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Mantenha Distância

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Antes de mais nada é melhor perguntarmos: o que define o sucesso de um relacionamento? O simples fato de ele existir, o tempo que ele dura ou a maneira com que ele se desenvolve? Pode-se dizer que um relacionamento saudável é aquele em que ambas as partes estão de comum acordo sobre o seu desenrolar, onde há respeito, carinho e desejo mútuo. Indo além, uma união na qual os parceiros apoiam o crescimento um do outro e regozijam-se com as conquistas alcançadas, como se fossem suas. 

É assim que a nutricionista Julia Beux descreve, ao longo da nossa conversa, o seu namoro com o advogado Brian Alves. O que iniciou como um date marcado pelo Tinder, não tardou em progredir para um namoro e, dois anos – e muitas milhas – depois, os dois manejam muito bem a distância de quase 890 km que os separam, entre Chapecó e São Paulo. 

“Sempre fui de me entregar muito, e conhecê-lo pelo app, sem nenhuma outra perspectiva além daquele momento, permitiu sermos nós mesmos, sem nos preocuparmos com joguinhos de sedução. Talvez foi isso que deu certo já de cara. As pessoas têm que entender que Tinder não é iFood”, brinca Julia, comparando o aplicativo de relacionamento com o de cardápio de fast food. “Nos conectamos muito, mas na despedida já teve uma emoção que não é normal para um primeiro encontro. Conversamos por telefone e um mês depois fui para Chapecó para encontrá-la. Foi uma grande aposta, pois era algo incerto”, recorda Brian. 

No mesmo ano, ela iniciou uma especialização na capital paulista e eles passaram a se ver com mais frequência, o que, certamente, ajudou a impulsionar o status oficial do relacionamento e intensificou os planos do casal. “Com a distância, a expectativa é de ver a pessoa menos e aproveitar ao máximo o tempo mais curto. Se eu tivesse com ela todo dia e daí começasse a ficar longe, acho que seria mais difícil”, revela o advogado.

No início deste ano, eles compraram um apartamento, em São Paulo, e agora Julia alterna 15 dias mensais em cada cidade. “Acho importante cada um ter a sua vida e somarmos juntos. Hoje, que acostumei a ter a nossa rotina, sinto mais falta que antes, quando volto para Chapecó”, revela a nutricionista e Brian completa: “Agora que temos uma rotina juntos mais estendida, quando começa a surgir a necessidade de espaço próprio, a gente se separa, e quando a saudade aperta muito, estamos juntos novamente. É um bom equilíbrio”.

Confiança e Diálogo

Essencial em qualquer relacionamento, o diálogo precisa ser ainda maior quando há distância. Afinal, quando não é possível estar fisicamente ao lado da pessoa, não sobra muito o que fazer, a não ser conversar. Para Julia e Brian, dois fatores são primordiais para um namoro dar certo: confiança e comunicação. “O relacionamento à distância exige muita confiança, mas é muito mais em você que no outro. É necessário saber quem você é e o que você quer desta relação, antes de tentar exigir esse comprometimento dele. E devemos estar abertos para conversar sobre tudo, a maior distância entre duas pessoas é a falta de comunicação”, ela reflete. 

Pensamento compartilhado por Willian de Oliveira e Gustavo Soares Izidoro. O casal de designers se conheceu há dois anos, pelo Instagram, e há nove meses estão namorando. O relacionamento, que evoluiu gradativamente de curtidas e trocas de directs, para uma amizade e, depois, o romance, também iniciou à distância. Antes, Will morava em Xanxerê, a mais de 500 km da capital catarinense, onde Gustavo reside, e agora está em Tijucas, a pouco mais de 50 km do namorado. Mesmo assim, a rotina e obrigações diárias não permitem que os dois se vejam mais que uma vez por semana. Desta forma, o diálogo se torna essencial, ainda mais com as trocas constantes de mensagens, isentas de entonação de voz e expressão facial, nas quais o outro lado entende o que leu, não necessariamente o que se quis dizer. “Esses dias mandei uma mensagem e vi que ele interpretou errado e liguei na hora, para evitar o mal entendido”, conta Gustavo. 

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Para eles, a distância requer equilíbrio e compreensão, principalmente em entender quando a pessoa não está disponível para o outro. “No início você fica mais receoso, mas prefiro que ele remarque de falar comigo que me dê uma atenção meia boca”, confirma Will. 

Quando se está fisicamente distante, é preciso usar a tecnologia a favor da relação. Uma vídeo chamada, muitas vezes, pode encurtar o espaço entre os dois. “A chamada de vídeo é ótima, a gente já se sente mais próximo, vê a expressão da pessoa. Às vezes estou desenhando e deixamos em chamada de vídeo para sentir que estamos juntos, no mesmo ambiente. Sabemos lidar bem com a distância, mas tem que dar um jeito de manter o contato físico também, para não entrar em um limbo, deixar o relacionamento frio, instável e trazer dúvidas, inclusive, se a pessoa te faz falta”, contempla Willian.

Date Virtual

Como em qualquer relacionamento, seja à distância ou não, é preciso se esforçar para demonstrar os sentimentos e conquistar o outro, manter a chama acesa, como dizem. “O relacionamento ‘ideal’ é visto como aquele em que a pessoa está sempre perto, fazendo e dando carinho, mas acho que quando a pessoa vale a pena, a distância é superada”, afirma Willian. 

A psicóloga e sexóloga Ieda Dreger explica que se antes era questionado por que foi preciso procurar um relacionamento fora do seu meio, hoje, com a internet, não há mais a barreira da distância. As pessoas apenas querem achar alguém, independente de onde ela esteja. “Busca-se muito mais a afinidade que a proximidade. Posso estar do lado, dormindo na mesma cama, mas sem comunicação fico isolada no meio do todo. Essa é a real solidão, estar junto do outro e ainda se sentir só”, diz a profissional. 

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E confiar e estar junto significa poder se abrir para o seu parceiro sobre os seus medos, angústias e desejos, descobrir os momentos em comum para ajudar a diminuir a distância. “Na sexualidade isso também é primordial. Poder se insinuar, mandar mensagens picantes, se confia bastante poder mandar nudes, fazer sexo virtual. São aspectos muito importantes. É necessário, pois tem dias que você está com vontade e deve poder confiar isso ao seu parceiro”, indica Ieda.

comportamento_FVmag!833No início pode parecer difícil ou até mesmo desconfortável, mas precisa estar disposto a descobrir o que funciona para o casal. Julia e Brian, por exemplo, preferem a troca de mensagens picantes e já tentaram algo por chamada de vídeo, embora sinta uma certa barreira com isso. “Não é vergonha dele, é de mim mesma. Mas é um tabu que devemos deixar de lado. Ninguém nunca sabe a realidade de um casal, para julgar. O sexo faz parte do relacionamento, é importante, independente se ele for à distância ou não”, revela Julia, que ganhou um vibrador de presente do namorado. “Preciso que ela se conheça para termos mais prazer juntos”. E Brian não poderia estar mais certo!

No caso do vídeo, é uma brincadeira com a sexualidade, às vezes uma provocação ou insinuação desperta desejos muito mais profundos e intensos. “Não é só mostrar pênis e vagina. Começa a criar o clima já de manhã, com uma mensagenzinha, ao longo do dia vai provocando e, quando chega no vídeo, tem que usar da criatividade para a coisa acontecer”, sugere Ieda. 

Para os casais que ainda estão se descobrindo sexualmente à distância, a sexóloga dá a dica: fiquem vendados. “Num primeiro momento, quando estão os dois diante da câmera, não fique olhando o seu parceiro na expectativa da reação dele. Curta você os estímulos auditivos que vocês dão um ao outro. E, com o tempo, quando você conseguir se soltar consigo mesmo, abra o olhar. Porque preciso estar bem sexualmente comigo mesma para fazer algo com outra pessoa. Se eu não me conheço, como estarei disponível para o outro me conhecer?”. Um conselho que serve tanto para quem está perto quanto quem está longe.

 

Sobre o autor

Carol Bonamigo

Carol Bonamigo

Jornalista, pós-graduada em Cinema, viciada em cultura pop e dependente de um app pra organizar todas as séries que assiste.

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