CULTURA E VARIEDADES DESTAQUE

Do lugar de onde longe se pode olhar

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Dizem que “lar” vai além do lugar, são as pessoas ao seu redor, é onde você se sente acolhido, é onde você decide ancorar. E nesses 100 anos de Chapecó, muitos aqui escolheram ficar.

Reportagem de Carol Bonamigo e Greici Audibert
Fotos de Vanessa Zanrosso

 

Estávamos aqui pensando em como escrever essa matéria e, de repente, nos demos con- ta que a nossa própria trajetória contextualiza muito bem essa história. Explicamos: somos duas jornalistas forasteiras em terras chapecoenses. Essa cidade que tão bem acolhe quem chega para viver e prosperar. Uma veio do Paraná, ainda na adolescência. A outra do Rio Grande do Sul, já na fase adulta, para abraçar uma oportunidade profissional. Ambas, assim como tantos que hoje vivem aqui, escolheram ficar.

Mas Chapecó permeia esse movimento praticamente desde a sua co- lonização, já que a maioria das famílias que se instalaram na cidade provinha das antigas colônias do Rio Grande do Sul. Desde sempre, portanto, os bons ventos atraem a migração de pessoas diversas, que tornam esse um lugar de encontros entre inúmeros signos culturais. E a fusão dos signos é o que constitui uma cultura verdadeiramente como cultura. O Brasil é o exemplo máximo dessa realidade.

Para o filósofo e doutor em comunicação e semiótica, Edivaldo José Bortoleto, Chapecó vive um processo de semiose profundamente complexo, em uma combustão decisiva para os rumos da cidade. Principalmente no contexto da globalização em curso, mundialmente falando. Ou seja, Chapecó é um local que contém aspectos decisivos do global. “Ela recepciona as gentes da América Latina Caribenha, de outros países do continente Europeu e, de maneira especial, do continente Africano. Esse fenômeno carece de ser estudado e acompanhado pelas Universidades locais e pelo próprio Estado local. Mas é fato que os elementos econômicos se configuram como um grande condicionante nesse processo. Isto torna Chapecó uma cidade dinâmica, com movimentos mais difusos”, analisa Edivaldo.

Esse fusionamento cultural, de acordo com o pesquisador, está em curso e o resultado disso não se pode prever. Mas instaura um outro colorido à cidade, cujos reflexos serão sentidos mais intensamente no futuro, com as misturas da cor, da religião, da língua – o francês e o crioulo se impõem conjuntamente com as estruturas idiomáticas indígenas, europeias e cablocas – dos costumes, dos hábitos alimentares e outros tantos elementos mais.

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O próprio Edivaldo amplia a paleta de cores da cidade. Nascido em Piracicaba, no estado de São Paulo, chegou em Chapecó em 2013. “No meu caso, não fui eu que escolhi Chapecó, mas sim, Chapecó que me escolheu. Vim pra cá devido ao resultado positivo em um concurso público na Universidade. Portanto, fui extremamente bem recebido pela instituição e pelas pessoas do município, das quais fui me aproximando”, conta.

Não se pode, no entanto, deixar de citar, segundo ele, que ainda existem contradições nesse processo de acolhida, e que precisam ser enfrentadas. “Se é verdade que a cidade soube prantear seus heróis com o acidente da Chapecoense, revelando seu gesto de cuidado e amorosidade, ela também precisa perguntar-se se o mesmo se dá com os indígenas, os haitianos e os africanos. Precisa se perguntar, também, sobre quais são os gestos de cuidado para com as gentes que já estavam em Chapecó desde sua origem (os indígenas), e as que para cá vão chegando. Pessoas que chegam primeiramente para atender à necessidade de mão de obra e vão, pouco a pouco, tornando a cidade mais viva, mais colorida, mais misturada”.

Estar aberto para essa realidade é fundamental para se reconfigurar a própria cidade de maneira mais alargada e com possibilidades de horizontes, enquanto região semioticamente densa e tensa de fronteiras, acredita Edivaldo.

Estrangeiros conterrâneos

capa flashO portenho Alejandro Abdala chegou em Chapecó há 14 anos, motivado por uma crise econômica que assolava a Argentina. A in- tenção inicial era voltar para sua cidade natal depois de dois ou três anos, mas com o passar do tempo, o professor de teatro sentiu-se parte integrante da cidade oestina, da mesma maneira que a sentiu fazer parte dele. Essa cidade que, para ele, é marcada pelo pioneirismo. “Quando cheguei, tudo aqui era pioneiro. As atividades culturais eram pioneiras, apenas três ou quatro que tomavam a frente. Na parte empresarial da mesma forma. Embora sempre tivesse pessoas multiculturais e internacionais, eram núcleos isolados, e a visão que se tinha era que Chapecó era distante de tudo”, conta.

Para alguém que veio de uma capital muito desenvolvida cultural- mente, como Buenos Aires, Alejandro diz ver Chapecó trilhar por um caminho de progresso. “Hoje está cosmopolita culturalmente, mas ainda há muito o que crescer. Encontramos culturas de todos os tipos desenvolvendo a cultura de Chapecó. E isso traz uma diversi- dade fantástica!”, opina. Na visão do argentino, o que antes era uma cidade pequena que- rendo ser grande, agora já é um polo consolidado. “Atualmente, podemos realmente nos chamar de ‘Capital do Oeste Catarinense’. Chapecó está muito mais mundial e homogeneizada. É um município cultural, diversificado e inserido no mundo, com a parte boa e a ruim do progresso”, percebe.

E de tão mundial, a cidade atravessou o Oceano Atlântico e cati- vou Masse De Gueye. Há três anos, o senegalês veio a Chapecó em busca de uma vida melhor. O ano era 2014 e o Brasil estava sob os holofotes, sediando a Copa do Mundo de Futebol. Pareceu o lugar perfeito para Masse tentar a sorte. “Um amigo meu já morava aqui, em Chapecó. Então vim para cá também, morar com ele”, conta o auxiliar de serviços gerais.

A adaptação não foi tão fácil, considerando que, ao chegar em solo tupiniquim, o jovem não falava uma palavra sequer de português – completamente diferente do wolof, língua do seu país de origem. Ali- ás, foi com esforço de entendimento de ambas as partes que a nossa entrevista foi realizada. “Complica a comunicação. Pensei em voltar ao meu país, porque achei que nunca conseguiria falar português. Cheguei já procurando serviço e foi difícil, no começo. Mas conheci muitas pessoas legais aqui. É uma população muito trabalhadora. Mesmo não sendo o prometido, vir para cá mudou a minha vida”. Uma das palavras rapidamente aprendidas por Masse, tanto a pronúncia quanto seu profundo significado, foi “saudade”.

A falta da família no seu dia a dia tem tornado a sua jornada um pouco mais pesada, por isso ele já programou uma visita ao Senegal, em outubro. Foi a família inclusive, que trouxe a boliviana Maria Del Rosario Guillén Antunes para cá. Casada com um chapecoense nato, Chary, como é chamada, viu a cidade crescer, nos seus 20 anos como residente do município. “Chapecó ampliou bastante em número de habitantes e moradias, pela oportunidade ocasionada pelas fá- bricas e universidades existentes. É uma cidade acolhedora, com boas oportunidades de trabalho e negócios. Isso proporciona a vinda de pessoas de outros lugares, tornando-se, assim, uma ci- dade cosmopolita”, avalia a engenheira civil. Para ela, Chapecó traz conforto.

Todas essas pessoas de outras cidades, estados e países formam hoje o município de Chapecó. E muitas outras contribuirão para o seu crescimentos nos próximos 100 anos. São pessoas que, confor- me falamos no início da matéria, escolheram chamar essa cidade de “lar”. E podemos caminhar pela estrada de tijolos amarelos e bater os calcanhares três vezes com a certeza de que “não há lugar como o nosso lar”.

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Estudos sobre Imigrações na Região Oeste de SC

Profissionais, estudiosos e pesquisadores de diferentes localidades e áreas do conhecimento perceberam a carência de discussões acerca dos fluxos migratórios recentes na cidade de Chapecó, com a necessidade de respostas quanto às políticas públicas que garantam direitos a esse segmento populacional e em face dos impactos socioculturais. Visando alinhar ações e pretensões na comunhão de ideias e ideais profissionais e de cidadania entorno desse tema, foi instituído na Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS), em 2014, o Grupo de Estudos sobre Imigrações da Região Oeste de Santa Catarina – Geirosc.

Segundo dados do Alto Comissariado das Nações Unidas – ACNUR, em 2016 aproximadamente 65,6 milhões de pessoas foram forçadas a abandonar suas casas em todo o mundo. Esse número é o maior da história, ultrapassa os da Segunda Guerra Mundial.

“Chapecó, por ser uma cidade em significativa ampliação econômica e social, com evidentes indicativos de crescimento nos mais variados setores, demonstra probabilidades para os migrantes, sejam os oriundos de outros estados brasileiros, cujo fluxo sempre foi constante, sejam mais recentemente pessoas de outros países. Esse movimento dos imigrantes estrangeiros residentes iniciou por aqui em 2011 e vem se acentuando ano após ano, acompanhando o próprio desenvolvimento da cidade”, explica uma das pesquisadoras do Geirosc, Deisemara Turatti Langoski.

A estudiosa e também doutora em direito preside a Comissão do Imigrante da OAB – Subseção de Chapecó, e entende que a cidade se destaca como um dos destinos importantes nessa onda migratória, pela oferta de trabalho principalmente nas agroindústrias.

Segundo dados da Polícia Federal de Chapecó, aproximadamente 4 mil estrangeiros buscaram o órgão para as providências legais com passaportes em 2015. Destes, 90% foram haitianos e os outros 10% seriam oriundos de outros países. “Se observa por aqui a invisibilidade deste imigrantes, quiçá, por conta que são novos rostos, os quais não estávamos tão acostumados, pois somos descendentes de italianos, alemães, poloneses, portugueses. Mas a heterogeneidade de nacionalidades e da bagagem cultural produz um ganho à toda sociedade, a qual não está sendo ou carece ser trocada e aproveitada por Chapecó e região, com esse maravilhoso desafio da imigração”, avalia Deisemara.

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