CULTURA E VARIEDADES

O Caçador de Pipas

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No mesmo ano em que foram lançados Budapeste, de Chico Buarque, e Onze Minutos, de Paulo Coelho (no Brasil); O Código da Vinci, de Dan Brown (nos Estados Unidos); saiu O Caçador de Pipas, de Khaled Hosseini, no Afeganistão. Dentre tantos títulos, o escolhido foi o último e parei um instante para pensar o porquê?! Por que um romance afegão no lugar de um dos livros mais vendidos em 2003, como do americano? Antes de ter a resposta pronta, a angústia e um aperto no coração me ajudaram a clarear os pensamentos. O Caçador de Pipas, mais do que uma história, trata sobre escolhas. Destas que fazemos a todos os instantes e que, por vezes, nem refletimos muito. Apenas escolhemos. E nessas escolhas vamos vivendo. Acontece que a minha escolha, a minha decisão, implica num resultado que muitas vezes atinge a tua vida.

E aí, amigo, pode não ser tão simples escolher não. Com uma breve justificativa feita, vamos à obra? Hassan sabia que era servo e que servo seria. Respeitava e amava seu amigo e também patrão, Amir. Do outro lado, Amir também gostava de Hassan e assim se construiu a história destes dois meninos que cresceram juntos, sob o mesmo teto, na mesma casa, mas com vidas muito diferentes. Apesar das diferenças sociais, existia ali uma amizade pura e verdadeira até que… no inverno de 1975, naquele que teria tudo para ser o mais inesquecível dos campeonatos de pipas, a diferença de classe prevaleceu. No campeonato, Amir precisava ser o primeiro para atrair a admiração do pai e Hassan, como sempre, fiel e atencioso, o apoiaria nesta conquista. Foi então que depois de horas encarando o céu azul, Amir derrubou a última pipa e, como de costume, se dirigia até ela para pegá-la, uma espécie de troféu. Mas fez mais, derrubou também a oportunidade de demonstrar a mesma fidelidade de Hassan; jogou no chão a chance de provar que, sim, tinha coragem o suficiente para defender o amigo e enfrentar o que disso resultasse. Quem já leu a obra, sabe que faço rodeios para evitar falar da crueldade que ocorreu neste ponto da história.

Os dois nunca mais viram o mesmo céu azul, nem as pipas, nem compartilharam histórias. Não como antes. Porque na vida é mais ou menos assim: cada gesto, ação e palavra (ou a ausência dela) nos leva a uma direção. Nem sempre é possível voltar. Para uns é a coragem, para outros é o medo, mas sempre existe algo que nos faz tomar este ou aquele caminho. Indiferente do que fazemos, a vida segue em diante. Segue no ritmo e no tom que nós deixamos. Por isso, cuidar as próprias ações é tão importante. E, em tempos de extrema exposição social e histórias fake, saber lidar com o que vem do coração já não é mais (se é que um dia foi) coisa boba. É preciso ser forte, ser duro, mas, principalmente, ser transparente consigo mesmo e ter amor. Somente assim conseguiremos viver em comunidade, sem que um seja mais que o outro. Pode não ser tão fácil. Mas, afinal, quem disse que seria?!

 

Silvane Loro Jornalista e editora do blog Prazer Literário

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