DESTAQUE SAÚDE E BEM-ESTAR

(Não) Coma Isso

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Você conhece alguém que possui alguma restrição à comida? Muito mais comum do que se imagina, cerca de um quarto da população nacional já passou por pelo menos um episódio de reação adversa a algum alimento. Indo além das mudanças de hábitos em função de preferências pessoais, a readaptação afeta profundamente o convívio social da pessoa que descobre uma alergia ou intolerância alimentar.

Tudo ia bem, até descobrir que era alérgica ao trigo. Quer dizer, não ia tudo bem. Pelo contrário. Sofria de uma forte dermatite atópica, potencializada exponencialmente pela ingestão de um alimento — presente em boa parte da minha dieta, devo acrescentar — que reforçava uma resposta do meu sistema imunológico. 

Já faz dois anos, e pode ter certeza, eliminar o segundo cereal mais consumido no mundo (conforme a Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação — FAO, com mais de 740 milhões de toneladas consumidas apenas em 2017) não foi nada fácil. 

Minha alergia é baixa, porém já foi o suficiente para alterar profundamente a minha vida e das pessoas que convivem comigo. Parece exagero, mas muito da nossa vida revolve em torno da comida, criamos memórias afetivas ligados ao alimento e, de uma hora para a outra, o corpo desenvolve uma reação que faz mudar todos os seus hábitos, puxando também para a parte psicossocial envolvida. 

Vanessa Magnanti, fisioterapeuta

Vanessa Magnanti, fisioterapeuta

E foi isso que a fisioterapeuta Vanessa Magnanti mais sentiu ao ser diagnosticada com alergia ao glúten e ao leite. Desde criança, sofria com cólicas e problemas intestinais, além de erupções na pele. Ao longo de seus 38 anos, chegou muitas vezes a cogitar uma alergia alimentar, mas nunca investigou a fundo, até por medo de confirmar suas suspeitas e ter que tomar uma atitude mais drástica, conta. Há um ano, Vanessa riscou completamente os dois alimentos da sua lista. “A praticidade não existe mais. Tudo é elaborado em casa, porque não tem mais como comer um lanchinho na padaria. É bem complicado, pois, às vezes, não estou com vontade de cozinhar. Sinto falta daquela mesa farta, italiana”, relata a fisioterapeuta. 

A base de sua alimentação se tornou legumes, vegetais, proteína animal grelhada, batata, mandioca e ovo, seu parceiro número um. Você pode pensar que ela se deu bem, principalmente por ser praticamente obrigada a ter um prato que os nutricionistas chamam de balanceado e saudável, mas na realidade, a sensação é bem diferente quando isso é feito por necessidade, não opção. “Você não quer ser saudável o tempo todo. Comer fora também é bem complicado, porque tem que parar para pensar na receita para saber se podemos ingerir aquilo. Esses dias fui comer um peixe e esqueci que o molho de alcaparras levava manteiga. Passei muito mal. Então são os ingredientes ocultos que obriga a nos preocuparmos. Essas informações deveriam estar mais expostas para as pessoas não correrem riscos”, reflete. 

Realmente, ‘praticidade’ não é mais uma palavra presente no vocabulário de Vanessa, ainda mais se considerar que tudo precisa ser feito dobrado, uma vez que seu marido e filho não partilham da sua dieta. Delivery? Nem pensar! Quando não se tem certeza da procedência do produto, melhor não arriscar.

“Às vezes, a insistência das pessoas chega a ser mais chato que a própria doença. E isso é triste, você se sente como um peso, um incômodo” – Vanessa Magnanti, fisioterapeuta

“As pessoas demoram para compreender que não é frescura, que você não está ‘tentando ser fitness’, mas é uma condição da tua saúde. Sempre rola um comentário ‘ah, mas só um pouquinho não vai fazer mal’. Vai sim! Às vezes, a insistência das pessoas chega a ser mais chato que a própria doença. E isso é triste, você se sente como um peso, um incômodo”, desabafa. 

Mas agora, após o período de readaptação, sua saúde está inegavelmente melhor. “A pele, o funcionamento do intestino, a minha disposição, tudo melhorou. É o preço que tenho que pagar para me sentir bem”. 

Identificação e Diagnóstico

Vanessa não está sozinha nesta jornada. De acordo com a Associação Brasileira de Alergia e Imunologia (ASBAI), as reações alimentares de causas alérgicas verdadeiras acometam 6 a 8% das crianças com menos de três anos de idade e 2 a 3% dos adultos. As alergias alimentares compreendem uma ampla gama de sinais e sintomas consequentes a uma resposta atípica e exagerada do sistema imunológico frente a proteínas alimentares. O escopo clínico é individual e variável e está diretamente relacionado ao mecanismo imunológico, com sintomas que podem surgir na pele, sistema gastrointestinal, respiratório e/ou cardiovascular. As reações podem ser leves, com simples coceira nos lábios, até mais graves, incluindo comprometimento de vários órgãos e potencial risco de óbito. Assim, o tratamento da alergia alimentar fundamenta-se na exclusão dietética do alimento envolvido na reação imunológica responsável pelos sintomas clínicos.

IMG_6684Por isso é importante ter o diagnóstico correto para não confundir alergia com intolerância. “Na alergia vai haver participação do nosso sistema imunológico enquanto na intolerância, isto não ocorre. Por exemplo, uma criança que desenvolve alergia ao leite de vaca, o seu organismo passou a produzir um anticorpo contra uma ou mais proteínas do alimento. Quando se tratar de intolerância ao leite, possivelmente, à lactose, não haverá desenvolvimento de anticorpos; o que acontece nessa situação será uma deficiência ou ausência de lactase que é uma enzima que existe, normalmente, em nosso organismo, necessária para desdobrar a lactose (açúcar do leite)”, explica Carlos Roberto Siqueira Reis, especialista em Alergia e Imunologia Clínica. 

Conforme o médico, as reações alérgicas alimentares são imprevisíveis e podem surgir a qualquer momento da vida. “Assim como para outras doenças, é necessário o diagnóstico preciso e correto, com exames complementares e testes de provocação, quando pertinente. Tratar a alergia alimentar é o grande desafio, pois das estratégias disponíveis, envolve afastar os alimentos desencadeadores das reações alérgicas e uso de algum medicamento, principalmente nas crises”, esclarece Siqueira Reis, lembrando que a alergia não é quantitativa, mas qualitativa, ou seja, o indivíduo poderá apresentar uma reação adversa, mesmo com uma pequena quantidade do alimento ao qual já tenha apresentado, anteriormente, alguma reação alérgica. E quanto mais se expõe, mais o organismo reage, com tendências a agravamento.

Cuidados e Possíveis Causas

Mas se estamos em constante contato com a comida, por que, nos últimos anos, o número de alérgicos e intolerantes alimentares parece aumentar demasiadamente? A nutricionista Liziane Cassia Carlesso, doutoranda em Engenharia de Alimentos e professora universitária nos cursos de Nutrição e Gastronomia, tem uma teoria. Além da evolução da medicina em precisar os diagnósticos e a disseminação de informação à respeito da doença, há também as mudanças na indústria alimentar, que transformam a aceitação organicamente de certos componentes. “Com o passar do tempo, o nosso corpo tem respondido de maneira diferente a algumas substâncias que são modificadas geneticamente em alimentos. Hoje, várias empresas fazem essas alterações. Por causa, por exemplo, das mudanças climáticas, essas empresas precisam tomar uma posição para que tenham uma produtividade não decadente e um mesmo resultado de ‘qualidade’ até a mesa do consumidor. Esses aditivos impostos pela indústria modificam todo o andamento do meu organismo frente a uma absorção diferente de um componente inespecífico”, informa. 

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A nutrição vem para auxiliar a pessoa na sua dieta, indicando substitutos para garantir a ingestão dos nutrientes necessários e apontar opções variadas no preparo diário. “Muitas vezes, não nos damos conta dessa miscelânea de alternativas. E não são apenas os alérgicos. Diabéticos e celíacos, por exemplo, também precisam de uma dieta apropriada, informando quais substitutos podem ser usados que não irão alterar o sabor e a textura. O que posso utilizar em casa para fazer um refeição saborosa, nutritiva e que seja destinada à quem não pode comer o ingrediente na sua integralidade?”, diz Liziane.

O Guia sobre Programa de Controle de Alergênicos da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), publicado em 2018, calcula mais de 170 alimentos identificados como alergênicos. Entretanto, cerca de 90% dos casos de alergia alimentar sã o ocasionados por apenas oito deles: ovos, leite, peixe, crustáceos, castanhas, amendoim, trigo e soja. 

Dependendo do grau da patologia, cada pessoa pode se expor a vestígios do alimento sem, necessariamente, ingeri- -lo. Ou seja, caso queira evitar o trigo, posso ir a um restaurante que serve massa, mas pedir um risoto. Entretanto, alguém portador da doença celíaca em grande escala, não poderá comer sequer uma salada neste mesmo local, pois a cozinha estará ‘contaminada’ com resquícios do grão. É o que chamamos de contaminação cruzada. “Durante a manipulação do alimento não pode haver traços do componente. E como comer fora se torna uma barreira, hoje as indústrias tiveram um crescimento de nicho de mercado grande em produtos com fins especiais”, afirma a nutricionista.

Inclusão Alimentar

Embora tenha aumentado as opções sem glúten e sem lactose nas prateleiras dos supermercados, a oferta ainda é pequena perante a demanda, onerando os preços absurdamente. E quem tem essa situação, acaba acatando o imposto pela indústria por falta de alternativa. 

Observando isso, a química e doutora em Engenharia de Alimentos, Andreia Maria Faion, filha de uma confeiteira diabética, resolveu investir em uma padaria que produzisse opções para a população com restrições específicas. A Gunas Cake comercializa apenas alimentos sem glúten e sem lactose. Sem qualquer traço desses componentes na sua cozinha, busca quebrar o paradigma de que esse tipo comida excede no preço na mesma proporção que carece de sabor. “As matérias primas são bem mais caras, por isso buscamos substitutos, através de fornecedores de fora. É preciso lembrar que, apesar de sermos um negócio que visa o lucro, estamos produzindo para um público que tem dificuldade em encontrar seus alimentos, então não podemos limitar ainda mais ao colocar um valor elevadíssimo. O alimento deve ser acessível à todos”, conta. A cada dia, Andreia descobre, através dos relatos dos seus clientes, como é difícil a relação deles com o alimentos, especialmente em eventos sociais. Ao longo de um ano de negócio, conheceu pessoas que contaram terem entrado em depressão após a descoberta da alergia alimentar; emocionou ao ver uma criança eufórica por descobrir que poderia comer tudo exposto na vitrine; e fez também seu primeiro bolo de casamento. 

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Uma das clientes assíduas de Andreia é Yasmin Rehbein, de oito anos, que há três foi diagnosticada com a doença celíaca. Ela aprendeu a lidar com a sua condição, especialmente após cessarem as fortes dores abdominais, mas quem acaba se preocupando é a sua mãe, Francyelle Donde Rehbein. “Limpamos toda a casa do glúten, trocamos todos os utensílios domésticos, para não ter nenhum resquício. Houve mudança na casa da vó também, que antes colocava um pouco de farinha de trigo até no feijão, para engrossar o caldo. Meu marido fez curso de pão e eu comecei a pesquisar receitas de bolo. Instruímos ela do que pode e não pode comer, conversamos bastante para que ela nos conte se tem vontade de algo”, relata a analista administrativa. 

E Yasmin já se acostumou a ter um pouco mais de cuidado. “Quando vou dormir fora, levo a minha mudança. Desde as roupas, até a comida, o mini forninho, a torradeira. Não dá para ficar trancada dentro de casa. Mas é tranquilo, já me acostumei a sentir vontade. Quando vou a uma festinha de aniversário, levo a minha marmita com bolo, pastel e docinho”, conta a pequena.

O esforço de Francyelle para incluir a filha na rotina social reflete na maneira sossegada com que Yasmin lida com as diferenças entre ela e seus colegas. Ela sabe que pode repartir seu lanche na escola, mas não pode provar o dos outros. “Como restringe muito socialmente, algumas pessoas não aceitam a doença. Se tem algo que ela não vai poder comer, levo de casa um alimento similar, para ela não sentir que está comendo algo muito diferente dos outros”. 

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Yasmin e Francy

Com o tempo, os amigos e familiares passaram a se conscientizar e sensibilizar, percebendo que não é tão penoso incluir todos os convidados nas confraternizações. “Para que separar o que um e o outro comem? Por que fazer metade sem glúten e metade com, se pode ser tudo sem?”, questiona Yasmin, sabiamente. 

Quando se trata da saúde, todos têm o seu papel. A universidade tem obrigação de fornecer ferramentas, principalmente através dos cursos ligados à alimentação, com projetos de pesquisa e capacitando os profissionais, sugerindo e acolhendo de forma inclusiva a parcela dos intolerantes, dando opções para que eles possam fazer à sua maneira e a um preço acessível. 

O Poder Público também tem a sua responsabilidade, em dar cada vez mais opções de ações e legislações, educando quanto às intolerâncias alimentares, como e onde realizar o diagnóstico e o tratamento. 

E claro, o próprio consumidor precisa se mobilizar e criar a demanda, compreender o seu direito e solicitar a desmistificação do “não posso comer, mas tenho uma alternativa”. É preciso perceber que não se trata apenas de uma restrição do que se gosta, e reordenar seus hábitos, para não se sentir excluído.

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A Lei Federal 12.982/14 determina o provimento de alimentação escolar adequada aos alunos portadores de condição de saúde específica. “Desta forma, é feita uma alimentação voltada à elas, para que não se sintam desamparadas. Não saindo do viés da ideia central da alimentação dos demais colegas, com a mesma qualidade nutricional, sem fugir tanto da característica sensorial. Isso traz um conforto maior até para os pais, que sofrem junto na hora de fazer uma escolha aos filhos”, informa a nutricionista Liziane.

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Em 2015 a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) criou a RDC nº 26, dispondo sobre os requisitos para rotulagem obrigatória dos principais alimentos que causam alergias alimentares. O objetivo do controle de alérgenos é garantir que o consumidor sensível receba uma informação clara e confiável a respeito das substâncias alergênicas presentes no produto final.

Sobre o autor

Carol Bonamigo

Carol Bonamigo

Jornalista, pós-graduada em Cinema, viciada em cultura pop e dependente de um app pra organizar todas as séries que assiste.

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