CULTURA E VARIEDADES DESTAQUE

Primavera Coletiva

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Quando estamos dispostos, o mundo nos conecta às pessoas certas.

Eu sempre tive certa dificuldade de começar algumas coisas. Terminar também, mas isso é assunto para uma próxima conversa. O fato é que dar o primeiro passo é quase sempre a pedra do meu caminho. A primeira frase de um texto então, nem se fala, e com esse não foi diferente. Mas não poderia iniciar de outra forma, já que começar tem tudo a ver com o que vou escrever hoje.

Há muito tempo tenho refletido sobre a minha profissão e que tipo de trabalho quero entregar para o mundo. Como fazer diferente, quem poderia ajudar, de que forma produzir algo mais relevante para a minha vida e a vida das pessoas? Muitas dúvidas, poucas respostas e um momento de mudanças profundas na área da comunicação. Até que encontrei outras três pessoas com tantas ou mais incertezas quanto eu. Assim surgiu o Coletivo Tereza em Chapecó, o primeiro formado exclusivamente por mulheres jornalistas de Santa Catarina. Quatro pessoas com um dilema e muitos propósitos em comum, entre eles, o de realizar um jornalismo humanizado e alinhado às plataformas digitais.

Juntas, percebemos que não precisávamos de alguém que nos impulsionasse a fazer planos. Poderíamos seguir de forma independente, no nosso ritmo e, principalmente, com as nossas convicções. Foi o suficiente para começar. Tudo, claro, sustentado em uma relação de confiança, respeito e liberdade de podermos ser quem verdadeiramente somos. “As pessoas têm diferentes habilidades e potencialidades. Trabalhar no coletivo faz com que os talentos se somem e essa soma certamente produz algo melhor do que quando se trabalha de forma individual”, pensa a jornalista Angélica Lüersen, integrante do Coletivo Tereza.

Ana Marinho, Suelen Santin, Angélica Lüersen e Greici Audibert fazem parte do Coletivo Tereza, primeiro coletivo de mulheres jornalistas de SC.

Ana Marinho, Suelen Santin, Angélica Lüersen e Greici Audibert fazem parte do Coletivo Tereza, primeiro coletivo de mulheres jornalistas de SC.

Atuar de forma conjunta, além de aumentar as chances de se produzir algo mais democrático para as pessoas, também se traduz em um aprendizado constante. Todos nós, em algum momento na escola ou na faculdade, já optamos por fazer trabalhos individuais quando poderíamos dividir as tarefas com algum colega. Melhor evitar problemas e não trocar o certo pelo duvidoso, não é mesmo? Isso acontece porque, desde muito cedo, somos encorajados a sermos os melhores, a alcançar as notas mais altas, a ficarmos com o primeiro lugar sempre.

Confiar em quem está do seu lado e compreender que todos têm potencialidades diferentes quase nunca foi um dever de casa. E é por isso que o trabalho coletivo também pode ser transformador. Nos faz crescer ao aprendermos com o outro. “Quando encontramos pessoas com quem temos afinidades, as ideias fluem e saem do papel. Você aprende a ter paciência para construir com cautela algo maior. É uma felicidade poder ver as coisas que você sonha acontecerem”, acrescenta a jornalista Ana Marinho, que também faz parte do coletivo.

7Quando você está feliz com o trabalho que entrega para o mundo, a tendência é também tornar as outras pessoas felizes. Deve ser por isso que cada vez mais surgem coletivos e grupos independentes, sem hierarquias e com novas formas de produzir conteúdo. O melhor de tudo, segundo o jornalista e doutor em Ciências da Comunicação, Rogério Christofoletti, é que esses grupos têm aparecido de forma espontânea, frequente e não apenas na capital. “Isso sinaliza que tanto consumidores quanto produtores de conteúdo têm desejo por novidades, e esse ímpeto é que mantém uma boa taxa de crescimento dessas iniciativas”.

Trabalhar no coletivo faz com que os talentos se somem e essa soma certamente produz algo melhor do que quando se trabalha de forma individual. – Angélica Lüersen, Coletivo Tereza

Rogério é professor da Universidade Federal de Santa Catarina e um dos coordenadores do GPS Jor – Novos rumos para o jornalismo, projeto catarinense criado com o objetivo de pesquisar e propor soluções para as crises do jornalismo contemporâneo, e contribuir para a construção de mídias locais de qualidade, autossustentáveis e de governança social. “A difusão de conteúdos de informação e entretenimento por poucas fontes nunca é saudável. O mundo é diverso, é plural, e assim precisam ser as nossas opções para informação noticiosa, para diversão e entretenimento”, complementa o professor.

Um jardim colorido

Ainda não existe um levantamento de dados específico sobre coletivos ou grupos de produções independentes situados em Santa Catarina, o que permite uma grande oportunidade de estudo para pesquisadores da área. No Brasil, temos o Mamu – Mapa dos Coletivos de Mulheres, que contabiliza organizações ligadas ao movimento feminino. A Agência Pública também lançou neste ano o Mapa Interativo do Jornalismo Independente. O projeto mapeou 70 iniciativas, fruto de projetos coletivos e desvinculados de grandes grupos de mídia, políticos, organizações ou empresas. O país também tem muitos coletivos que fomentam projetos artísticos e culturais, como o Circuito Fora do Eixo, muito conhecido por trabalhar com intercâmbio de shows, produção de eventos e expressões ligadas ao audiovisual, teatro e artes visuais.

sunflower-png-28732Através de uma sintonia muito parecida nasceu o Baluarte, um projeto de três amigos que estimula e produz ações itinerantes e a difusão de linguagens artísticas em Chapecó. A proposta é simples, forte e tem dado muito certo: estabelecer novas formas de experiências entre as pessoas através do movimento livre. Assim, o coletivo promove encontros entre pessoas e expressões artísticas como poesia, música, produção cinematográfica, fotografia, teatro, literatura, artes visuais e gastronomia. Dois eventos já foram realizados na cidade e os organizadores dizem estar em estado de graça com a repercussão. Posso dizer, com toda a certeza, que o sentimento também é recíproco para quem participou.

“Estamos em uma época fértil de produção, as pessoas estão fazendo filmes, lançando discos, se mobilizando. Só que elas precisam de alguém, de um grupo e de um lugar que abrace os projetos. Aí não depende do olhar de um produtor, de um empresário para explorar essa demanda. Mas sim de alguém para criar uma atmosfera, uma experiência boa para o público e para o artista”, reflete o publicitário Lucas Cruz, um dos idealizadores do Baluarte.

Paulo Henrique Cruz, Lucas Cruz e Leandro Lemos integram o Baluarte, coletivo cultural que atua na difusão de linguagens artísticas

Paulo Henrique Cruz, Lucas Cruz e Leandro Lemos integram o Baluarte, coletivo cultural que atua na difusão de linguagens artísticas

 

O grupo foi criado em 2016, ano em que o ‘nós’ tem despontando com muito mais força e relevância do que o ‘eu’. Os inúmeros projetos financiados via crowdfunding (financiamento coletivo), por exemplo, confirmam esse movimento de cooperação. Segundo a pesquisa Retrato do Financiamento Coletivo no Brasil, realizada pelo Catarse em parceria com a Chorus, 54% dos entrevistados já apoiaram financeiramente de dois a cinco projetos, muitos provenientes de organizações coletivas. Sem contar a difusão dos financiamentos baseados na premissa: você paga o quanto acha que o produto ou conteúdo merece. O Patreon funciona dessa forma, através de assinaturas mensais com valores a partir de um dólar. O site recebe mais de um milhão de dólares por mês, segundo uma reportagem do The Guardian, e o valor é direcionado a músicos, youtubers e produtores de conteúdo.

Experimentamos, portanto, um momento de maior coletividade, onde as energias se direcionam muito mais às produções em grupo e colaborativas do que aos trabalhos individuais. E muito embora esse sentimento tenha desabrochando na cidade de forma mais intensa agora, quatro anos atrás já havia gente pensando em produzir um conteúdo paralelo ao modelo, até então, quase predominante em Chapecó.

O ser humano é essencialmente social e a produção coletiva é o principal propulsor da evolução. – Helton Juliano Matei, Paralelo Coletivo Criativo

A amizade também foi o fio condutor da história que deu sentido ao Paralelo Coletivo Criativo, criado em 2012. O grupo formado por sete amigos produz roteiros, graffitis e projetos de aprendizagem conjunta, arriscando técnicas de ilustração, pintura e animação. “Acreditamos em um sistema de consumo e produção de conteúdo autônomo e livre. Estamos trabalhando para tornar esse projeto prematuro em uma rede de troca de conhecimento, sensações e entretenimento. O ser humano é essencialmente social e a produção coletiva é o principal propulsor da evolução. As melhores ideias da história surgiram da troca de diferentes percepções e entre diferentes indivíduos”, acredita o artista gráfico, Helton Juliano Matei, membro do grupo.

O florescer das ideias

lilly_png_09_by_thy_darkest_hour-d4ow7gpPara Rogério Christofoletti, os coletivos de Chapecó têm um papel maior do que eles mesmos imaginam. Afinal, demonstram na prática que algo novo, original, inteligente pode ser feito. Que informações, reportagens, conteúdos narrativos, entretenimento e cultura podem ser produzidos fora dos polos difusores institucionais, e que podem também se colocar como alternativas à construção do imaginário. “São iniciativas corajosas e estratégicas. Precisam, como em qualquer outro lugar, buscar formas de sustentabilidade que garantam a sua sobrevivência. Esse é um drama não apenas para os alternativos. Todos precisam pagar as contas! Mas é ótimo saber que o Oeste – uma região tão rica culturalmente, tão importante economicamente e muitas vezes ignorada nas decisões do Estado – também está vendo esses coletivos surgirem. As mudanças que as pessoas almejam devem ser feitas nas suas cidades, nos seus bairros, nas suas vilas. É assim que as coisas cambiam”.

E em meio a essa primavera coletiva, nascem também outras iniciativas independentes que, apesar de não se autodenominarem coletivos, se dedicam a trabalhar de forma colaborativa. É o caso das Emílias, grupo criado esse ano com o objetivo de conectar e empoderar mulheres, compartilhar conhecimento, experiências e incentivar o empreendedorismo feminino. Formado por profissionais de diversas áreas, o projeto já promoveu encontros sobre marketing, empreendedorismo, rodada de negócios, bate-papo com órgãos de classe, viagens e, recentemente, uma ação para apoiar o Outubro Rosa.

“Falamos muito sobre o lugar da mulher na sociedade, no mercado de trabalho e isso tem sido muito bem aceito. A diversidade é notadamente valiosa para a comunidade e para os negócios. Nosso objetivo é contribuir com o empoderamento das integrantes ao disseminar informação para que cada uma, sabendo do respeito que merece, se sinta capaz e se posicione buscando igualdade”, explica a empresária Agnessa Almeida Leite, uma das fundadoras das Emílias.

As Emílias e seus projetos incentivam o empoderamento feminino e o empreendedorismo entre as mulheres.

As Emílias e seus projetos incentivam o empoderamento feminino e o empreendedorismo entre as mulheres.

Quem também aderiu à proposta de criar e compartilhar conteúdos por meio de uma abordagem mais humana e contribuir com esse fluxo de mudança social é o casal Denis Cardoso e Suzane Gobbi. Eles estão por trás da Nós, produções independentes. A ideia ganha forma nas plataformas digitais e, na verdade, não surgiu agora. Assim como todas as pessoas envolvidas nos projetos independentes recentes na cidade, o desejo de fazer algo diferente sempre esteve latente nos pensamentos e na filosofia de vida do designer e da jornalista de Chapecó. Mas como tudo na vida, uma hora é preciso coragem para começar. “Estamos dando os primeiros passos rumo a uma mudança. As pessoas estão percebendo que existem outras maneiras de se fazer as coisas. Os coletivos são um pouco do reflexo disso. Muita gente tem notado que sozinho é mais difícil de chegar a algum lugar e que a união gera ideias e possibilidades mais duradouras”, pontuam os idealizadores do projeto.

Realmente não é fácil seguir com um projeto sozinho. É claro que, o tempo todo, em qualquer lugar do mundo, indivíduos têm ideias maravilhosas. Mas uma ideia só é boa quando é concretizada e isso depende, inevitavelmente, da ação, do talento e da boa vontade de outras pessoas. Isso me faz lembrar muito daqueles clássicos da Sessão da Tarde, como Conta Comigo, Os Goonies, E.T. Esses filmes mexeram e ainda mexem tanto com a gente porque são grupos de amigos, parceiros e companheiros que, juntos, somam esforços, lutam e vencem o mal. Esses sentimentos de união e coletividade são inerentes ao tempo e nos instigam a compartilhar bons momentos, a querer fazer do espaço onde vivemos um lugar melhor.

Afinal, somos reflexo das pessoas que conhecemos, das relações que estabelecemos ao longo da vida, e todos precisamos ter alguém com quem contar. E é muito bom saber que hoje, neste exato momento, contamos com todos esses projetos e grupos que enxergam a possibilidade de uma rotina mais viva, uma cidade mais humana. Talvez sejam eles o incentivo que faltava para muita gente também começar.

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Os coletivos se baseiam na horizontalidade organizacional. Ou seja, um modelo de parceria que não adota a estrutura hierárquica chefe/subordinado. Podem ser formados por profissionais da mesma área com objetivos e propostas de trabalho em comum ou por pessoas de áreas diversas. É importante destacar que a maioria dos integrantes dos coletivos não se dedica aos grupos de maneira exclusiva e, sim, de forma paralela aos seus trabalhos formais.

Eles se mantêm de diferentes maneiras e podem exercer atividades comerciais, prestação de serviços ou não ter fins lucrativos. Porém, ainda não existe uma legislação específica. Por ser uma nova forma de trabalho, não se encaixa no terceiro setor, nem na iniciativa privada e também não na pública. “É incrível como facilitaria se a gente tivesse um pensamento crítico junto ao governo de buscar um perfil jurídico que fosse mais apropriado para essa classe”, comenta a produtora cultural Janaina Spode, integrante da Casa da Cultura Digital de Porto Alegre.

O coletivo da capital gaúcha, assim como tantos outros, precisou encontrar o seu próprio perfil jurídico. “Queríamos ser uma organização aberta, sem fins lucrativos, mas não sabíamos como. O que encontramos como solução foi cada um dos membros se tornar um Microempreendedor Individual (MEI). Quando prestamos um serviço, usamos o CNPJ dos integrantes”, explica Janaína.

A Casa da Cultura Digital é um coletivo que tem entre seus membros diversos perfis de profissionais e possui um esquema de muitas parcerias. Em 2013, o coletivo foi contemplado em um edital do governo para em 2014 percorrer o interior do Rio Grande do Sul, mapear outros coletivos e entender melhor sobre a gestão e as articulações dos grupos dentro da cena cultural de suas cidades. Através do projeto chamado Observatório.cc, também foram realizadas oficinas de cultura hacker, software livre, licenças, direito autoral na era digital e pesquisas com mais de 25 coletivos do estado.

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Sobre o autor

Greici Audibert

Greici Audibert

Repórter com interesse em literatura, tecnologia, política, bichos fofos e cultura pop.

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