CULTURA E VARIEDADES DESTAQUE

O telhado do mundo

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Por Marlon Macarini

“A arte da viagem induz uma ética lúdica, uma declaração de guerra ao espaço quadriculado e à cronometragem da existência.”(Michel Onfray)

Com as mãos ainda machucadas, ressecadas pelo enregelado enredo das montanhas que há alguns dias foram minha morada e minha provação, busco o correto traçado dos vocábulos para tentar expressar o inenarrável. E se a literatura me faltar neste breve relato, no qual deitarei as sensações que permearam os meus dias pelas montanhas nepalesas, na região do mítico Everest, conhecida como o telhado do mundo, não é por lassidão, tampouco por falta de atrevimento.

Há pouco mais de uma semana, após treze intensos dias de caminhada por diversos cenários e geografias, circundado pelas montanhas mais altas do planeta, sob a atroz manifestação do frio outonal, com todos os recantos do corpo e alma entregues à caminhada, eis-me aqui, satisfeito e nostálgico, relembrando os dias que compuseram essa sinfonia sem precedentes em minha vida, na qual todos os acordes confluíram para o clímax orquestral, em que meus olhos pousaram pela vez primeira nos extravagantes contornos da montanha mais alta a que temos conhecimento, o Everest.

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Pois bem, comecemos pela ordem natural dos eventos.

I – Uma viagem longa e distante

Sempre procuro preencher minha existência com a presença da música. Nesse sentido, desde que comecei a permitir que o Caos fosse o norteador do meu caminho, sempre busquei compor o emaranhado dos dias baseado nas canções que tanto me emocionam e me insuflam vida. Como um filme que ainda não atingiu o seu derradeiro ato, tenho minha própria trilha sonora. Uma das músicas que conseguem definir a minha sede insaciável de viver chama-se I’m the highway, composta por Chris Cornell. Por que estou comentando isso? Logo mais haverá o porquê.

Comecei a planejar esta viagem há alguns meses, e sabendo que a melhor época para percorrer as trilhas no Nepal era nos meses de outubro e novembro, dirigi minha atenção para esse período, reservando para o circuito denominado Everest Base Camp duas semanas.

Sempre em minhas viagens, busco realizar alguma caminhada por lugares inóspitos, festejados pelas belezas naturais, visando confrontar-me sempre, saindo da zona de conforto a qual muitos de nós nos acostumamos a estar, mesmo conscientes de que nada produziremos de grandioso quando nela perduramos. Da mesma maneira, fui atrás de informações para realizar esse circuito de trekking, considerado mundialmente como uma das principais travessias de montanha.

Mesmo habituado com atividades físicas, fui orientado pelo coach, Zé Murillo, do box de Crossfit onde pratico, chamado Tukaha, aqui em Florianópolis, o qual dispensou especial atenção ao meu preparo físico para enfrentar esta caminhada. À parte disso, o que me preocupava realmente era a questão da altitude. Na travessia, haveria pontos em que eu teria de atravessar alturas superiores a 5.500 metros de altitude, e a possibilidade de ser vítima do “mal de altura” era bastante presente.

Além disso, minha ideia era empreender essa caminhada sem a ajuda de guias, o que é bastante incomum e não recomendado, bem como o auxílio de porteadores (pessoas locais que carregam consideráveis quantias de peso, nesse caso, pesadas mochilas e suprimentos).

Os meses foram passando e a data da viagem se aproximava. Datada para 12 de outubro, adentrei no mês da viagem bastante ansioso, temeroso de que minha desorganização não estivesse completa. Sim, desorganização, pois nunca consigo colocar de forma ordenada os parâmetros em meu planejamento. Ademais, creio que nunca planejei efetivamente viagem alguma. No entanto, algum cuidado foi necessário, como contratação de seguro de viagem, evacuação por helicóptero (em casos de emergência, é a única saída das montanhas), check list do equipamento necessário para a realização da caminhada, enfim, logísticas triviais a esse tipo de atividade.

Meu voo tinha como destino Nova Delhi, e de lá eu tomaria outro voo a Kathmandu, capital do Nepal, sendo que meu trekking se iniciaria no dia 16 de outubro.

Após uma viagem conturbada, cheguei a Nova Delhi com atraso de três horas, o que veio a prejudicar o meu embarque no voo para o Nepal. Mesmo após o meu esforço hercúleo para chegar ao guichê da aerolínea a tempo de tomar o voo, fui impedido. Estava exausto, pois havia corrido com a mochila pelos corredores do aeroporto de Nova Delhi, e suava por todos os poros. Caí desolado à negativa da funcionária da empresa. Não sou dado ao pranto, mas após 21 horas de voo, cansado, tomado pela expectativa, quase me entreguei ao choro.

Respirei, sentei no chão do aeroporto, recostado à mochila e deixei as ideias se harmonizarem novamente, visualizando as possibilidades. Ademais, chegava eu no meu quadragésimo quinto país, sendo que a maior parte deles são de terceiro mundo. Já estava acostumado às previsões não tomarem o rumo desejado.

Comecei a observar os transeuntes, e no guichê da mesma empresa, sofria com a mesma situação outro viajante, mochila nas costas, aparentando seus quarenta anos. Aproximei-me e começamos a conversar. Giri, seu nome, indiano, de 49 anos de idade, que estava em vias de fazer o mesmo circuito que eu, mas o prazo de que dispunha para estar em Kathmandu era mais exíguo que o meu: iniciaria sua jornada em dois dias. Conversamos, a atendente da companhia aérea relatou-nos que havia somente um lugar disponível no voo para o dia seguinte, e sendo minha a preferência, questionou-me se eu ficaria com a passagem. De imediato, sem pensar, disse a ela que dispunha dessa vaga e que o indiano poderia viajar em meu lugar. Nesse momento eu pensava na possibilidade de não mais ir ao Nepal e ocupar minhas três semanas de férias com uma viagem apenas pela Índia.

Giri, após comprar sua passagem, e a quem já havia participado minha ideia de talvez não realizar o trekking, veio até mim, que já estava sentado novamente, e me disse para não desistir. Eu pensava nisso, tanto porque o valor para voar a Kathmandu por outra companhia aérea era ofensivamente dispendioso, e em meu orçamento eu não previa, e nem possuía, dinheiro para comprar essa passagem extra sem que prejudicasse o meu planejamento inicial. A boa energia de Giri foi tão contagiante, que impulsivamente levantei-me, entreguei o que não tinha em troca da passagem e resolvida a situação. No dia seguinte, embarcaríamos.

Fomos a um hostel no centro da “velha” Delhi, onde, pela primeira vez Giri experienciou a energia de uma hospedagem barata. Saímos a almoçar e celebramos com algumas cervejas a viagem espetacular que nos esperava nos Himalaias. Contou-me sobre sua vida, família e viagens. Uma agradável companhia e um grande amigo que levarei à eternidade de minhas lembranças.

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II – Minha mente era um nevoeiro, e meu coração tornou-se uma bomba

Na caótica Kathmandu, comprei algumas roupas que necessitaria para a trilha, ouvi alguns relatos de viajantes que haviam retornado de outros circuitos pela região dos Himalaias e comecei a considerar a possibilidade de estender meu trekking para outro circuito, chamado Três Passos. Trata-se de uma variação do Everest Base Camp com a adição de três grandes passos de montanha, caminhada para a qual recomendam os manuais que seja feita com a presença de guia e com o mínimo de 18 dias. Eu possuía 16. E considerei.

Da capital nepalesa, na manhã do dia 16, mais precisamente às 06h15min, tomei o voo para Lukla, vilarejo de onde comecaria o trekking, e onde está localizado o aeroporto considerado como o mais perigoso do mundo, devido a sua curta pista de aterrissagem, a qual termina em um abismo. Enfim, não dou muito espaço ao medo em meus dias, e o voo foi tranquilo, em um avião pequeno, com mais nove convivas, sem grandes riscos. Aterrissamos, afivelei minha mochila, e com os pés e o coração alegre, fui em direção à estrada aberta.

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III – No meio de lugar algum

Já nos primeiros passos da trilha, meu corpo convulsionou em um cataclismo de gratidão. Eu estava no Nepal, sozinho, com minha mochila, levando meu livro preferido e alguns biscoitos, e algumas bolachas, indo em direção ao completo desconhecido. Silenciei na primeira parada, e lembrei da minha incessante busca expressada no ato de viajar: Luta. Nunca empreendi uma viagem para buscar conforto, ou descansar o peso da rotina esmagadora daqueles que precisam lutar para sobreviver em uma sociedade assolada pela falta de sentido, como a nossa, mas sim, todo movimento empreendido foi visando à desconstrução, à implosão de ideais alheios e de vícios impostos. Buscando me retemperar nas águas frescas do Desconhecido, iniciei essa minha nova batalha, expus-me ao risco, à dor e à plena entrega.

O primeiro dia de caminhada foi responsável pela minha escolha quanto ao trajeto que percorreria. Tendo caminhado por oito horas quase que ininterruptas – a única parada foi para almoço -, o que era para ter sido feito em dois dias, eu acabava por finalizar em apenas um. Meu corpo havia respondido positivamente a minha curiosidade, e em perfeita simbiose com o meio que se apresentava, entregamo-nos por completo à jornada, que ao fim de treze dias seria brindada com coragem, alegria e gratidão.

Os dias que se sucederam aos primeiros vinte quilômetros desenhados por meus pés já no início da caminhada, foram repletos de complexos sentimentos, equiparados à geografia diversa que se apresentava, ora desértica, rochosa, ou por meio de bosques frondosos e rios e cachoeiras de águas transparentes. O sol, embora tímido algumas vezes, esteve presente por toda a caminhada, e o céu, monocraticamente azul, foi alento para meus olhos e meu corpo cansado, quando me permitia deitar à relva fresca ou sobre as pedras do caminho.

As mais ímpares sensações tomaram o meu corpo durante os 125 quilômetros percorridos muitas vezes sobre alturas superiores a 5.000, sendo que em três oportunidades, estive sobre o ápice da geografia. E que imagem meus sentidos apreenderam sobre esses cumes! O Everest, revestido de um manto dourado no topo do Kala Patthar, a 5.500 metros! O Ama Dablam, minha montanha favorita, em nuances rosados e azuis no crepúsculo! O Lhotse, imponente, muitas vezes encobrindo seu mestre, a maior dentre todas, em tons alaranjados e vermelhos ao pôr-do-sol sobre as rochas brutas do Gokyo Ri!

E os lagos, poeticamente azuis, esverdeados, em tons de cinza. Em consonância com a opulência das montanhas, formavam o retrato ideal e idílico da Liberdade.

As crianças, livres, embora subjugadas pelo peso da responsabilidade, mas fortes, visceralmente fortes, entoando em seus sorrisos, quando à passada dos viajantes, a verdade do sentimento de alegria, contemplando-nos como um dócil “namastê”. Ah, a pureza que senti ao ver ao longe um menino a empinar pipa nos telhados do mundo! As lágrimas correram, diversas vezes, em lembrança de minha mãe, grande responsável pelo meu atrevimento e minha curiosidade. Creio que o pouco de força que habita estes dedos que digitam lembranças, vem do manancial de coragem que corre no meu universo materno.

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IV – E então a quieta explosão

Enfim, embora não tradicional o relato, pois não me ative aos detalhes técnicos da viagem, posso dizer, com palavras emprestadas, que existe tanta beleza no mundo, que às vezes chega a doer. É necessário apenas ter olhos e coragem para vê-la, sentidos resilientes e persistência para ser palco às maravilhas que o desconhecido pode proporcionar e finalizo, não sem despejar um pouco de nostalgia no verbo, descrevendo a minha chegada em Namche Bazaar, no primeiro dia de trilha, quando minhas preocupações todas foram deitadas por terra e senti plenamente a presença do Divino abençoando minha ousadia:

… Eram quase cinco horas da tarde, e o céu já anunciava tonalidades escuras. Não havia por-do-sol no dia 16 de outubro, e as nuvens formavam um pesado cobertor invernal. Minhas pernas fraquejavam após oito horas de intensa caminhada e centenas de metros de desnível. Adentrava nas ruas calçadas do vilarejo, e lojinhas de diversidades amontoavam-se uma trás outra. Não mais que cinquenta metros caminhando pelo pavimento, detive-me em uma esquina, e estático inspirei profundamente o ar que já não mais se apresentava em abundância. Fechei os olhos nesse instante e tornei a abri-los quando meus sentidos inclinavam-se todos à audição: de longe eu reconhecia os acordes da música que fora responsável pela composição de minha alma viajante, a voz inigualável de Chris Cornell destilava o poema de meus dias, ali, na chegada, como se esperasse a minha presença, nas montanhas, oriunda de um pequeno estabelecimento onde não havia ninguém, mas ele, e eu, ambos tempestade, ambos o firmamento, a noite e a autoestrada…

 

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