do que apenas poeira superficial, segundo Ítalo.

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Bem, apesar de existirem diferentes teorias em torno do surgimento do Planeta (científicas e religiosas), estima-se que a Terra tenha surgido há aproximadamente 4,5 bilhões de anos. Já os primeiros ensaios sobre a origem da vida teriam começado há 3,5 bilhões de anos, justamente quando a crosta terrestre começou a se formar com o esfriamento do Planeta. As bacias oceânicas e os continentes compõem a camada mais externa dessa crosta, enquanto o solo constitui a esfera mais superficial. É composto por sais minerais dissolvidos na água, seres vivos e rochas em decomposição. A primeira camada é rica em húmus e detritos de origem orgânica. E é nessa esfera que as plantas encontram subsídios para se desenvolver, o que faz do solo uma espécie de alicerce da vida terrestre.

Vida, portanto, se torna uma palavra-chave quando nos referimos a terra. Para muitos, um planeta. Para outros, saúde. Para tantos, o que dá sustentação à humanidade. E para alguns, uma entidade próxima à divindade. Um lugar onde descansam os espíritos dos ancestrais, acreditam os índios, que veem na terra o elemento central de sua religião e identidade cultural. Na Bolívia, por exemplo, ela é tão sagrada que virou lei. A Lei da Mãe Terra foi promulgada em 2012, com objetivo de buscar o desenvolvimento integral em harmonia e equilíbrio com a natureza. Trata-se da primeira legislação mundial que dá à natureza os mesmos direitos dos homens, incluindo o direito à vida, à continuação de ciclos e a processos vitais livres de alteração humana.

“A ideia de utilização do solo também cria uma cultura, uma forma de sociedade.” Antônio Andriolli

“A terra move muitas crenças. Por isso ela também é relacionada à liberdade, sangue, propriedade e pátria”, amplia o filósofo Antônio Andriolli, vice-reitor da Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS). Doutor em ciências econômicas e sociais, ele decidiu retomar suas origens quando foi para Europa estudar a terra. Nascido no interior do Rio Grande do Sul, sempre quis desvendar alguns mistérios da infância. Por que os solos tinham cheiros diferentes? Por que a tangerina do morro, em meio às pedras, era mais doce?

Relações que hoje a ciência consegue estabelecer: uma terra com mais minerais tende a produzir frutas com mais açúcar. Mas Antonio quis ir além. Foi fazer o que ele chama de filosofia rural, afinal, queria saber o que motivava o pensamento das pessoas daquele meio.

Terra e povo

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A identificação do povo com as crenças da terra, segundo ele, fez muitos moradores da região Oeste de Santa Catarina, por exemplo, acreditarem que o solo vermelho era ruim para a agricultura. Por isso que muitos morros ainda permanecem desmatados. Antes da introdução do calcário, que corrige o PH (potencial hidrogênio) da terra, essas áreas ácidas não eram cultivadas. Eram apenas utilizadas para campo e pasto.

Com o tempo (e a utilização do calcário) se tornaram produtivas e passaram a ser usadas para plantações, principalmente de soja. “Hoje nós conseguimos superar essa fase e estamos começando a preservar os morros. Eles passaram a ser áreas de proteção permanente e a região toda começa a se modificar com relação ao uso da terra. Mas conseguimos visualizar como a ideia de utilização do solo cria também uma cultura, uma forma de sociedade”, explica o filósofo.

Outra forma de compreender a influência do solo no modo de vida das pessoas é observar onde os imigrantes se estabeleceram na região. Tanto a igreja quanto as comunidades foram inseridas nos vales, no meio dos morros, geralmente nas proximidades das águas. Dificilmente nas grandes extensões de terra. “O que fez com que essa área, do Sudoeste do Paraná ao Norte do Rio Grande do Sul, criasse uma identidade cultural na forma de ser colono”.

“A terra é uma entidade sagrada, que nos alimenta e nos dá sustentação para a vida.” Rosalina da Silva

Antônio viveu cinco anos na Alemanha e dois na Áustria, onde existe a maior parcela de agricultura ecológica do mundo (chega a 25%). Lá, desenvolveu sua tese de pós-doutorado em sociologia agrária e descobriu o que já desconfiava. “A terra é a base da alimentação. Se não existe solo, não existe agricultura. Se não existe agricultura, não existe alimentação. Se não existe alimentação, não existe vida”, defende o filósofo, que em buscas de respostas, ainda descobriu um novo conceito. “Todo o agricultor é também um ambientalista”.

A ideia, segundo o pesquisador, até pode soar estranha, devido aos conflitos que existem no Brasil. “Mas, para ser agricultor, é necessário preservar o solo. Se ele cuidar da terra, não como substrato, mas como um corpo vivo que interage com bilhões de bactérias, fungos e microorganismos, nós teremos uma nutrição da planta adequada e um alimento, do ponto de vista energético, também apropriado. Então, toda a base da alimentação, da saúde, da cultura de um povo estará relacionada à terra”.

Para que isso ocorra de forma plena, no entanto, é necessário um movimento maior de retorno ao passado, como aconteceu na Europa após a Segunda Guerra Mundial. “Foi um movimento político. Os países tiveram que reconstruir suas comunidades e preservar a comida. A necessidade do estoque de alimentos trouxe de volta a importância da produção local. Une-se a isso, um movimento um pouco mais radical, como o movimento estudantil francês, a mobilização dos vegetarianos, veganos e vários grupos alternativos que ganharam força juntos”, esclarece Antônio.

O problema é que, enquanto lá ocorria uma retomada de consciência, aqui começava o retrocesso.

“Revolução verde”

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“A partir dos anos 1950, com o cultivo da soja e do trigo, ocorreu uma destruição do solo. Tivemos muita erosão e muitas queimadas. O trigo era queimado para dar lugar à soja e eles foram absorvendo os mesmos nutrientes. Nós esgotamos esse solo. Além da monocultura e da intensa utilização da mecanização, como a grade e o arado, que pulverizaram a terra de tal forma que qualquer chuva levava embora. Os rios vermelhos são um indicativo disso. E alguns nem existem mais”, lamenta o pesquisador.

Nesse contexto, o agricultor, antes um sujeito que trabalhava com a cultura da terra, se transforma em produtor. “O produtor rural, diferente do agricultor, produz. Ao apenas produzir, plantar e vender para grandes indústrias, ele abandona uma série de outros valores e conhecimentos”.

É nesse cenário, segundo Antonio, que ocorre a chamada “revolução verde”, um pacote de insumos, máquinas, adubos químicos, sementes híbridas e agrotóxicos no geral, como herbicidas, pesticidas e inseticidas. “Antes da década de 50, tínhamos o agricultor na dimensão plena, em contato com o solo. Mas isso foi se perdendo e, curiosamente, retorna nos tempos atuais. Volta a ter valor o produto colonial, o alimento ligado à palavra terra”.

Apesar da teoria dos adubos químicos criar a dependência de agrotóxicos e contaminar praticamente todos os alimentos, cresce o esforço dos agricultores familiares em recuperar o solo e investir no cultivo sustentável. A agricultora Rosalina da Silva, de Chapecó, é um exemplo dessa retomada de consciência no campo e que reflete na mesa e na saúde da população.

Bons frutos

Coordenadora do Coletivo Pitanga Rosa, grupo do Movimento das Mulheres Camponesas, ela e outras 25 moradoras do interior da cidade se dedicam a disseminar a importância do consumo dos alimentos da terra e do uso de ervas medicinais. A iniciativa já foi, inclusive, finalista do Prêmio Mulheres Rurais que produzem o Brasil mais Sustentável, da Secretaria de Políticas para as Mulheres.

Aos 64 anos – 31 dedicados ao movimento – ela levanta cedo, como é o costume na colônia, para lidar com as plantações. Faz isso desde muito moça, quando desempenhava as tarefas atenta ao campo e aos ensinamentos da mãe. “Foi quando aprendi quase tudo que sei sobre a terra, essa entidade sagrada que nos alimenta e nos dá sustentação para a vida”.

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Há 31 anos, Rosalina se dedica a repassar seus conhecimentos sobre a terra

Enquanto colhe algumas folhas gigantes de couve em um emaranhado de abundância verde, ela explica cada uma das espécies cultivadas na horta de casa. De um lado, uma variedade sem fim de chás. De outro, uma fartura de verduras, legumes, temperos e ervas.

“A couve é boa para gastrite e úlcera. Tem ferro e vitaminas. Pode ser usada como alimento e remédio. A erva baleeira é uma planta utilizada como tempero e substitui o caldo de galinha. Também tem poder anti-inflamatório”, ensina a agricultora.

A maioria do conhecimento vem de família, mas muita instrução Rosalina recebeu junto ao Movimento, através de cursos e trocas de experiências com outras camponesas. Tanto que hoje divide as funções da casa com as palestras que desenvolve nas comunidades. E no canteiro ao fundo da horta, ela aponta para um dos mais notáveis aprendizados: litros e litros com caldas de plantas usadas para combater insetos e pragas. Adubo limpo, que garante a preservação do solo. “Esse tipo de produção traz mais segurança, porque as pessoas sabem como os alimentos são feitos e o que estão comendo. É a forma mais pura de cultivo, porque você colhe e já leva para casa”.

A funcionária pública Hedvig Olga Kottwitz, 59 anos, também acredita no poder dos alimentos procedentes da terra. Quase tudo que consome sai da horta de casa. “Eu não como pizza, salgadinhos e nada que seja muito industrializado. No meu prato tem feijão, mandioca, saladas e tudo mais que posso tirar da terra”, conta. E tem sido assim desde criança, quando ela e seus 14 irmãos ajudavam os pais na colônia, no interior da cidade de Quilombo.

Daquela época, lembra com carinho do cheiro da terra molhada e da casa cheia de fruteiras cultivadas com puro mel. Muito mais bonita dentro do que fora, recorda.

“A terra é energia e as plantas somos nós. Ela reage conforme o trato. Se cuidar carinhosamente da terra, as plantas, assim como nós, ficam saudáveis, fortes e se desenvolvem com vitalidade.” Hedvig Olga Kottwitz

Na residência onde vive hoje, em Chapecó, ostenta logo na entrada os vestígios da vida no campo: uma variedade de legumes e verduras frescas. “A terra é energia e as plantas somos nós. Ela reage conforme o trato. Se cuidar carinhosamente da terra, as plantas, assim como nós, ficam saudáveis, fortes e se desenvolvem com vitalidade”. São aproximadamente dez metros de horta regada e tratada todos os dias, bem cedo. Cenoura, alface, beterraba, pimentão, repolho, couve, alface, pepino e outras tantas plantas que também vão para as mesas dos vizinhos, parentes e amigos.

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Hedvig não vive mais na colônia, mas mantém seus hábitos do campo e uma forte conexão com a terra

O amanhecer

A amizade, aliás, foi o mote principal para o surgimento do movimento Carpindo um Lote, de Chapecó. Na verdade, um grupo de amigos da área urbana do município com a intenção de se reconectar com a terra. “Esse resgate é um olhar para nossa ancestralidade. Embora a maioria do grupo seja essencialmente da cidade, nossa região é de colonos e nossos pais ou avós tiveram sua subsistência na cultura da terra. Esse contato é um ato sagrado e uso este termo sem conotação religiosa. Saber o mínimo sobre o cultivo de alimentos nos dá uma maior consciência planetária, ecológica e das relações destrutivas do consumo excessivo”, acredita a empresária Juliane Cristina Franco, uma das integrantes.

Sem o objetivo de seguir manuais normais, o grupo experimentou plantios alternativos, pesquisou técnicas de permacultura e agricultura natural. O método do japonês Masanobu Fukuoka foi um norte para o movimento. “O sistema que ele criou é de profundo respeito ao processo natural da terra”, conta Juliane.

Os primeiros experimentos aconteceram no quintal de um casal da turma, onde todos colocavam as mãos na terra. “Nossa pretensão nunca foi de nos tornamos agricultores, mas tivemos um lindo resultado. Como esses amigos se mudaram, ficamos sem espaço para cultivo em grupo, mas todos temos um lugar em casa para algum tempero, erva, chá, tomateiros, pimentas. Cozinhar, ir para seus vasos ou hortas e colher o tempero fresco, faz uma grande diferença no sabor e na energia dos alimentos”.

“Esse resgate é um olhar para nossa ancestralidade. Embora a maioria do grupo seja essencialmente da cidade, nossa região é de colonos e nossos pais ou avós tiveram sua subsistência na cultura da terra. Esse contato é um ato sagrado.” Juliane Cristina Franco

A ideia do movimento é expandir e acender a iniciativa nas pessoas para que se reúnam em grupos e plantem em quintais ou terrenos baldios. “Mexer no solo é terapêutico, fortalece laços pessoais, cria consciência ecológica e, de brinde, alimentos saudáveis. Apesar de tantos acontecimentos negativos na humanidade, acredito que, se há possibilidade de mudanças, ela deve partir do coletivo. Ninguém consegue muita coisa sozinho”, sugere a empresária.

Dentro da perspectiva de união, coletividade e valorização dos alimentos naturais, a mestre em nutrição Lucia Chaise Borges, professora da Unochapecó, destaca o movimento Slow Food, que começou a promover o consumo de produtos locais e provenientes da terra ainda nos anos 1990. O conceito teve origem na Itália, mas a organização possui vertentes em diversos países, inclusive no Brasil.

“A globalização e a industrialização fizeram com que o homem se afastasse do alimento da terra, buscando produtos de fácil consumo. Com eles vieram os problemas de saúde conhecidos como Doenças Crônicas não Transmissíveis, às quais englobam a obesidade, diabetes, doenças cardiovasculares, entre outras. Então, podemos dizer que, no momento que o homem se reaproximar do alimento da terra, as taxas de mortalidade por essas doenças vão diminuir”, destaca Lucia, ao também inferir à relação terra, alimentação, saúde e vida.

A partir dessa compreensão, a nutricionista conclui seu pensamento quando cita o jornalista e ativista Michael Pollan, que parte de uma importante premissa: não coma nada que sua avó não reconheceria como comida.

 

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Aterramento

terra2Deixar os pés livres, tocar ou caminhar em contato direto com o solo, além de ser agradável e relaxante,
é considerado uma prática bastante saudável. Segundo a terapia chamada de Aterramento, a sensação está relacionada ao fluxo de energia da Terra, que se conecta ao corpo físico. Os benefícios dessa técnica, que propõe melhorar distúrbios relacionados ao sono, inflamações, dores crônicas, diminuir o estresse, tensão muscular e aumentar a energia, ainda não foram comprovados pela medicina. No entanto, especialistas da área da saúde confirmam que o contato com a terra favorece a movimentação das articulações e faz bem à saúde, justamente pelo bem-estar que proporciona.

Terra de Chapecó

Segundo dados da Prefeitura, Chapecó tem hoje 63 km² de território urbanizado. A área ocupada com lavouras, pastagens e reflorestamento comercial é de aproximadamente 40.000 hectares, ou seja, 400 km². Logo, existe cerca de 190 km² restantes para ocupação com áreas de matas ou preservação, o que corresponde a cerca de 30% do município.

*Reportagem vencedora do 7º Prêmio Fatma de Jornalismo Ambiental (SC).
*Uma das 3 reportagens do Brasil finalistas do 5º Prêmio Fecomércio de Sustentabilidade (SP).

Sobre o autor

Greici Audibert

Greici Audibert

Repórter com interesse em literatura, tecnologia, política, bichos fofos e cultura pop.

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