COMPORTAMENTO DESTAQUE

O futuro chegou, e agora?

Geração Z3

Os jovens da geração Z chegam ao mercado de trabalho e começam a sacudir a poeira das mesas de escritório.

Enquanto o pessoal que nasceu lá por 1970 sempre se preocupou com carreira e estabilidade financeira, a geração Y dos anos 80 se viu no desafio de migrar do analógico para o digital. Agora a escrivaninha tão disputada pelas gerações anteriores nem sequer tem lugar nos planos dos jovens nascidos entre 1990 e 1999.  Afinal, trabalho para a chamada geração Z não se limita a um espaço físico. Ela quer e pode trabalhar em qualquer lugar. “A internet nos mostrou com fotos e vídeos no Facebook que a vida pode ter significado. E que uma vida no escritório é uma vida desperdiçada”, avalia o jornalista Marcos Piangers, que desde 2001 trabalha com comunicação jovem e plataformas digitais.

Piangers palestra sobre processo criativo e ambientes de trabalho construídos através de equipes motivadas e inovadoras

Ousados e confiantes, eles enxergam o mundo de forma diferente e chegam ao mercado de trabalho estabelecendo desafios e transformações. Desapego à estabilidade profissional, foco não no dinheiro, mas no aprendizado, na autonomia e no propósito da empresa onde trabalha são algumas das características dessa geração. Segundo Piangers, os nativos digitais buscam experiência. “As redes sociais e a cultura do selfie impulsionam uma geração ao extraordinário constante”, acrescenta o integrante do programa Pretinho Básico, da rádio Atlântida, que viaja pelo Brasil conversando com as pessoas sobre tendências, humor e pensamento criativo.

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Nome: Marina Pessalli Favero. Idade: 18 anos. Estudante de Jornalismo e estagiária em assessoria de imprensa. “Queremos absorver conhecimento de todas as áreas.”

Portanto, tudo que era consistente e estável em épocas passadas agora se liquefaz num ambiente essencialmente tecnológico. O sociólogo espanhol Manuel Castells, aliás, criou uma polaridade com o que denomina espaço de fluxos – que é o ciberespaço – e o espaço de lugar – as ruas, praças, lugares físicos de uma cidade. É através da sinergia dessas duas modalidades de espaço que se estabelece um território sem fronteiras, onde os nativos digitais transitam com grande habilidade. Um campo onde a estudante de Jornalismo Marina Pessalli Fávero, 18 anos, se encontra muito bem.

“A gente não tem como escapar e fica conectado o tempo todo. A diferença é que usamos a internet e as mídias sociais como ferramentas de trabalho para buscar inspiração, pautas e contatos. Não é algo onde se perde tempo, como já se achou”, avalia a estudante, que aos cinco anos conheceu a internet e aos 11 ganhou o primeiro celular.

Os mais novos, inclusive, usam as mídias sociais de forma mais equilibrada, na visão do estudante de Publicidade e Propaganda Guilherme Cavichioli, 20 anos. “É uma ferramenta que nós já conhecemos. Absorvemos como experiência e utilizamos para ter uma visão diferenciada no trabalho. Quem fala que as mídias atrapalham é porque tem esse bloqueio. Nós não temos isso. Essa percepção vem das pessoas que são atrapalhadas pela tecnologia”, acredita o estagiário em cinegrafia e edição de vídeo.

Conhecimento e felicidade

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Nome: Guilherme Cavichioli. Idade: 20 anos. Estudante de PP e estagiário em cinegrafia e edição de vídeos. “Além de conhecimento, buscamos felicidade.”

Em três anos de faculdade, Guilherme já estabeleceu três tipos de metas profissionais e nenhuma delas parece imutável. É que a era do acesso à informação, aos conteúdos diferenciados e a facilidade da comunicação tornaram os jovens mais cativados pelo conhecimento e afinados às mudanças. “Acho que a ideia é: vou fazer isso enquanto for bom e eu tiver vontade. Porque além de conhecimento, acho que buscamos felicidade. Uma felicidade passageira. Se há cinco minutos eu tinha um objetivo, agora ele pode ser diferente”.

Marina segue o mesmo pensamento e tem interesse em explorar muitos campos, além do Jornalismo. Audiovisual, cinema, literatura e fotografia são áreas que seduzem a estudante. “Fico dividida entre mil coisas e tento buscar um pouquinho de cada para as minhas produções. Essa é a grande característica da nossa geração. Quer absorver conhecimento de todos os campos”.

O termo nativo digital foi criado pelo norte-americano Marc Prensky e compreende o grupo de pessoas que nasceu e cresceu com as tecnologias presentes no dia a dia, como videogames, internet, mp3 e celular. Todo esse conhecimento livre e disponível, consequentemente, criou uma geração mais ousada e exigente. Marina, por exemplo, logo enjoou do trabalho anterior, justamente por ser pouco desafiador.

“As empresas precisam ter uma causa, dar ao colaborador um motivo para se identificar com uma marca. Algo que valha a pena dedicar a sua vida.” – Marcos Piangers, jornalista

“No momento em que eu aprendi as coisas, senti que não podia extrair mais nada de lá. Então, para mim, caiu na monotonia”, conta a estudante, que hoje faz estágio em assessoria de imprensa. Com Guilherme aconteceu o mesmo. “O meu chefe sempre dizia que eu tinha futuro. Comecei a procurar coisas para esse meu futuro e percebi que não queria ficar somente naquele local. Comecei a repensar e hoje em dia eu não me prendo mais. Não tenho medo de sair de um lugar”.

Esse é o perfil da geração Z. Se as tarefas não desafiarem e o ambiente não for agradável para o desenvolvimento do trabalho, não há nada que segure os novatos.  Uma realidade dos tempos modernos que gera impacto, principalmente no ramo das indústrias criativas. Para atrair e reter talentos cada vez mais inteligentes e ambiciosos, as empresas terão que se renovar.

“O único caminho é uma mudança de cultura em empresas que querem se manter modernas. Acabar com a necessidade de horários e locais de trabalho e permitir autonomia ao funcionário. E principalmente: ter uma causa, dar ao colaborador um motivo para se identificar com uma marca que faz algo maior que um ser humano sozinho. Algo que valha dedicar a sua vida”, indica Piangers.

Transformações

Nesse sentido, o que muda também no cenário é o conceito de chefe. O gerente controlador dá lugar a indivíduos mais inspiradores, que agregam conhecimento e aumentam a sensação de domínio profissional dos colaboradores. “Não pode mais ser uma pessoa que dá ordens, mas que trabalha junto. Deve ser mais um gestor do que chefe. Alguém que te direciona e não alguém que oprime ou impõe regras. Nós gostamos de produzir, de estarmos envolvidos nos processos e à frente das coisas”, sugere Marina.

O esquema das ‘8:30h às 18h’ também será cada vez menos relevante, assim como o acúmulo de tarefas, uma forte característica da geração Y. A pesquisa da consultoria Millennial Branding e da multinacional de recursos humanos Randstad, feita no ano passado com dois mil jovens das gerações Y e Z em dez países, incluindo o Brasil, indica que os nativos digitais também são menos motivados por dinheiro.

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“Acumular dinheiro não é essencial. A gente vive para ser feliz. E para ser feliz você apenas precisa ter o que você quer. Hoje, para mim, é conseguir viver da minha maneira sem limitação. Sem alguém que me aponte o dedo e diga que eu não vou conseguir fazer. É como pintar meu cabelo. Se eu tiver vontade, vou fazer, independente das pessoas acharem legal ou não. Eu vivo pelo instante alegre e não pelo momento triste. Apesar da felicidade não ser uma coisa só. É como o amor, não é uma coisa só. Você pode amar o mundo inteiro, mas de formas diferentes”, exemplifica Guilherme, ao indicar que diversão e propósito pessoal também integram os planos de carreira dos nativos digitais.

“Acumular dinheiro não é essencial. A gente vive para ser feliz.” – Guilherme Cavichioli, estudante

Desafios

O problema, segundo o professor do programa de pós-graduação em Tecnologia e Gestão da Inovação e recém eleito reitor da Unochapecó, Claudio Alcides Jacoski, está na cultura impregnada na forma de ser da empresa, principalmente quanto à flexibilização dos horários, forma de entregas, criação de metas e resultados. Uma visita à sede do Facebook, na Califórnia, deu ao professor uma visão diferente do que deve ser uma organização do nosso tempo.

“As pessoas estão tão satisfeitas que se esquecem das horas. Elas buscam soluções e têm prazer de encontrar uma saída para a demanda a qual foram desafiadas. Esse é perfil do jovem hoje. Observa-se uma liberdade muito grande de atuação, de convivência, um ambiente extremamente agradável e locais para descanso. Tudo na linha do que interessa, que é o desenvolvimento da criatividade e a busca por soluções”.

Em uma época de importantes avanços tecnológicos, muitas profissões, produtos ou negócios partem de uma agregação intensa de conhecimento. E sempre que se usa o intelecto, o tempo é uma variável nesse processo, observa o professor. “Mas as leis trabalhistas nos colocam dentro de um processo de produção do período da industrialização, quando o ser era produtivo, apesar de estarmos agora em um momento onde o ser é criativo”. Ele se refere à legislação que, efetivamente, estabelece algumas restrições ao empregador em relação aos limites máximos da jornada de trabalho.

“As leis trabalhistas nos colocam dentro de um processo de produção do período da industrialização, quando o ser era produtivo, apesar de estarmos agora em um momento onde o ser é criativo.” – Claudio Alcides Jacoski, professor

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O advogado Alessandro Massaro, especialista em Direito do Trabalho, no entanto, acredita que os dispositivos existentes conseguem atender as necessidades contemporâneas, como horários mais flexíveis. Cabe às empresas buscarem orientação. “A lei possibilita a contratação por tempo inferior a oito horas diárias e 44 horas semanais, através do contrato em tempo parcial (artigo 58-A da CLT), e o trabalho a distância (artigo 6º da CLT). Atende boa parte das necessidades e expectativas do segmento empresarial e daqueles empregados que buscam condições diferenciadas de horário e organização do tempo de trabalho”.

Massaro menciona ainda a negociação entre empregados e empregadores, por meio de convenção coletiva para atender necessidades peculiares de algumas categorias, desde que preservado o mínimo de proteção estabelecida na lei e na Constituição Federal.

“Exemplo desta flexibilização possível é o chamado ‘banco de horas’ onde o trabalhador realiza jornadas que extrapolam o limite legal em determinados dias (trabalhar 10 horas, por exemplo), sem que o empregador tenha de pagar acréscimo sobre esta hora (de no mínimo 50% sobre a hora normal, conforme estabelece a CF/88). Ele poderá compensar dando folga ao empregado em um outro dia que melhor atenda aos interesses da empresa”, explica o advogado.

Inspiração

É o que parece funcionar muito bem na Resultados Digitais, empresa especializada em marketing digital de Florianópolis. Neste ano ela entrou para a lista das melhores empresas de Tecnologia da Informação (TI) para se trabalhar no Brasil. O ranking é da Great Placeto Work (GPTW) e o primeiro lugar ficou com a Google.

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A RD, de Florianópolis, foi pensada através de uma cultura que reflete a personalidade dos fundadores e a forma como entendem a gestão de talentos.

“Existe uma preocupação muito grande por parte do nosso lado em fazer com que essa seja a melhor experiência possível para todos os nossos talentosos RDoers (como são chamados os colaboradores). Disso partem muitos investimentos, aprendizagem, exposições, novos desafios. Também um processo para ouvi-los e criar envolvimento. Dessa combinação de coisas surgiram nossas práticas de gestão de talentos e o prêmio é reflexo disso funcionando”, expõe a diretora de Recursos Humanos da empresa, Ana Carolina Rezende.

Durante o trabalho, os cerca de 200 colaboradores podem parar para jogar videogame ou descansar pelos pufes espalhados em um ambiente descontraído, que deixa qualquer um à vontade. “Valorizamos autonomia e atingimento das metas e não nos apegamos a protocolos. Nosso time trabalha duro e celebra os resultados com essa mesma energia. Não valorizamos tipo de vestimenta ou formalidades. Todos sabem o que precisa ser entregue e o gestor acompanha e orienta quando necessário”, descreve a diretora.

“Existe uma preocupação muito grande em fazer com que essa seja a melhor experiência possível para todos os nossos talentos.” – Ana Carolina Rezende, diretora de RH da Resultados Digitais, uma das melhores empresas para se trabalhar no Brasil.

A RD possui ainda uma verba mensal direcionada para os RDoers usarem em cool stuff (itens para descontração, para decoração do ambiente, prática de esportes, etc). Os itens que receberem pelo menos 30% de votos são elegíveis para compra. “Cada mês é uma emoção. Essa é uma das iniciativas que explicitam aos nossos colaboradores como eles podem influenciar na gestão, nas ações e no ambiente da RD”, destaca Ana.

O resultado de toda essa engrenagem reflete no mercado, já que a empresa é líder no seu segmento no país. “As empresas que se adaptam ao perfil dos profissionais que são adequados à sua cultura são mais competentes na atração e retenção de talentos”, completa.

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O ambiente de trabalho é descontraído e informal. A empresa especializada em marketing digital valoriza a autonomia e não se apega a “protocolos”.

Esse também é o pensamento de Piangers, quando ele lembra que as empresas inseridas nesse perfil tendem a conquistar profissionais apaixonados, colaboradores dedicados, clientes seguidores e marcas cada vez mais valiosas. Trata-se, contudo, de um movimento muito grande que deveria começar já. “Elas precisam obrigatoriamente se adaptar, embora eu não saiba dizer se as empresas atualmente têm essa condição. Vamos ter nos próximos anos uma situação interessante quando esses próprios jovens chegarem ao comando. Aí sim nós veremos um impacto”, prevê Jacoski.

Protagonismo

A pesquisa que analisou as diferenças entre as gerações em 2014 também apontou que os nativos digitais têm uma forte tendência a serem protagonistas. O estudo mostrou que 17% dos jovens da geração Z pensam em empreender, contra 11% da Y. Raiana Comiran e Cesar Murilo Flores Junior, ambos de 23 anos, faziam parte dessa estatística até quatro meses atrás, quando eles conseguiram abrir a Space Vader Studio Criativo.

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Nome: Raiana Comiran. Idade: 23 anos. Empreendedora e designer. “Criatividade não tem hora marcada.”

A designer e o editor de vídeos contam com o auxílio da Inctech, incubadora tecnológica de Chapecó. A demanda de trabalho surgiu através das outras empresas que integram o programa de apoio aos novos negócios de base tecnológica. “Todo mundo queria algo em alguma área: ou design gráfico, vídeo, animação. Tudo a gente conseguia fazer ou tinha parceiros que nos ajudavam a fazer. Então surgiu a ideia de um estúdio criativo com várias vertentes do design e da comunicação”, conta Raiana.

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Nome: Cesar Murilo Flores Jr. Idade: 23 anos. Empreendedor, finalizador de vídeo. “As pessoas não querem mais uma linha de produção e sim um ambiente de trabalho divertido.”

Para a jovem, essa é uma tendência que se consolidou na geração atual. “São poucas as pessoas da nossa idade que não têm vontade de empreender. Nós mesmos falamos com nossos amigos sobre negócios”. Um movimento que se forma em busca de ideias e soluções que possam, de fato, melhorar o mundo, a começar pelo modo como compreendemos o conceito de trabalho. “As empresas muitas vezes não seguram seus bons funcionários porque acham que se eles chegarem três horas depois e ficarem três até mais tarde não vão fazer um bom trabalho. Falta um pouco de confiança no profissional. Criatividade não tem hora marcada”.

O pensamento de Raiana demonstra que as empresas precisam se acostumar com um novo jeito de trabalhar, principalmente quando o Brasil desponta como o país que possui a quarta maior população do mundo de nativos digitais. A informação é da União Internacional das Telecomunicações (UIT), órgão da ONU.  E a perspectiva é de que, em 2020, 20% da força de trabalho seja formada pela geração Z, conforme um estudo realizado neste ano pela empresa de recrutamento Robert Half em parceria com a organização Enactus.

Talvez seja tempo suficiente para Guilherme ser feliz em uma ou várias profissões ou campos de trabalho. Agora, por exemplo, ele é feliz com partes do cabelo verde. Amanhã pode ser azul. Depois, não se sabe.Info

 

Sobre o autor

Greici Audibert

Greici Audibert

Repórter com interesse em literatura, tecnologia, política, bichos fofos e cultura pop.

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