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Você sabe a veracidade da informação que compartilha?

Quando criança, uma brincadeira muito comum era falar uma frase no ouvido de alguém. Essa pessoa tinha que repassar a mensagem à próxima, como havia entendido, e assim sucessivamente, até a última pessoa revelar, em voz alta, o que lhe foi dito. O intuito do jogo era mostrar como as informações se distorcem conforme repassadas de um para outro. Algo nada divertido quando vai além de uma inofensiva brincadeira.

Hoje, assim como quando éramos crianças, estamos repassando informações falsas e distorcidas, sem ao menos perceber o dano que causamos, com as chamadas Fake News. Embora o termo tenha se popularizado em 2016, durante as eleições norte-americanas, quando Donald Trump foi eleito, a disseminação de notícias falsas existe há muito mais tempo. Há registros de manipulação de informação com o objetivo de influenciar o processo político desde o Império Romano. O historiador norte-americano Robert Darnton relembra o surgimento dos Pasquins, na Itália do século XVI, que se transformaram em um meio para difundir notícias desagradáveis, em sua maioria falsas, sobre personagens públicos; e o surgimento dos Canards, gazetas com falsas notícias que circularam em Paris a partir do século XVII. Assim como o jornal New York Sun, que fez sucesso em 1835, com a publicação de artigos alardeando a descoberta de vida na Lua.

Já nos primeiros dias da Copa do Mundo da Rússia, o site BOATOS.ORG listava uma série de notícias falsas à respeito de uma das maiores competições esportivas do planeta. Declarações polêmicas de cunho político e informações envolvendo gastos de recursos públicos para custear a viagem dos jogadores da seleção brasileira estavam entre as principais manchetes enganosas.

Muito mais nocivas que aparentam, as Fake News são poderosos artifícios para influenciar a opinião pública e instigar discussões acaloradas sobre determinados assuntos, para interesse de alguns grupos específicos. Tendenciosas e sensacionalistas, essas notícias encontram na crença popular sua força para serem reproduzidas. “Não tem nível de escolaridade ou socioeconômico mais propenso a ser enganado pelas Fake News. Geralmente, isso se propaga porque envolvem as crenças e ideologias da pessoa. Desta forma, se estabeleceu um mercado nebuloso e tem gente ganhando dinheiro assim. Embora se cite muito a área política, isso vale também para a área empresarial. Há organizações contratando empresas para produzir e disseminar notícias falsas de seus concorrentes”, afirma o jornalista e mestre em Ciência da Informação, Vagner Dalbosco.

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Fábrica de boatos

Um estudo realizado pelo MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts), nos EUA, concluiu que as notícias falsas têm 70% maior probabilidade de serem retransmitidas que as verdadeiras. Os cientistas analisaram todas as postagens que foram verificadas por seis agências independentes de checagem de fatos e disseminadas no Twitter desde 2006, quando a rede social foi lançada, até 2017. Foram mais de 126 mil postagens replicadas por cerca de 3 milhões de pessoas.

De acordo com a pesquisa, as informações falsas ganham espaço na internet de forma mais rápida, mais profunda e com mais abrangência que as verdadeiras. Cada postagem verdadeira atinge, em média, mil pessoas, enquanto as falsas mais populares – aquelas que estão entre o 1% mais replicado – atingem de mil a 100 mil pessoas. Segundo o estudo, quando a notícia falsa é ligada à política, o alastramento é três vezes mais rápido.

Uma pesquisa realizada em 2006, pela Agência Advice Comunicação Corporativa, constatou que 78% dos brasileiros informam-se por redes sociais e 42% compartilham notícias falsas, sendo que 39% procuram saber mais antes de postar.

Assustador? Pois vai achar ainda mais quando parar para pensar que você mesmo pode ter sido um propagador de uma informação errada. “As pessoas tendem a disseminar com o título que elas leem na timeline e condiz com a sua crença. E crença vale para vários assuntos, religião, futebol, cor preferida, etc. Somos educados a tomar partido. Como se o que você pensa ou deixa de pensar precisa ser compartilhado. E as notícias falsas são combustíveis para isso”, analisa Vagner.

Não podemos culpar apenas os veículos de comunicação, a mídia ou mesmo as redes sociais digitais por tal comportamento. Estes são apenas os canais. Devemos questionar os interesses por trás dessas manobras e, especialmente, a nossa própria falta de preparo (ou interesse) em lidar com isso. Conforme a Pesquisa Brasileira de Mídia 2016 – Hábitos de Consumo de Mídia pela População Brasileira, da Presidência da República, a internet hoje é a segunda fonte de informação mais popular no País. Por meio da rede, citada por 89% dos entrevistados, é possível obter informações mais diversas do que aquelas disponíveis, por exemplo, nos poucos canais de TV aberta existentes. E isso não é errado, mas preocupante quando somado a outra estatística. O estudo Robôs, Redes Sociais e Política no Brasil, da Fundação Getúlio Vargas (FGV), mostra como robôs ou bots (perfis falsos presentes em mídias sociais) são capazes de distribuir, em escala industrial, mensagens pré-programadas, e concluiu que contas automatizadas motivam até 20% de debates em apoio a políticos no Twitter.

Segundo artigo da Science, há de 29 a 49 milhões de robôs no Twitter, o que representa 9% a 15% das 330 milhões de contas ativas. Já no Facebook são cerca de 60 milhões de bots controlando perfis, o equivalente a 3% dos mais de 2 bilhões de usuários.

Esses robôs são capazes de fazer um tema se transformar em tendência, atacar uma figura pública, espalhar um boato e, inclusive, ser importante arma política. “Isso tem mudado o rumo da democracia, interferindo em processos eleitorais. Devemos nos precaver para evitarmos sermos ‘massa de manobra’. Como estamos num período, não apenas no Brasil, mas no mundo, de muitos extremos, isso é pior. Certamente, neste ano, teremos uma campanha eleitoral marcada por muitas notícias falsas. E o eleitor, o cidadão, precisa se munir de critérios para saber o que vai consumir, o que vai ler e, principalmente, o que vai compartilhar”, opina o jornalista.

Assassinato de reputação

Neste ano, testemunhamos o impacto dos boatos se espalhando após o assassinato da vereadora Marielle Franco, no Rio de Janeiro. O fato causou comoção em todo o País, com milhares de pessoas protestando nas ruas. E na internet o caso foi igualmente comentado. A FGV analisou a repercussão da notícia no Twitter durante os quatro primeiros dias, após o fato. Dos mais de 2 milhões de tuítes sobre a morte da vereadora, 22,19% eram formados por perfis que, além de difundir as notícias falsas, utilizaram esses argumentos para desmerecer a representatividade de Marielle. “Isso é muito significativo. E só não foi maior porque os veículos – e pessoas – que estavam sensibilizados conseguiram contra-atacar e sobressair a sua versão. Mas se não tivesse tido uma reação, o que teria ficado para a opinião pública seriam as informações falsas”, reflete Vagner.

O advogado e doutor em Direito com pesquisa na área de Inclusão Digital e Sociedade do Conhecimento, Rodrigo da Costa Vasconcellos, afirma que produzir Fake News pode ser classificado como crime contra a honra. “Sempre que a ‘matéria’ for atentatória à imagem ou a honra de alguém, ela poderá ser combatida pelas vias legais. Todo aquele que agir de modo a imputar de forma ofensiva um fato que atenta contra a honra e a reputação de alguém, com a intenção de gerar descrédito a alguém perante a opinião pública, age de forma difamatória, então, de forma criminosa”, explica.

E a fiscalização é responsabilidade de quem? “Hoje, no Congresso Nacional, existem cerca de 20 projetos de lei que buscam inibir a disseminação de notícias falsas. Só que aí tem outro problema: como o Estado irá regularizar isso? Como o Estado vai dizer o que é notícia falsa e o que é verdadeira? Corremos o risco de sermos inseridos em uma censura, pois serão os governantes que irão dizer o que pode e o que não pode ser divulgado. E isso é perigoso”, avalia Vagner.

Em 2014, A dona de casa Fabiane Maria de Jesus foi espancada até a morte no município do Guarujá, em São Paulo, após ter sua foto confundida em uma página do Facebook, afirmando que ela sequestrava crianças para utilizá-las em rituais de magia negra.

Para Rodrigo, tanto a inclusão digital quanto a liberdade de expressão são de extrema importância, mas é necessário mais critério com as informações perpetuadas. “É muito simples reenviar informações, compartilhar mensagens, textos, sem o mínimo de conhecimento sobre o seu conteúdo, e tampouco sem averiguar a qualidade da informação que está sendo reenviada, pura e simplesmente pelo desejo de participar de uma reivindicação, de um movimento ou de campanhas que nunca existiram ou já foram superadas no tempo. São rumores mais genéricos, quase sempre sem procedência, sem propósitos específicos e que, normalmente, não engajam tão eficazmente o público”, observa o advogado.

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A era da Pós-Verdade

O Dicionário Oxford consagrou o termo “pós-verdade” (post-truth) como a palavra do ano de 2016, afirmando que esta é usada para referir-se às “circunstâncias na qual os fatos objetivos têm menos influência na formação da opinião pública que aquelas que apelam para a emoção e à crença pessoal”. De acordo com jornalista espanhol José Antonio Zarzalejos, ex-diretor da ABC e do El Correo, a pós-verdade consiste na relativização da verdade, na banalização da objetividade dos dados e na supremacia do discurso emocional. E que o antídoto para isso é o fact-cheking (checagem de fatos).

Em 2016, o Jornal Extra, do Rio, revelou a história do serralheiro Carlos Luiz Batista, que precisou se esconder após sua foto circular em uma corrente falsa de WhatsApp na qual era acusado de estupro.

Opinião compartilhada por Vagner. Para o jornalista, a melhor alternativa para detectar e evitar as notícias falsas é através da educação, uma vez que elas utilizam a linguagem e as técnicas jornalísticas, justamente para ganharem credibilidade e confundirem o público. “A orientação é que a pessoa se informe por diferentes fontes, não apenas uma. Isso, às vezes, é confuso porque no Brasil os meios de comunicação se apresentam como algo isento. Em países como os EUA, em uma pré-campanha eleitoral, os jornais expõem nos seus editoriais as suas tendências políticas. Os fatos serão reportados jornalisticamente, mas, enquanto empresa, eles apoiam um candidato. Aqui no Brasil, os veículos não apoiam explicitamente ninguém, mas nos bastidores os donos estão articulando. Então não sabemos diferenciar as linhas editoriais dos veículos, e isso é complicado. O que tem é o enquadramento. Que cada fato será enquadrado para ser veiculado de uma determinada maneira. E isso não é agir de má fé, pois a comunicação não é uma ciência exata. Cada veículo dá o seu enfoque diferente e conta a história de uma forma diferente”, explica o profissional.

Para evitar cair na armadilha das Fake News, Rodrigo indica o mesmo que Vagner: a comparação de informação, buscando mais de um veículo. Se, num primeiro momento, não for possível perceber que se trata de uma notícia falsa, a atitude ideal é ter o cuidado de ler a matéria, já que muitas vezes a chamada é claramente apelativa ou sensacionalista e o texto pode não guardar correspondência com a chamada. “Identifique os fatos e os personagens que participam na notícia. Numa busca rápida é possível verificar que as pessoas lá mencionadas sequer existem ou estarão fora de contexto, ou ainda, apontar incoerências entre nomes, cargos ou funções. Sempre ver a data de publicação, pois, muitas vezes, as Fake News são uma tentativa de reacender fatos antigos e que já haviam sido superados de alguma forma. Então, uma boa forma de confirmação da veracidade da informação está em procurar a mesma notícia em outras fontes”, indica o advogado.

Em abril de 2018, Um motorista embriagado perdeu o controle de sua caminhonete e invadiu uma creche, em Chapecó, deixando oito crianças feridas. Na ocasião, um senhor que entrou no local para oferecer ajuda às vítimas foi fotografado e teve sua imagem compartilhada em diversos grupos de WhatsApp. Não demorou a perpetuar a informação que aquele homem era o motorista embriagado que causou o acidente. O fato causou diversos transtornos à família, que recorreu à mesma rede para desmentir o boato.

O chileno Iván Weissman, fundador e editor geral do El Mostrador Mercados, disse: “Os seres humanos sempre gostaram de ouvir boas histórias. Seja na forma oral, como nossos antepassados homens das cavernas, em vídeos de 30 segundos ou em 140 caracteres. O desafio para os meios de comunicação é contar boas histórias”. Desta forma, as notícias falsas se sobressaem por serem mais apelativas ao público.

E como evitar se tornar uma marionete nas mãos e interesses de outrem? Resista! “Parta sempre da desconfiança. Desacredite, antes de acreditar em algo”, diz Vagner e Rodrigo completa: “Somente compartilhe aquilo que você comentaria pessoalmente com seus conhecidos, sem medo de passar vergonha”.

Portanto, recomendo: não acredite em tudo que você leu aqui também. Pesquise, compare, tire suas próprias conclusões e, somente depois disso, compartilhe.

Sobre o autor

Carol Bonamigo

Carol Bonamigo

Jornalista, pós-graduada em Cinema, viciada em cultura pop e dependente de um app pra organizar todas as séries que assiste.

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