COMPORTAMENTO DESTAQUE

O silêncio dos inocentes

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Firmando-se como a voz da nova geração, os youtubers colecionam visualizações a cada dia. Com a roupagem de “gente como a gente”, são assistidos por dezenas de milhões de pessoas, figurando como os grandes influenciadores do comportamento infanto-juvenil. Ao constatar que os seis youtubers mais influentes do Brasil somam 104 milhões de inscritos juntos, nos resta pensar: O que ele têm falado por nós?

Nos anos 90 e início dos anos 2000, a rotina infantil era simples de ser monitorada. Escola, atividades extracurriculares, dever de casa, brincar na rua ou na casa do amiguinho e o precioso tempo na frente da televisão — estendido, muitas vezes, como uma recompensa por um bom comportamento ou uma nota boa. Agora, embora os espaços físicos sejam comedidos, o momento de lazer já não é mais tão finito. As ruas já não são tão seguras como a melhor alternativa das brincadeiras, os locais de recreação coletivos são escassos (para não dizer inexistentes) e a TV deixou de ser tão atrativa. Se antes possuíamos uma grade limitada de canais com uma programação ainda menor e horário certo para a atração de cada faixa etária, hoje a internet nos permite assistirmos a qualquer conteúdo no momento que escolhermos, pelo tempo que julgarmos adequado. Com isso, o tablete ou smartphone se tornou importante aliado na hora de “entreter” as crianças, levantando outra preocupação: o que os seus filhos andam consumindo na internet?

Um estudo realizado pelo Google em parceria com o Instituto Provokers mostrou que cinco das 10 personalidades mais influentes do Brasil são YouTubers. A pesquisa “Os Influenciadores de 2017 —Quem Brilha na Tela dos Brasileiros” entrevistou 2.500 pessoas entre 14 e 34 anos e elencou as 20 maiores celebridades do audiovisual (seja ele televisivo ou online) e, pela primeira vez, um YouTuber ficou em primeiro lugar da lista. Whindersson Nunes possui mais de 32 milhões de inscritos em seu canal (o segundo maior do Brasil). O piauense de 23 anos divulga seus vídeos desde os 15, focando em conteúdos sobre o seu cotidiano de forma descontraída, sketches de comédia e paródias musicais. A fórmula de sucesso desses influenciadores, de acordo com a pesquisa, é a admiração e proximidade do seu público, gerando uma identificação ao serem vistos como inteligentes, engraçados, carismáticos ou polêmicos. Desta forma, os YouTubers se diferenciam das celebridades convencionais por mostrarem as suas vidas e opiniões, sendo considerados, portanto, mais autênticos.

E o que os pais devem fazer quando dezenas de estranhos são responsáveis não apenas pelo entretenimento, mas por influenciar o comportamento de seus filhos?

Bem, em algo devemos concordar, não foi necessário o surgimento da internet pensamento e, de uma forma ou de outra, os seres humanos se influenciam entre si. Ela explica que, desde o século XVIII, as crianças eram educadas pelos familiares até a idade de ir para a escola, onde havia um processo secundário da socialização, diferente da socialização da família. “Na família, a criança entra em contato com um determinado conjunto de valores, religião e formas de pensar o mundo. Na escola ela é apresentada à diversidade, seja de valores, de prática, de concepção de mundo, de religiões, entre outros. E, inclusive, em função disso surgem muitos conflitos”, explana.

Portanto, se antigamente, até o final do século XX, o processo de socialização na infância e na adolescência se dava nessas duas instituições, hoje essa realidade mudou. “A criança continua sendo educada na família, mas por uma série de atores — pais, tios, avós, babás, vizinhos. Na instituição de educação infantil, por profissionais capacitados para isso. E, ao mesmo tempo, temos a mídia, em todas as suas formas. Com este tripé, não podemos dizer que as crianças são educadas apenas em casa, pois as mídias fazem parte do mundo que nós, adultos, organizamos para elas”, reflete Solange.

Para os pais que querem algumas sugestões de como acompanhar os filhos na era da tecnologia, o blog Nerd Pai traz várias dicas para você se conectar com o seu Padawan (como ele chama seu filho, uma referência aos aprendizes de Jedi, da saga Star Wars). Através do site e o canal no YouTube, Jorge Freire compartilha situações cotidianas e ainda recomenda filmes, livros e jogos para você curtir com seu pequeno.

E isso não é algo ruim. Pelo contrário! É importante para os seres humanos terem contato com a diversidade. Isso enriquece o mundo da criança, dando-lhe acesso a mais conhecimento e pessoas que produzem um entretenimento criativo para elas. “Até então, o entretenimento era hegemonizado pela televisão e agora é compartilhado por uma série de instrumentos e meios de comunicação. Isso me parece ter acontecido de forma pouco intencionada e organizada, mas ao mesmo tempo que vai se problematizando essas influências negativas, a própria mídia vai se reconfigurando. O próprio YouTube tem critérios para manter os vídeos no ar, como o uso de palavrões, quando os vídeos são direcionados especificamente ao público infantil”, afirma a psicóloga.

Bianca / 4 anos

Bianca / 4 anos

Mas cabe aos pais monitorar os conteúdos consumidos pelos seus filhos, não como uma forma de censura, mas problematizando determinados comportamentos para que a criança possa entender o que assiste, afinal, não pode-se esperar que ela tenha o mesmo discernimento e interpretação de um adulto. “Não estamos o tempo todo policiando, mas as crianças também não estão sozinhas e abandonadas em casa. Penso que as famílias continuam monitorando o que elas fazem nas redes sociais. Quando estão fazendo algo que não devem, isso aparece de alguma forma, na fala ou no comportamento. E ao perceber, é preciso identificar de onde vem. O mínimo de diálogo te permite identificar quem está influenciando negativamente a criança. Nós, como sociedade, precisamos discutir os conteúdos veiculados pela mídia e estipular critérios quando ele é voltado ao público infantil”, opina.

A publicitária Bruna Elisa Fritzen realizou como parte do seu trabalho de conclusão de curso, a pesquisa “Mídia e adolescência: mapeamento de consumo de audiovisual por adolescentes da cidade de Chapecó – SC”. Ao conversar com 58 estudantes de 14 a 17 anos da E.E.B. Bom Pastor, a publicitária constatou que o YouTube é a plataforma mais utilizada entre os jovens para consumo de audiovisual, algo que fazem diariamente. Os conteúdos mais acessados são músicas, videoclipes, vlogs, YouTubers, curiosidades e videoaulas, e todos os entrevistados afirmaram não ter supervisão nenhuma sobre o que assistem. “Essa informação chamou a atenção no questionário e quando tratada com os adolescentes nas conversas, a palavra “confiança” surgiu. Eles percebem uma maior proximidade e confiança com os pais a medida que crescem, mas a grande questão que restou foi: é confiança mesmo ou negligência?”, questiona Bruna.

Construção do senso crítico

Foi desta maneira que a auxiliar administrativa Ana Clara da Silva percebeu a alteração na conduta de sua filha, Bianca, de quatro anos. A menina começou a ficar mais agitada, inquieta, respondendo alto, praticamente gritando, atitudes antes não observadas. Quando o comportamento passou a ser constante e cada vez mais exagerado, a mãe buscou saber a origem. “Vi que ela estava assistindo direto os vídeos do Luccas Neto, um dia parei para ver junto e notei que esse ‘influenciador’ tem uma conduta totalmente inadequada, incentivando o mau comportamento e o desrespeito. Ele fala gritando e é muito exagerado com tudo que apresenta, causa ansiedade, irritabilidade e descontrole emocional em crianças, pois é totalmente sem limites”, diz a mãe.

A partir disso, sentou e explicou à filha porque aquelas atitudes não eram adequadas. Algo que, segundo Ana Clara, Bianca entendeu tranquilamente. “Acredito que jovens e crianças se identificam com esses influenciadores — às vezes até mais do que com os próprios familiares — por gostarem das mesmas coisas, ouvirem as mesmas músicas, entre outros. Alguns desses YouTubers passam informações que são realmente muito interessantes, conhecimentos, dão boas dicas para o aprendizado, mas já outros influenciam para o mal, ensinam a falta de disciplina e o desrespeito para com o próximo. Isso tem que ser visto com cuidado, é importante uma seleção de conteúdos para crianças e jovens, que se deslumbram facilmente, para que não sejam prejudicados futuramente devido ao acesso indiscriminado a certos tipos de vídeos. O importante é sermos amigos dos nossos filhos, para que eles se sintam à vontade para conversarem conosco sobre qualquer coisa. Devemos dar abertura e espaço para que eles possam diferenciar o que é bom do que é ruim. Estamos em uma época na qual trabalhamos muito e conversamos pouco, é preciso refletir sobre isso”, indica sabiamente. Isso porque o acesso à informação imediata e conectada, seja ela qual for, é um caminho sem volta. Uma pesquisa TIC Kids Online Brasil 2017, divulgada em setembro deste ano pelo Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br), estimou que cerca de oito em cada 10 crianças e adolescentes (85%) com idades entre nove e 17 anos são usuários de internet, o que corresponde a 24,7 milhões de jovens nesta faixa etária em todo o País. Destes, 77% assistem a vídeos online (segunda maior atividade realizada na rede).

É o caso de Rafael de Souza Viana, de 10 anos. O estudante passa a maior parte do seu tempo de lazer assistindo a vídeos no YouTube, geralmente ligados à super-heróis, em especial o Homem Aranha. “Meus irmãos tomam conta da TV e do PlayStation, então eu uso o tablet para assistir os vídeos que quero”, conta. Geralmente acompanhado da mãe, o garoto passa horas online, descobrindo sobre as origens dos personagens, os quadrinhos, a maneira de desenhá-los (outro dos hobbies dele) e os filmes que estão por vir. “Como eu acesso da conta da minha mãe, ela sabe o que eu vejo. Menos quando abro, sem querer, algo impróprio. Aí apago, para ela não pensar que procurei por aquilo”, fala baixinho, como quem conta um segredo. Mas como ele sabe que determinado conteúdo é inadequado para a sua idade? “Ah, porque a mamãe sempre explica”, responde, como se fosse a coisa mais óbvia do mundo. A admiração do Rafael pelos YouTubers é referente a como o menino enxerga a expertise desses influenciadores. Para ele, são pessoas talentosas, inteligentes, com algo a dizer e coragem para dizê-lo. Tanto que ele ganhou uma câmera digital de aniversário e já ensaia seus primeiros vídeos. O tema principal? Homem Aranha, é claro! A questão que dificulta para alguns pais em monitorar as atividades online de seus filhos é a falta de familiaridade com a ferramenta. Enquanto a sua geração teve que se adaptar aos novos dispositivos, sua prole nasceu com este acesso, e ficar sem ele parece inadmissível. Talvez por isso — e também a dificuldade de supervisão em comparação ao antigo “vilão” da história, a televisão — surge o desconforto em relação às redes e o que as crianças fazem nela.

Rafael / 10 anos

Rafael / 10 anos

 

Esse não é, necessariamente, o medo de Érico Assis. O tradutor, com sua esposa Marcela, criou uma conta do Twitter para a sua filha Olivia (@garotazeitona) antes mesmo de ela saber falar. A brincadeira servia também para atualizar seus tios e avós que moravam longe sobre o seu dia a dia de uma maneira divertida. Hoje, aos sete anos, Olivia tem total liberdade para utilizar o iPad, o que faz — segundo seu pai — em 95% do seu tempo livre. “A internet faz parte da educação e da geração dela, independente do quanto eu ou a Marcela dermos de estímulo ou censura. A Olivia navega praticamente só no YouTube. Não usamos nenhum tipo de filtro de canais ou conteúdos, até porque esses filtros não são bons. Mas temos uma noção do que ela assiste (ela usa nossas contas) e já dissemos que tal ou tal canal não era legal. Fora isso, nós criticamos alguma besteira que o Luccas Netto ou outro YouTuber falam — não para ela parar de ver, mas porque realmente achamos besteira e achamos que ajuda a construir o senso crítico da Olivia. Sem cortar o acesso, mas sim fazendo ela pensar no que assiste. Se isso vai ter resultado ou não, só vamos saber a longo prazo”, relata Érico.

Olívia / 7 anos

Olívia / 7 anos

Ao citar um dos irmãos Neto (pela segunda vez nesta matéria), os pais concordam que alguns YouTubers não são um bom exemplo para seus filhos. Para eles, tratam-se de jovens barulhentos, agindo de maneira infantilizada e buscando os risos e likes através de situações absurdas (como tomar banho com o corpo coberto de Nutella). Mesmo assim, Érico não faz grande alarde sobre isso, principalmente ao relembrar quem eram os “palhaços” da sua infância. “Considero-os péssimos, terríveis, absurdos, ridículos, uma cambada de aproveitadores e um atraso na evolução humana. Iguaizinhos aos influenciadores analógicos que formaram minha geração e a da Marcela, e que a gente amava”, reflete. No caso de Olivia, os pais aproveitaram o fato de a menina ser “vidrada” no YouTube para ensiná-la a pesquisar alguns temas de aula nos vídeos. Não que tenham obtido muito sucesso na empreitada, mas a tentativa é válida e agora ela já conhece essa possibilidade. “Por enquanto ela é só personagem das nossas redes (minhas e da Marcela), pois ainda não se interessou por Twitter, Facebook, WhatsApp, nem nada parecido. Até onde a gente sabe. Pode ser que ela esteja derrubando o governo da Hungria enquanto a gente acha que ela assiste vídeo de Minecraft”, brinca (ou será mesmo?).

Os seis youtubers mais influentes do Brasil

WHINDERSSON NUNES: 23 anos. 32 milhões de inscritos. Fala sobre seu cotidiano de forma descontraída, sketches de comédia e paródias musicais.

FLAVIA CALINA: 36 anos. 6 milhões de inscritos. Trata de assuntos como maternidade, saúde, beleza e cotidiano.

JULIO COCIELO: 25 anos. 17 milhões de inscritos. Através do Canal Canalha, aposta em paródias e vídeos de humor. Em seu perfil pessoal (com 4mi. de inscritos), faz resenhas de games.

FELIPE CASTANHARI: 28 anos. 11 milhões de inscritos. Através do Canal Nostalgia fala sobre filmes, celebridades, teorias da conspiração, política, games e muitos outros assuntos sobre cultura pop.

FELIPE NETO: 30 anos. 27 milhões de inscritos. Faz vídeos de reação a algum outro vídeo, comenta assuntos que estão em evidência na mídia e investe em piadas, focando no público infantojuvenil. Junto com seu irmão, o também YouTuber Luccas Neto (21 milhões de inscritos), criou o canal Irmãos Neto, que atualmente já possui 11 milhões de inscritos.

KÉFERA: 25 anos. 11 milhões de inscritos. Em seu canal 5inco Minutos fala sobre a sua vida, faz paródias e comenta assuntos como variados do universo feminino, como pressão estética e competição feminina.

Sobre o autor

Carol Bonamigo

Carol Bonamigo

Jornalista, pós-graduada em Cinema, viciada em cultura pop e dependente de um app pra organizar todas as séries que assiste.

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