COMPORTAMENTO DESTAQUE

Façamos, vamos amar

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Todos fazem, até as estatuas dos Templos de Khajuraho, que estão ilustrando nossa matéria. Então deixe a vergonha de lado e venha falar um pouco mais sobre isso.

Seus pais fazem, seus avós fazem, seus professores fazem, seus vizinhos fazem, os animais fazem. Afinal, como já cantava Chico Buarque com Elza Soares, salmões no sal, em geral, fazem, bacalhaus no mar em Portugal fazem. Então por que ainda é um tabu tão grande falar sobre o que todos fazem? E não me refiro a se abrir com seus amigos, mas com o próprio parceiro.

O que foi aprendido sobre sexo durante a vida pode gerar dúvidas e pudores dentro de uma relação. “Se a pessoa foi ensinada em casa que sobre sexo não se conversa, vai ter mais dificuldade em dialogar com seu cônjuge sobre isso. Porque da educação (dos pais, da religião, da escola) vem as vergonhas ou não”, define a psicoterapeuta sistêmica, sexual e cognitivo comportamental, Ieda Dreger.

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Manter um diálogo aberto sobre sexo traz apenas benefícios para a relação, assim como ser receptivo às sugestões, dúvidas e desejos do outro. Até porque ninguém tem a obrigação de saber exatamente como proporcionar prazer, se a outra parte não lhe disser suas preferências. “Muitas pessoas têm disfunções sexuais simplesmente por não falarem sobre o assunto, como falta de orgasmo, baixa libido, ejaculação precoce, dentre outras. E também por não conversarem sobre problemas da sexualidade”, explica a psicóloga.

Se a pessoa foi ensinada em casa que sobre sexo não se conversa, vai ter mais dificuldade em dialogar com seu cônjuge sobre isso.

Mas se algo é gostoso, faz bem e é abordado abertamente pela mídia, por que nos envergonha admitir qualquer dúvida ou fantasia a respeito? Para começar, há um problema histórico, perpetuando a ideia de que o sexo é sujo, indecente, imoral e indecoroso. Cria-se uma sociedade patriarcal heteronormativa, na qual é dado o poder do homem sobre a mulher, controlando até quando ela pode ou não sentir prazer. Isso, por si só, é capaz de inibir qualquer pessoa mais recatada a sequer ousar pensar sobre o assunto, que dirá abordá-lo à mesa do jantar.

sex pb5Outra questão que afeta até os mais liberais dos casais, é a própria autoestima. “Homens e mulheres, por vezes, não conseguem ter uma plena satisfação sexual por não gostarem de seu corpo, não acha-lo perfeito. Se não falam sobre sexo não podem também falar sobre o que gostam ou não na sexualidade. É o caso de mulheres que não conseguem ter orgasmo porque não se permitem pedir o estímulo adequado aos seus parceiros, e continuam mantendo relações pouco agradáveis. Poder descrever como quer ser tocada e estimulada, além de poder pedir as carícias ou práticas sexuais que lhe são prazerosas, exige que a pessoa seja um pouco ‘individualista’ em determinados momentos”, explana Ieda.

Entre quatro paredes

Nicole*, 27, não tem papas na língua. Fala de tudo, sobre tudo e com todo mundo. É de se imaginar que seja da mesma forma na intimidade, mas a coisa é bem diferente entre quatro paredes. “Até tenho vontade de transar em lugares mais inusitados, mas não tenho coragem. Nunca nem fui a um motel, acredita?”, comenta. “Ah, mas já teve a cama elástica”, retruca o namorado, Matheus*, 24.

Juntos há quatro anos e há três morando juntos, deixaram, por vezes, a vida conjugal cair na rotina. Habituando-se, inclusive, a não fazer sexo com a frequência do início do relacionamento e nem notar a sua ausência. “Não me sentiria bem com artifícios para o ato. Prefiro a forma tradicional”, diz Nicole. Mas ao citar a cama elástica, os dois abrem um sorriso e se olham de canto. “Foi diferente e muito legal, ajudou no balanço. É bom variar um pouco e percebi que ela foi mais receptiva também”, lembra Matheus. Por sentir essa barreira, prefere não forçar a barra. Apenas tenta algo novo e inesperado se houver iniciativa da parceira.

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Já Roberto*, 20, gosta de pensar que devemos estar abertos a todas as experiências. “Só saberemos se gostamos ou não de algo se estivermos dispostos a experimentar”. Por isso mesmo dispõe, junto com o namorado, Fábio*, 23, de um arsenal de apetrechos. “Começou com uma caixa de sapatos e hoje tem uma gaveta inteira do guarda-roupa”, conta. “Descobrimo-nos aos poucos, implementando uma coisa aqui e outra ali”, completa Fábio.

O que começou apenas como uma “pegação” de festa, rapidamente evoluiu para um relacionamento sério, dividindo o mesmo teto. Ambos vindos de relacionamentos conturbados, decidiram desde o início conversar sobre absolutamente tudo. Dois anos depois, o corpo se tornou um mapa que só o outro sabe ler. “Sei que aquele pontinho, naquele canto específico vai deixa-lo louco. É bom surpreender também, mas deixar rolar ao natural. E quando vê, já está acontecendo algo diferente”, diz Roberto.

As idas ao sex shop, antes feitas separadamente, passaram a ser um ritual do casal. Escolher juntos seus objetos eróticos faz parte do prazer. “Sou meio sado (sadomasoquista), gosto de amordaçar e me sentir no comando. Não sabia se ele ia gostar, então um dia cheguei com tudo pronto, fi z a surpresa e propus de tentarmos”, recorda Roberto. “E deu certo! Pensei ‘se ele gosta, deve ser bom’. E não me arrependo. Na sua cabeça pode parecer ruim ou estranho, mas você nunca vai saber se não tentar. Tem que dar uma chance, principalmente se o outro gosta. Você pode se surpreender.”, completa Fábio.

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Isso porque, no caso dos dois, a intenção nunca é a dor, sempre o prazer. A antecipação e a tensão ajudam a criar o clima. “É mais psicológico. A primeira vez que usamos o chicote, estava vendado. Então fiquei bem nervoso, achando que ia doer. Mas foi muito bom. Temos também uma vela, que quando a cera entra em contato com a pele, está quente e já vira um óleo para massagem. Nada é para machucar, é pelo clima”. Apesar de Rodrigo ser mais dominador, nada impede que os papéis sejam trocados, eventualmente. “Já fui amordaçado e algemado também, mas prefiro estar no comando. Gosto de ver ele se contorcer, me dá prazer. E perceber que ele está sentindo prazer nisso. Como nos conhecemos e conversamos muito, sei até onde posso ir, porque não quero machucá-lo”.

Não há nada mais gratificante que vê-la sentindo prazer, e saber que eu estou proporcionando aquele êxtase

Sofia*, 35, e Vinícius*, 37, também conversam abertamente sobre seus desejos e fantasias. Casados há dez anos, acreditam que a sinceridade na intimidade é a chave para uma relação saudável, prazerosa e duradoura. “Às vezes, quando estamos nos masturbando, ainda nas preliminares, conduzo a mão dele para o local certo, na intensidade e velocidade perfeita. E peço para ele fazer o mesmo. Quero ter certeza que estou dando tanto prazer quanto recebo”, revela Sofia. “Não há nada mais gratificante que vê-la sentindo prazer, e saber que eu estou proporcionando aquele êxtase”, declara Vinícius.

Mas algumas fantasias não chegam a ser discutidas, apenas praticadas. E isso também requer sensibilidade do outro, mesmo quando pego de surpresa. “Algumas vezes, esperei ele em casa com fantasias eróticas. Colegial ou policial, com todos os apetrechos. Tive vontade, fui ao sex shop, comprei e o surpreendi. Estava me sentindo sexy e ousada, mas com certeza fi caria envergonhada e frustrada se ele achasse ridículo. Tem que ter confiança em si e no parceiro. Fiquei aliviada quando ele abriu um sorriso a me ver e entrou na brincadeira. Foi supergostoso”, recorda e ele completa: “Foi muito legal, fez me sentir valorizado que ela teve todo aquele trabalho para fazer algo diferente. Que partiu dela a iniciativa e o preparo”.

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Mas nem sempre as tentativas dão bons frutos. Às vezes é necessário tentar para chegar à conclusão que não se gosta de algo. “Ele insistiu por muito tempo para fazermos sexo anal e eu era resistente a isso, principalmente pelo medo da dor. Depois de um tempo, resolvi aceitar. Compramos lubrificantes e tentamos, mas não curti muito”, relata Sofia. “Eu gostei! Mas não adianta ser bom para mim, se não for para ela”, finaliza Vinicius.

Agora que falamos, também façamos. E se leões ao léu, sob o céu, fazem. Ursos lambuzando-se no mel fazem. Então façamos, vamos amar.

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Sexo é bom e também saudável

Veja alguns dos benefícios de afogar o ganso:

  • Durante o orgasmo o corpo libera endorfina, o que causa euforia, prazer, felicidade e bom humor, aumentando a tolerância à dor e sensação de bem-estar;
  • A atividade sexual regular está associada a níveis elevados do anticorpo imunoglobulina A, o que pode proteger de resfriados comuns;
  • O orgasmo libera vários hormônios, entre eles a ocitocina que reduz a ansiedade, depressão e previne o câncer de mama;
  • A atividade sexual com preliminares de qualidade queima de três a 10 calorias por minuto;
  • Após o orgasmo o corpo e a mente relaxam instantaneamente, favorecem a melhora da qualidade do sono;
  • O hormônio DHEA liberado durante o sexo repara os tecidos e previne o envelhecimento da pele;
  • Há um aumento de adrenalina e circulação do sangue, com transporte de mais oxigênio para o cérebro, irrigando a região responsável pela memória e aprendizagem.

 

*Os nomes dos entrevistados foram alterados para preservar as suas privacidades.

Sobre o autor

Carol Bonamigo

Carol Bonamigo

Jornalista, pós-graduada em Cinema, viciada em cultura pop e dependente de um app pra organizar todas as séries que assiste.

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