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Garotas mortas

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1) Médica cubana é morta com dez golpes de chave de fenda pelo marido brasileiro. O assassinato teria ocorrido após uma discussão do casal. 2) Jovem grávida de três meses é assassinada a facadas pelo namorado que, ao confessar o crime, justificou-o em função de uma suposta traição. 3) Mulher de 25 anos é morta com um tiro na cabeça. Seu ex-companheiro e principal suspeito, um jovem de 24 anos, não teria aceitado o fim da relação. Esses são apenas três casos recentes entre muitos outros que acontecem diariamente e cada vez mais. Segundo a CIDH (Comissão Interamericana de Direitos Humanos), o Brasil concentrou 40% dos feminicídios da América Latina em 2017. Em 2019, em São Paulo, os casos aumentaram 76% no 1º trimestre.

Em Santa Catarina, o número de feminicídios quase dobrou, subindo 83% entre 2018 e 2019. Em 72,1% dos casos, as mulheres já tinham sido agredidas pelos companheiros antes de serem mortas e não haviam prestado queixa. Quem não está preocupado, ou não entendeu a gravidade do momento ou não se importa. Em Garotas Mortas, publicado no Brasil pela Todavia, a escritora argentina Selva Almada se lança à investigação de três feminicídios, em seu país, na década de 80. Os assassinatos de Andrea Danne, María Luisa Quevedo e Sarita Mundín são o fio condutor da narrativa, embora todo o livro seja pontuado por inúmeros outros crimes contra mulheres. Homens ricos que tentam comprar testemunhas e advogados. Jovens ciumentos e possessivos, filhos de famílias importantes, que escapam impunes.

Polícia e judiciário ainda contaminados pela proximidade de uma ditadura recém finda. Embora as descrições correspondam a fatos ocorridos no século passado, infelizmente ainda soam assustadoramente atuais, seja no Brasil ou na Argentina. Com uma prosa cristalina e contundente, Selva Almada, considerada pela crítica uma das grandes revelações recentes da literatura latino-americana, se coloca dentro da própria história, criando um romance de não-ficção que toma o leitor pela mão e o conduz através dessas histórias tristes, mas que precisam ser expostas à luz dos dias atuais.

Visto que mesmo diante de índices tão alarmantes e de uma realidade evidente, muitos ainda questionam a própria necessidade do termo feminicídio, Garotas Mortas é um livro urgente e necessário. É importante que se fale sobre o assunto, que se exponham os fatos e os corpos, porque cada um desses crimes tem início quando encontram acolhida em cada um daqueles que não vê nada de errado neles.

André Timm é escritor, roteirista, redator e vamos parar por aí que já está de bom tamanho.

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