CULTURA E VARIEDADES

Games: Personagens difíceis e suas mídias

ac-unity-dead-kings-001

Hilario Juniorcientista da Computação, especialista em Cinema, mestre em Comunicação Social e doutorando em Ciências da Comunicação | hjs@unochapeco.edu.br

O roteiro do filme de Uncharted está pronto, recentemente foram divulgadas imagens do novo filme Tomb Raider e recentemente chegou aos cinemas Assassin’s Creed. Há uma corrente recente que afirma que o hype em séries de TV é, em parte, resultado de narrativas que só podem ser contadas na mídia televisiva. Será que o mesmo vale para os games e seria por isso que o cinema não tem acertado a mão nas adaptações?

“Homens difíceis” de Brett Martin, lançado pela editora Aleph, coloca em pauta como séries contemporâneas com personagens complexos (Breaking Bad, Sopranos e Mad Men, principalmente) foram possíveis pelo formato que a mídia seriado permite. Ou seja, só seria possível contar histórias como do Mr. White porque a lógica narrativa e produtiva de séries de televisão dá condições. Quem viu a série, sabe a complexidade da jornada deste protagonista. Recentemente, How to get away with murder (ou Como defender um assassino, pela Sony) traz uma personagem feminina neste papel e está quebrando com ousadia outros padrões narrativos, tendo a excelente Viola Davis no papel principal. 

rise-of-the-tomb-raiderjpg-73e6f0

 

Essa reflexão serve para separar uma história que poderia ser contada com um filme, por exemplo, mas é melhor contada através de abordagens mais ousadas e melhor desenvolvidas através de uma narrativa seriada. Talvez aí resida o segredo do Universo Marvel, no qual não se tratam de filmes isolados e descontinuados, mas uma grande obra seriada. Mesmo filmes baseados em séries não dão o mesmo retorno, exceto Star Trek que, há muito tempo, se descolou da série.

Mas, será que a mesma lógica incide nas narrativas de games? Se observarmos apenas o sucesso de público ou crítica, é possível que a resposta seja que não dá para adaptar a mesma narrativa de games em uma obra mais curta e fechada como nos filmes. Alguém poderia lembrar que narrativas em games não são bem “narrativas” porque há um processo de jogabilidade no qual o jogador mais controla um personagem e toma decisões por ele do que necessariamente entra em uma história. Por outro lado, jogadores mais atualizados lembrariam os games da Naughty Dog (Uncharted e The Last of Us), os dois games mais recentes de Tomb Raider e, em maior ou menor grau, algum dos games de Assassin’s Creed, que possuem uma complexa narrativa de fundo. Só para citar alguns.

Ou seja, há exemplares de games que possuem narrativas que talvez só foram possíveis por causa das características que os games trazem (dentre elas, a própria mecânica). Assassin’s Creed prometeu bastante e, apesar de alguns acertos, não conseguiu a profundidade que a saga nos games trouxe, por exemplo, na história de Ezio. Tomb Raider promete ser mais centrado que os filmes com Angelina Jolie (e as imagens lembram muito os games mais recentes, para motivar), bem como Joe Carnahan prometeu em sua conta no Twitter que o roteiro de Uncharted é “monstruoso” de bom. Mas a pergunta permanece: “será possível contar a história de personagens difíceis dos games com a mesma desenvoltura nos filmes?”

banner_20170218002523

 

Já manifestei em outras oportunidades que adaptações são sempre bem-vindas e realmente são. No entanto, é preciso manter elevado o crivo para que roteiristas, diretores e, principalmente, estúdios sintam necessidade de respeitarem os personagens e darem condições de que eles tenham o tratamento certo quando são representados em outras mídias. Recentemente Logan, baseado no personagem Wolverine dos X-Men, conseguiu, depois de uma enormidade de adaptações cinematográficas, captar a essência do personagem. Na falta de uma metáfora melhor, Logan era “um pássaro que não podia voar” em todas as histórias adaptadas para o cinema até então. 

Talvez a única coisa que falte seja coragem. Para acontecer Logan, foi necessária coragem anterior para Deadpool e sua história para maiores e de um game como The Last of Us, que visivelmente foi referência. Está na hora do cinema aprender com as outras mídias a contar histórias e ousar fugir da jornada do herói clássica para contar histórias de personagens difíceis.

Sobre o autor

Flash Vip

Flash Vip

Revista catarinense com foco em cultura, comportamento, variedades e o que mais for pautado pelo cotidiano.

Deixe seu comentário

Gestor Box