COMPORTAMENTO DESTAQUE

Semana da Mulher: Causos de uma jovem anciã

02 Josiane - Boca do Céu 2016 - Fotos Pedro Napolitano Prata

Durante a semana do Dia da Mulher, vamos apresentar algumas chapecoenses que se destacam em suas áreas pelos seus trabalhos em benefício à sociedade. Acompanhe um pouco da história dessas mulheres, que são verdadeiros exemplos de altruísmo, generosidade e solidariedade.

Vamos dizer que a idade dela é a idade do mundo. Ou parte da idade do mundo. Isso porque, a jovem Josiane Aline Geroldi (Josi ou Jojoca) carrega consigo histórias como quem junta uma porção de experiências do mundo em sacos de algodão e se embrenha pelas estradas, distribuindo-as a quem se interessar. Sua profissão é pouco comum hoje: contadora de histórias. Com saudosismo, suas lembranças mais longínquas conectam-se sempre a uma voz – uma voz que narra em varandas, quintais, ao lado do fogão à lenha –, o que justifica muito sua ocupação.

Josiane Geroldi

Josiane Geroldi

No início, há cerca de 10 anos, essas memórias nutriam seu interesse pela força da palavra narrada, pelo efeito quase místico que as narrativas provocam. Mais tarde, quando passou a frequentar aulas de teatro, pôde vislumbrar a oralidade como linguagem artística – momento onde virtudes, inclinação e passado coincidiram. Um estalo no tempo. Um movimento enérgico. A convicção legítima de sua “destinação”, mesmo que inconsciente à então graduanda de Letras.

Cada vez mais imersa nas tradições populares, tanto mais certa estava sobre as histórias serem obra do ser humano, que, por sua vez, é obra do tempo. São as narrativas para ela expressão, arte, linguagem, preservação de cultura e povos, valores, sabedorias e outras dezenas de substantivos possíveis.

Moça de gestos simples e uma sensibilidade inabitual, Josi prende-se às coisas minúsculas da vida, às sílabas não ditas na oração, ou seja, ao que transcende o visível. É de casa em casa, livro em livro, conversa a conversa, que seu trabalho aos poucos se condensa. Costuma dizer que ainda não aprendeu o suficiente e por isso não se cansa de buscar histórias. Sua criança, a Companhia ContaCausos, brotou dessa urgência por pesquisar e compartilhar as experiências humanas, resultando e cinco espetáculos. Contar histórias para ela não se resume somente (e hoje seu entendimento é muito mais claro) a uma linguagem artística. Pelo contrário, resulta no encontro com nossa ancestralidade, diluindo o tempo, nos conduzindo àquilo que nos constitui enquanto humanidade. Seus espetáculos gravitam na atmosfera da identidade. São histórias do nosso povo, histórias universais e ao mesmo tempo singulares. Singulares, pois tocam diferentemente cada ouvinte, e universais, pois conseguem reunir tais singularidades.

Sua conexão com as histórias é de uma profundidade tamanha, que certa vez chorou ao ouvir um contador narrar. Foi um daqueles momentos em que o âmago suspira, deslocando-nos efemeramente ao universo da coisa, preenchendo-nos de vivências passadas. Ouviu a história evocada pelos lábios de um contador e por um instante a figura dele representou outros tantos lábios que puseram-se a contar a mesma história a tantos outros ouvidos em tempo outrem.

Seu lar parece ter surgido de um conto de Monteiro Lobato: um chalé no interior da Chapecó (sua segunda cidade, já que nasceu em Xaxim, mas cresceu na capital do Oeste). Ao lado de um pequeno bosque, próximo a um riacho, com balanço, horta e caminhos ladrilhados fica sua morada. Não por acaso, a escolha resume muito seu compromisso com a vida. “Nossa Maloca” (nome dado à sede da ContaCausos) é uma de suas grandes aspirações: abrigará uma biblioteca comunitária e um ambiente de formação e residência para artistas e contadores de histórias. Nesse espaço cultural, ela ainda pensa em receber a comunidade, contar histórias, caçar sacis, procurar o curupira e invocar bruxas à beira da fogueira.

Quiçá nos próximos 30 anos, Josiane terá aprendido o suficiente e sentirá que concluiu seu legado. Depois disso, as histórias já não pertencerão aos seus lábios, pois como o movimento de ir e vir das tranças da menina que se embala embaixo da figueira, os causos, antes da jovem, tornar-se-ão daqueles que vão ficar, daqueles que narrarem as histórias da anciã que viveu para ouvir, contar e, sobretudo, amar.

*Texto Taulan Cesco

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