DESTAQUE NEGÓCIOS E TECNOLOGIA

Tempos mais que modernos

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Como o empreendedorismo jovem cria novas lógicas de pensamento, reconfigura o sentido de trabalho e renova as energias do setor empresarial.

Quando entrei para a faculdade, isso faz algum tempinho, lembro que um dos maiores desejos da minha geração era mudar para capital, trabalhar em uma grande empresa e conquistar a tão sonhada ascensão profissional. Hoje, apesar de muitas pessoas ainda seguirem com esse sonho, existe um grande movimento de jovens investindo em suas ideias e desenvolvendo negócios nas suas próprias cidades de origem. Por causa desse espírito empreendedor que acendeu nos últimos tempos é que municípios, como Chapecó, têm se tornado polo de inovação e tecnologia. Vemos cada vez mais indivíduos buscando e entregando soluções inteligentes para a região, fomentando a diversidade do setor empresarial e melhorando a qualidade de vida das pessoas. De presente, ainda trabalham com um propósito.

Segundo a Endeavor Brasil, uma das maiores organizações de apoio ao empreendedorismo, a maioria dos empreendimentos de alto impacto do país estão constituídos em cidades com menos de 500 mil habitantes, comprovando que as pessoas estão mais engajadas com sua comunidade. Esse desejo de mudar e melhorar as coisas ao nosso redor tem feito os jovens daqui perceberem potenciais de negócios e criarem alternativas inovadoras. Um exemplo é a PackID Soluções em Tecnologia. Idealizada pelos engenheiros Caroline Dallacorte e Thales Akimoto, a empresa desenvolve soluções para o monitoramento inteligente da temperatura de produtos que necessitam de refrigeração.

Caroline Dallacorte e Thales Akimoto, fundadores da PackID, ficaram em primeiro lugar na competição Advanced Materials Competition (AdMaCom), que tem o objetivo incentivar startups a criarem novas tecnologias.

Caroline Dallacorte e Thales Akimoto, fundadores da PackID, ficaram em primeiro lugar na competição Advanced Materials Competition (AdMaCom), que tem o objetivo incentivar startups a criarem novas tecnologias.

A cultura da população, o movimento e as experiências de alguns empresários e instituições locais foram, na visão deles, os principais motivos que colocaram os jovens como protagonistas de uma grande mudança/evolução no cenário empresarial da cidade. “Mas, principalmente, temos pessoas abertas a mudanças, com visão empreendedora e motivadas a trabalhar em prol do desenvolvimento do município, o que é fundamental para essa transição”, acredita Caroline. Para a empreendedora, se não estamos contentes com a realidade, a única forma de mudarmos isso é através das nossas atitudes. “Por isso, nós, jovens, temos a obrigação de trabalhar em prol daquilo que acreditamos ser melhor para o futuro. O empreendedorismo é uma alternativa muito interessante e motivadora, que nos traz benefícios pessoais, mas principalmente auxilia no desenvolvimento da região, o que acaba contribuindo para um crescimento mútuo”, acrescenta.

A empresa acumula prêmios e participações em eventos e programas de aceleração. Em 2016, conquistou o primeiro lugar na AdMaCom, (Advanced Materials Competition), competição internacional de aceleração de startups organizada pela rede INAM (Innovation Network Advanced Materials), na Alemanha. Recentemente, participou e ficou entre as finalistas da InovAtiva Brasil, o maior programa de aceleração de startups do País. Junto com a PackID, também garantiu lugar entre os finalistas, a MusicMe. A startup desenvolveu uma plataforma que conecta músicos, produtores e compositores para o comercialização de músicas. A empresa foi lançada durante a Startup & Makers, na Campus Party, maior evento tecnológico da América Latina.

Nós, jovens, temos a obrigação de trabalhar em prol daquilo que acreditamos ser melhor para o futuro. Caroline Dallacorte.

Gefferson Vivan e Alexandre Alberto Weimer, dois dos sócios da MusicMe, participaram recentemente da InovAtiva Brasil, o maior programa de aceleração de startups do País.

Gefferson Vivan e Alexandre Alberto Weimer, dois dos sócios da MusicMe, participaram recentemente da InovAtiva Brasil, o maior programa de aceleração de startups do País.

A equipe da MusicMe é formada pelos sócios Alexandre Weimer, Gefferson Vivan, Glauce Camillo e Peterson Vivan, que têm muitas coisas em comum. Entre elas, não está o medo de falhar. “Com a ascensão do termo startup, os jovens entenderam que esse é o momento de expor suas ideias, seu ritmo e modelo de trabalho, e apostar em algo que acreditam. Não levam apenas em consideração o risco, pois sobram aprendizados levados em conta no próximo projeto”, acrescenta Gefferson.

Toda essa nova cultura, segundo eles, desencadeia a evolução de um ecossistema que não se preocupa apenas em faturar, mas também no compartilhamento do conhecimento e no ciclo de aprendizagem. Além da responsabilidade com a comunidade em geral, criando projetos que impactam positivamente na sociedade. “Passamos por um início e meio onde essa galera assumia primeiramente cargos de estágio e tinha certa demora para chegar a um patamar de decisões. A partir das startups, procuramos resolver problemas e dores que as pessoas têm, na forma pessoal, genérica, enquanto empresa, negócio ou comunidade. Além disso, essas novas empresas trazem investimentos para a região, através da contratação e impostos, dando um up na economia regional”, constata Gefferson.

Toda essa nova cultura, segundo eles, desencadeia a evolução de um ecossistema que não se preocupa apenas em faturar, mas também no compartilhamento do conhecimento e no ciclo de aprendizagem. Gefferson Vivan

Polo de inovação e tecnologia

Embora a economia da região tenha sua essência enraizada nas grandes indústrias, principalmente as empresas ligadas à agroindústria, as startups dão uma nova cara para os negócios do Oeste catarinense. Para se ter uma ideia, a região é um dos polos que mais evoluiu dentro desse cenário nos últimos tempos, segundo gestor do Projeto Startup do Sebrae de Santa Catarina, Alexandre Souza. “O Estado conta com quase três mil empresas do setor tecnológico que empregam cerca de 50 mil profissionais. Este número representa, de acordo com pesquisa da Associação Catarinense de Empresas de Tecnologia (Acate), 5% do PIB de Santa Catarina. Muitas delas, ou são startups, ou foram quando iniciaram e, cerca de 11%, estão no Oeste — um dos polos que mais cresceu”, revela Alexandre.

Apoiado pelas universidades e entidades como o Sebrae, Senai e Senac, os jovens empreendedores estão sabendo aproveitar as oportunidades, levando suas ideias para além do papel. E isso não representa, por exemplo, uma competição com as grandes indústrias há muitos anos bem estabelecidas por aqui. Pelo contrário, são negócios que muitas vezes complementam as empresas tradicionais. Um exemplo muito claro disso é a Sempre Mais Sistemas, empresa de software que desenvolve soluções para o agronegócio, entre eles o Sistema Mais Leite. A startup busca soluções para as cooperativas, indústrias, assistências técnicas, aos laticínios e produtores rurais, preocupados com a eficiência na produção e gestão. O objetivo da plataforma é estruturar a cadeia produtiva, articulando e integrando ações de desenvolvimento e satisfação dos produtores e consumidores.

Taubita de Sordi, do Sistema Mais Leite, conquistou o Edital Sebrae de Inovação, que garantiu à empresa a quantia de quase R$ 200 mil.

Taubita de Sordi, do Sistema Mais Leite, conquistou o Edital Sebrae de Inovação, que garantiu à empresa a quantia de quase R$ 200 mil.

No início do ano, ela foi contemplada com um importante investimento para impulsionar seu negócio. O projeto conquistou o Edital Sebrae de Inovação, que garantiu à empresa a quantia de quase R$ 200 mil. “Com o estímulo de programas, universidades e associações, o jovem se sentiu desafiado a buscar melhorias. Afinal, para todo problema há uma oportunidade de negócio, de inovação. A provocação para que se refletisse mais sobre alguns problemas que temos no mundo impulsionou essa mudança. O que quero deixar de legado? Uma característica muito forte dos jovens hoje é o bem-estar e a liberdade, então como consigo isso? Essas reflexões, aliadas a algumas técnicas e muitos desafios, estimularam as pessoas e resultaram nesse start empreendedor na cidade”, analisa a diretora do Mais Sistemas, Táubita De Sordi.

Mas como quase tudo no mundo, todas essas ideias precisam de uma base para engrenar. É mais ou menos como aquele provérbio: se quer ir rápido, vá sozinho. Se quer ir longe, vá em grupo. Essa é a grande diferença dos tempos em que a minha geração ingressou na Universidade. A vocação empreendedora esteve sempre por aí, faltava, ao meu ver, incentivo e apoio para o desenvolvimento e sustento de ideias e negócios inovadores. Afinal, as ideias só têm sentido quando colocadas em prática, não é mesmo?

Para todo problema há uma oportunidade de negócio, de inovação.  Táubita De Sordi.

Nesse contexto existem hoje eventos, como o Startup Weekend, associações, incubadoras, universidades, programas de aceleração e organizações de fomento à inovação e tecnologia, a exemplo do Polo Tecnológico Catarinense (Deatec), de Chapecó. O objetivo da entidade é reunir empresas do segmento de base tecnológica para fortalecer o setor e gerar um incremento no trabalho, renda e inovação tecnológica. “A tecnologia permite, principalmente, uma maior difusão do conhecimento e, com isso, temos também uma melhor qualidade de vida, com mais participação social do cidadão e, por consequência, o desenvolvimento da cidade como um todo”, acredita o presidente da Deatec, André João Telöcken.

Ainda não existe um levantamento formal que aponte o número de empresas emergentes em Chapecó. Segundo o diretor de Startups da Deatec, Rudinei Gerhart, os dados estão sendo processados junto às incubadoras, aceleradoras e entidades da região, já que normalmente são nesses ambientes as elas surgem e prosperam. Podemos estimar, porém, que são aproximadamente uma centena de empreendimentos com essas características de atuação, formalizados e atuando no mercado. “Esses novos negócios têm uma importante contribuição na geração de emprego, renda e impostos. Também orbitam nessa atmosfera a atração de pesquisadores, cientistas e acadêmicos, pois o principal insumo do processo de desenvolvimento de tecnologia e inovação são as pessoas. Com isso, geram-se centros de referência, atraindo novos empreendimentos, universidades e institutos de pesquisa. Esse ecossistema acaba se retroalimentando e cresce organicamente e exponencialmente”, destaca Rudinei.

Uma startup é um grupo de pessoas à procura de um modelo de negócios repetível e escalável, trabalhando em condições de extrema incerteza.

Uma startup é um grupo de pessoas à procura de um modelo de negócios repetível e escalável, trabalhando em condições de extrema incerteza.

A incubadora tecnológica da Unochapecó, a INCTECh, que desde 2003 apoia a criação de empresas de base tecnológica, já ajudou a fomentar 40 empreendimentos na região. Atualmente, atende 20 empresas em processo de incubação, ou seja, que recebem assessorias, consultorias, capacitações, mentorias e monitoramento para desenvolverem e consolidarem seus negócios. “Acreditamos que os trabalhos realizados pelas instituições de ensino, aliadas às políticas governamentais e apoio das associações empresariais são fundamentais para o sucesso desse novo cenário. Visualizamos a cada dia um aumento significativo na criação de novas empresas de base tecnológica, destacando-se especialmente por sua qualidade e impacto na sociedade”, afirma a coordenadora da INCTECh, Franciele Pastre.

A tecnologia permite, principalmente, uma maior difusão do conhecimento e, com isso, temos também uma melhor qualidade de vida, com mais participação social do cidadão e, por consequência, o desenvolvimento da cidade como um todo.  André João Telöcken.

Uma das mais recentes empresas incubadas na Universidade, é a Ecosalute, empresa digital que comercializa produtos orgânicos para todo o Brasil. A proposta, além de impulsionar o empreendimento e disseminar cada vez mais um estilo de vida prático e saudável, é contribuir com os produtores rurais da região. Muitos dos itens disponíveis no site são produzidos em Chapecó e região, criando um sistema incrível de colaboração: do campo, para internet até a mesa do consumidor. Lembrando que todos os produtos disponíveis possuem a certificação de orgânicos credenciada junto ao Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) e ao Instituto Nacional de Metrologia, Normalização e Qualidade Industrial (Inmetro). “Sempre trabalhamos nessa linha e sentimos a falta desses produtos aqui. Nos maiores mercados de Chapecó, por exemplo, notamos pouca diversidade de itens orgânicos. Por isso resolvemos comercializá-los e de uma forma muito cômoda, através da internet”, explica Edilza Frison, uma das sócias da empresa.

Réges Chimello e Edilza Frison são dois dos sócios da Ecosalute, empresa digital que comercializa produtos orgânicos para todo o Brasil.

Réges Chimello e Edilza Frison são dois dos sócios da Ecosalute, empresa digital que comercializa produtos orgânicos para todo o Brasil.

A empreendedora também chama atenção para a democratização do acesso à educação, principalmente no interior. Esse, segundo ela, é um dos pontos fundamentais para o desenvolvimento de negócios inteligentes e de base tecnológica em cidades de médio e pequeno porte. “Antes, o acesso aos estudos estava concentrado nas capitais ou grandes centros. Hoje, os jovens cursam uma faculdade e permanecem, inclusive no meio rural, onde o espírito empreendedor existe e tem grande potencial”, lembra Edilza.

E é assim, ao permanecer ou retornar para suas comunidades, que muito jovens inovam, incrementam a economia local, agregam ainda mais valor às suas localidades. Além de ressignificar toda uma ideia de realização profissional e dar um novo e mais feliz sentido ao trabalho.

Sobre o autor

Greici Audibert

Greici Audibert

Repórter com interesse em literatura, tecnologia, política, bichos fofos e cultura pop.

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