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Sua foto ainda está na parede

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O mundo parou no dia 29 de novembro de 2016. Primeiro, o silêncio, depois, as lágrimas e, então, o adeus. Um ano se passou desde o acidente aéreo, com destino a Colômbia, que vitimou 71 pessoas. Jogadores, jornalistas, dirigentes e equipe técnica da Chapecoense. A causa da queda: falta de combustível no avião fretado da Cia Aérea Lamia. Seria a primeira partida da final da Copa Sul-Americana e o Atlético Nacional, time de Medellín, o adversário – fato inédito para a Chape. Perdas irreparáveis para famílias, amigos, colegas e toda uma cidade apaixonada pelo time do coração. Hoje convivem com a ausência, a saudade e a lembrança, daqueles que viveram seus sonhos e conquistas até seus últimos instantes de vida.

Reportagem: Taulan Cesco

A saudade ainda está presente na rotina, na hora de dormir, na hora de comer e escovar os dentes. Mas algo maior persiste: o amor por quem se foi. “Parece que aconteceu ontem. Por outro lado, nós passamos e vivemos tantas coisas durante esse ano, dando a impressão de muito mais tempo. Mas o tempo é algo relativo, não é?”, questiona a jornalista Sirliane Freitas, a Sirli.

Hoje atua na Assessoria de Imprensa da Chape – cargo ocupado pelo seu marido, Cleberson Silva, uma das vítimas. O novo trabalho se tornou um refúgio. “Foi uma das formas para superar aquela dor mais pesada do início. E de fugir um pouco também, porque enquanto eu estava trabalhando aqui, no automático, passava mais rápido”, revela a jornalista que estava casada com Cleber há 15 anos. Hoje as coisas estão mais tranquilas para ela, a vida está mais equilibrada. “Consigo analisar com calma o que aconteceu e está acontecendo. Passamos agora por uma fase ‘menos pior’. Principalmente com os filhos, porque conseguimos olhar para trás e visualizar o passado” desabafa Sirli.

Mas “continuar” é difícil para algumas pessoas e o verbo no infinitivo se torna um mantra diário, repetido incessantemente. Vanessa de Jesus conta que após a morte do pai, Sérgio Luis Ferreira de Jesus, então massagista da Chapecoense, sua vida mudou da “água para o vinho”.

A jovem, que cresceu dentro da Arena, teve de dividir as responsabilidades da casa com a mãe e a tarefa não foi fácil. A busca de emprego as fez passar por constrangimentos. “As pessoas perguntavam por que eu estava procurando emprego, pois achavam que tínhamos ficado ricas com os supostos ‘seguros milionários’”, relata. “É um julgamento diário. Muitos acham que estamos felizes, se não choramos: ou não amávamos meu pai ou não sofremos pela morte dele. E se choramos é porque estamos dramatizando, pois queremos ficar como ‘coitados’”. Serginho, como era conhecido, havia assinado seu primeiro contrato com a Chape em 1989, passou por outros times, mas não resistiu à paixão e voltou para Chapecó. Nesse meio tempo, acompanhou as muitas vitórias do clube do coração, que hoje coleciona seis Campeonatos Catarinenses. Sua esposa, Dicléia Johann de Jesus, ainda não consegue entrar no estádio e talvez demore um pouco. “Nós temos um carinho muito especial pelo time, porque também fazemos parte da história, uma partezinha dela, mas fazemos”, conta emocionada.

O 12º jogador

Antonio Lorenzi, o Seu Chiquinho, é a típica pessoa que ri de tudo. Simpático, o jardineiro da Chapecoense é quem cuida, especialmente, do gramado do estádio. Sem ele, pode até haver jogo, mas suas mãos são essenciais quando a bola rola em campo. Depois do acidente, sua vida também mudou. Os amigos e colegas que via com frequência permanecem somente na lembrança.

Ele ainda olha para o campo com a expectativa de rever os jogadores. “Hoje eu me concentro no trabalho para superar a dor. Quando o time entra em campo, ainda tenho a sensação de ver os jogadores de antes. E é isso que de me dá força para deixar o gramado tal qual eles queriam. Isso me inspira de alguma forma, é como se eles estivessem entrando para jogar”, afirma Chiquinho, que chegou ao clube há sete anos, depois de ter trabalhado em lavouras de soja e milho no Mato Grosso por quase uma década.

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Chiquinho, jardineiro do gramado, diz que o trabalho ajuda a manter a grama como os antigos jogadores queriam

Não é muito diferente para José Nivaldo Martins Constante, mais conhecido como Nivaldo, ex-goleiro e atual dirigente da Chapecoense. Ele demorou para se dar conta e até hoje pensa no acidente. “Quando estou em casa ou vendo um jogo, muitos deles com times adversários da equipe anterior, eu me pergunto por que isso tudo aconteceu? Por que teria de ser conosco?”. Nivaldo estava escalado para a viagem até poucos dias antes do voo. “Mas no fundo, eu permaneço sem conseguir entender e acredito que jamais vou compreender tudo isso”, diz Nivaldo.

Não somente as pessoas próximas das vítimas, mas também toda a população de Chapecó ainda tentam assimilar a tragédia. Aquilo não poderia ser real, não fazia sentido. A comoção rapidamente chegou a todos lugares do mundo. Veículos estampavam o time como manchete, os olhos miravam a cidade e por dias falava-se somente na Chapecoense. Infelizmente da maneira que nunca gostaríamos de ser relembrados.

Chiquinho conta que nos primeiros meses após o acidente tudo parecia vazio, como se não houvesse pessoas na Arena. O jardineiro os via como familiares, pois passava mais tempo no estádio do que em casa. “Quando estávamos em campo, eles me viam e chamavam meu nome, perguntando como eu estava. Havia muita brincadeira entre nós, eles sempre ‘reclamavam’ da grama. Não tem como falar mal, eles faziam a gente se sentir bem no trabalho”, lembra Chiquinho que por muitas vezes dormiu no estádio para regar o gramado e deixá-lo pronto para os jogos.

Amor e humanidade

Vanessa e Dicléia lidam com a perda através do afeto familiar. O filho mais novo, com 3 anos de idade, ainda é incapaz de entender a dimensão do acidente, mas a irmã guarda memórias que jamais se perderão, se depender dela. “Eu tive meu pai por 21 anos na minha vida e sofro muito porque sinto falta dele”. O “cara extraordinário”, como ela o descreve, demonstrava nos gestos sua bondade e carinho. “Meu pai fez um quarto em nossa casa para receber os meninos (jovens jogadores da categorias de base), pois não gostava de vê-los sozinhos”, relembra. O apoio familiar foi essencial para Sirli, em especial seu casal de filhos, “porque se eu não os tivesse, talvez eu não teria a preocupação em continuar. Meus filhos me dão forças. Desde o início, eu precisava estar forte por eles”.

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Para Sirli, passar aos filhos o sentido de justiça do marido será o grande aprendizado deixado pelo pai

Cleberson e Sirli por serem jornalistas costumavam discutir sobre a profissão, além dos planos para a família – característica do marido, como lembra. “Eu fico imaginando se ele estivesse observando tudo hoje… Muitas vezes procuro acreditar que ele está vendo. Costumava dar ‘pitacos’ em tudo, então eu tento pensar nas reações que ele teria. É como se de alguma forma ele continuasse me ajudando”.

Gestos de sensibilidade

Criada em abril de 2017, por iniciativa o jogador Túlio de Melo e amigos interessados, a Associação Brasileira das Vítimas do Acidente com a Chapecoense (Abravic) tem a finalidade amparar os familiares das vítimas. As ações se concentram na filantropia, necessidades básicas, auxílio médico, psicológico e educacional. Entre elas, estão os projetos Amparo (atendimento psicológico e psiquiátrico), Pais Heróis (voltado aos pais que perderam seus filhos) e Guerreirinhos na Escola (auxílio escolar para os filhos e familiares). “Nascemos do altruísmo e solidariedade, sem imaginar que chegaríamos onde estamos. Mesmo sem afirmar se a Abravic será uma ação permanente, esperamos que ela cumpra seu papel enquanto meio de assistência às famílias pelo tempo necessário para se reestruturarem”, revela o presidente Gabriel Andrade.

Tempos vêm e vão

São muitas as lembranças e aos poucos a dor dá espaço às ressignificações. Ninguém quer esquecer, mas recordar não uma tarefa fácil. “Sei que ele não voltará mais para casa, mas quando alguém abre o portão, nós olhamos para ver se é ele quem está entrando”, confessa Vanessa.

Para Chiquinho, a tristeza continua. “Enquanto eu estiver trabalhando no estádio todo o dia é luto, pois eu vivo de domingo a domingo aqui”, lamenta o jardineiro.

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Vanessa, irmão, Serginho (In memoriam) e Dicléia, no dia da classificação para a Sul-Americana, em novembro de 2016

Uma visita rápida na Arena nos faz viver as recordações que estão estampadas em muitos lugares, as conversas revivem nomes e histórias a todo instante. “É impossível ser diferente. E para mim isso faz bem, falar, lembrar… De certa forma, quando vim para cá, eu me aproximei mais do Cleber, pois seus colegas contavam suas lembranças com ele”, diz Sirli.

Mesmo depois do acidente, as fotografias dos jogadores ficaram no vestiário por quatro meses. “Nós já estávamos terminando o Campeonato Catarinense com o time atual, mas as fotos deles ainda estavam no vestiário. E, sabe, ninguém tinha coragem de tirá-las”, em respeito à memória, relata Nivaldo, que veio para o time com a intenção de ficar somente quarenta dias, mas completará 12 anos em 2018.

“Resolvi que não queria mais morrer, por ter a obrigação de viver pelos meus filhos e família, e faço o seguinte: agradeço a Deus pela noite e peço para dar sabedoria para recomeçar o dia”, comenta Dicléia, que ainda busca formas de superar a ausência do marido. “Para mim ele está trabalhando, e eu preciso levantar e fazer o dia andar… Eu vivo como se meu marido fosse chegar amanhã”, Aquele pequeno time da cidade do interior, fundado em 1973, aos poucos conquistou seu méritos. Trouxe orgulho aos torcedores em uma trajetória ascendente de vitórias e sucesso até chegar a elite do futebol brasileiro, competindo entre os 20 melhores times do país na Série A do Campeonato Brasileiro.

A Arena Condá é palco de grandes jogos. Os torcedores da Chape respiram, torcem, vibram apaixonados pelo Verdão do Oeste. Time que proporciona momentos de glória e alegrias. Dizer adeus sem ao menos abraçar pela última vez, rir com a piada sem graça ou desejar a mais sincera boa viagem não é maneira de se despedir de alguém. Mas talvez seja este o caminho, se apoiar nos “amanhãs”, para celebrarmos outras tantas vitórias, com a certeza de que os recomeços trazem consigo a gratidão por ter compartilhado a vida com as pessoas que para sempre serão amadas e nunca esquecidas.

 

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