CULTURA E VARIEDADES

Na minha pele

33 cp Na minha pele (1)

Por Silvane Alves dos Santos – Jornalista 

O país, digo, o nosso País, passa por um processo transformatório gigantesco. Por vezes assustador, tenho de concordar. Estamos num momento político (e ético) nunca antes vivenciado. Acesso à cultura e a benefícios antes inimagináveis; lutas de (muitos) anos que trazem conquistas incalculáveis para as minorias; espaço para essas minorias se manifestarem; a busca pela pluralidade e, principalmente, pela valorização desta pluralidade. Mas não é só isso. Ao mesmo tempo em que ganhamos com esses espaços, há uma corrente (crescente) de conservadorismo. Talvez há um ou dois anos isso parecesse apenas que as pessoas estavam ficando mais caretas em relação a alguns temas, mas não. As pessoas estão mais radicais com relação a alguns temas. Principalmente os que tratam sobre direitos para a comunidade LGBT, por exemplo; violência e machismo contra mulheres (ainda esse assunto?!); cotas para negros (isso também?! Tá chovendo no molhado), só para citar os mais comuns, os assuntos mais clichês. “Começou o Mimimi”, poderão sussurrar alguns que chegaram até este ponto da leitura.

Mas e cadê o livro? O livro (claro, ia chegar nele) fala justamente de uma dessas minorias, que bem da verdade é minoria só nos direitos, porque são e sempre foram a grande maioria neste País, os negros. A obra, “Na minha pele”, de Lázaro Ramos é uma autobiografia, mas que não é bem biografia, dita pelo próprio escritor com uma viagem. Nesta viagem, o autor volta às origens para resgatar sua própria história, entender mais o mundo de que veio e a que pertence. Faz também um resumo de como ingressou no teatro, depois cinema e TV, mas essencialmente, apresenta como desenvolveu seu empoderamento enquanto negro. Empoderamento este que está muito em voga nos últimos anos. Mas e porque o empoderamento está em alta se vínhamos (o País) numa crescente de igualdade? Afinal, não somos todos iguais perante a lei? Voltamos aí ao início do texto quando falávamos que estamos mais “radicais”. Afinal, mesmo com a experiência, com os estudos comprovando quais são e quantas são as populações que sofrem de preconceito e injustiça social, ainda assim, o preconceito e o ódio crescem a cada dia. É como se ignorássemos a nossa própria cultura, como se não tivéssemos história, como se não fôssemos o País miscigenado que somos.

E a obra de Lázaro Ramos faz justamente o contrário. Nos apresenta a realidade, com números assustadores e tristes de racismo. Revelando sua história ele apresenta a de muitos outros. E nos faz um pedido: “desfrute o prazer de estar aberto ao novo e ser curioso pelo que não conhece. Exercite o olhar, sem preconceber nada”. Parece simples, mas se fosse os índices de violência contra a população negra não seriam tão altos; a quantidade de negros em presídios e manicômios não seria a maioria; mulheres negras assassinadas não somariam 54,8% (de acordo com o último mapa da violência feito no Brasil – neste, mulheres brancas so- mam 9,8%). A caminhada é longa, mas cabe a cada um de nós dar um passo para a igualdade; perceber e admitir que existe racismo; e nunca deixá-lo seguir em frente, seja em piada, frase pronta ou em atitude.

“Esses somos nós, reflexos de um espelho quebrado que, como um mosaico, apresenta um pedacinho de nossa história. Se visto com carinho, cada pedaço pode ter sua beleza, valores e complexidades reconhecidas, Para isso têm surgido novas vozes, novos portadores de microfones, prontos para ampliar suas falas, experiências e histórias. Ouçam as vozes desse Brasil plural e nosso”.

Sobre o autor

Flash Vip

Flash Vip

Revista catarinense com foco em cultura, comportamento, variedades e o que mais for pautado pelo cotidiano.

Deixe seu comentário

Gestor Box