DESTAQUE SAÚDE E BEM-ESTAR

De tirar o sono

fundo-especial-002

Um sentimento comum e intrínseco do ser humano, a ansiedade pode atingir níveis patológicos, prevalecendo o medo e a angústia.

Imagine o seguinte cenário: você deita em sua cama, pronto para dormir, e, subitamente, é invadido por um medo avassalador, pensamentos tomam a sua mente em uma velocidade opressora, suas mãos suam, um nó se forma em seu estômago e você é tomado por uma sensação de não pertencimento. E o pior, você sequer sabe o motivo. Uma situação, no mínimo, assustadora, não? Foi assim que Luciana Miotto descreveu sua primeira crise de ansiedade, há oito anos. Diagnosticada já na época com Transtorno de Ansiedade e Síndrome do Pânico, a jovem funcionária pública tem dificuldade em recordar algum momento da última década em que não esteve em constante estado de apreensão. “É um medo descontrolado. As pessoas dizem para me acalmar, mas não consigo controlar. Parece que vou explodir. Mesmo sabendo que aquilo é ansiedade, não consigo discernir e pensar com clareza. Não tem hora nem local para acontecer”, relata.

Luciana é um dos 18,6 milhões de brasileiros que sofrem com transtorno de ansiedade. A maior taxa no planeta (9,3%), de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS). E esses dados correspondem apenas aos pacientes diagnosticados com a patologia. Ainda existem milhões de pessoas convivendo com essa angústia prolongada sem buscar ajuda especializada. Isso porque a ansiedade é um sentimento inerente do ser humano, faz parte da nossa composição e é muito importante para a nossa vida. Ela é útil em vários momentos, é o que nos faz olhar para os lados antes de atravessar a rua, estudar antes de uma prova, nos preparar para uma entrevista de emprego. “Na verdade, a vida é muito ansiogênica sob vários aspectos. Segurança, atendimento às nossas necessidades, a distância das pessoas que temos muita afinidade. Tudo gera ansiedade. Mas quando ela é patológica, significa que a regulagem do gatilho desse sinal de alerta está bem descalibrado. Então uma gota é o prelúdio de uma grande tempestade”, explica o psiquiatra Daniel Ayres d’Avila.

Para o profissional, as ansiedades e os mecanismos de defesa são diferentes em cada indivíduo. “Nosso órgão mais importante é o cérebro, é a nossa mente, como percebemos o mundo. Então, nos utilizamos de mecanismos para protegê-lo. O mais agressivo é a somatização, quando você passa para o corpo e manifesta fisicamente, produzindo sintomas, ou você projeta, coloca para fora. Portanto, para começar a entender a ansiedade, devemos olhar para a pessoa desde a infância e como ela se construiu como indivíduo”, expõe.

Conhece-te a ti mesmo

O famoso aforismo grego de Sócrates fala sobre autoconhecimento. O seu histórico familiar e toda a sua constituição até a vida adulta vai determinar como você reage aos estímulos a sua volta. No caso de Luciana, sua mãe teve depressão pós-parto, deixando marcas em seu subconsciente, como o profundo medo do abandono. “Esse distanciamento gerou um trauma. Fiquei muito apegada ao meu pai e, quando ele viajava a trabalho, chorava demais. Meu pior medo sempre foi de perdê-lo”.

Se é difícil lidar com este sentimento quando, aparentemente, não há nada com que se preocupar, o que fazer quando há motivo? Em novembro do ano passado, Luciana experienciou sua pior crise. Um amigo cometeu suicídio no mesmo dia que a mãe de outro faleceu, tudo isso somado a chegada do aniversário de um ano da morte de seu pai. “Foram duas semanas em que não conseguia me sentir normal. Não consigo nem descrever. Simplesmente não era eu. O pânico, os pensamentos de autossabotagem, a sensação de não pertencimento. Tinha férias agendadas para o período e tive que trocar, por medo de ficar sozinha”, relata.

Naquele momento, a jovem precisou aumentar consideravelmente as doses de ansiolíticos, medicamentos que fazem parte da sua rotina diária desde os 19 anos. A ansiedade, quando descompensada, precisa de acompanhamento profissional para descobrir a causa e tratar da maneira correta. “Sinto tristeza, alegria, no dia a dia consigo levar a vida normalmente, mas tem alguns momentos que fico no ‘tanto faz’. Exercícios físicos ajudam também, cansam o corpo e auxiliam o cérebro a liberar substâncias que transmitem bem-estar. Os remédios atuam nos sintomas, não nas causas. Por isso me arrependo de ter demorado tanto tempo a buscar ajuda psicológica. Incomoda-me o fato de depender dos remédios para estar bem, mas acredito que, com a terapia, vou conseguir melhorar. É impressionante o quanto muda a maneira de lidar consigo mesmo”.

A psicóloga Cláudia Henrich Lopes esclarece que, ao observar as causas da ansiedade, ela pode ser orgânica, através de disfunções hormonais (como a tireoide e glicemia), como também psicológica. Trabalha-se, na Terapia Cognitiva Comportamental (TCC), identificar os gatilhos emocionais responsáveis por desencadear os sintomas. “Não controlamos o pensamento, ele vem de forma automática. Na terapia, pegamos esses  pensamentos disfuncionais, acelerados e que nos trazem prejuízos e transformamos em algo mais adaptativo. Que a pessoa se sinta melhor, mas que ainda caiba a ela”, explana.

Mãos trêmulas e suadas, palpitação, taquicardia, sensações aversivas são alguns dos sintomas que podem levar a ansiedade a se tornar uma fobia social. “Não aceitamos a ansiedade como aceitamos uma dor de cabeça. Muitas vezes, simplesmente esperamos a dor de cabeça passar. Já a ansiedade, quando começa, focamos o nosso olhar para dentro, pois parece que estamos perdendo o controle. Um dos pensamentos de uma pessoa ansiosa é ‘o que os outros vão pensar de mim’. E essa opinião tem uma questão catastrófica”, aponta a psicóloga.

Pela sua experiência pessoal, Luciana se preocupa com as diversas pessoas que possam passar pelos mesmos problemas, sem ao menos perceber. Depois de anos de terapia, ela prefere lidar com a sua condição com o bom humor, mas nem todos são assim. “Infelizmente não são medicamentos baratos, assim como as consultas. A saúde mental deveria ter mais atenção, porque qualquer coisa é o estopim para a pessoa desistir de tudo”, afirma. Atenta para essa realidade, a OMS lançou, no ano passado, a campanha “Vamos Conversar”, destacando a importância em dar o primeiro passo e procurar ajuda. A iniciativa assume o estigma existente acerca dos transtornos mentais e tenta elucidar esse cenário discriminatório.

“A ansiedade é vista como uma frescura, uma característica da pessoa e não um problema” – Géssica Leonardo, publicitária.

Liberdade ilusória

Para o psiquiatra Daniel, deixamos de viver uma era Edipiana, do “faço ou não faço”, para a Shakespeariana, na qual o maior conflito é o “ser ou não ser”. “Na adolescência, temos duas grandes fontes ansiogênicas: a sexualidade e a agressividade. Na fase adulta lidamos com outros fatores, como a independência emocional e financeira, a construção de uma família e a carreira. E a tendência é tentar achar a resposta fora, e não dentro de nós”, diz o médico.

Todos esses aspectos apontados por Daniel foram e ainda são causas de grande angústia para Géssica Leonardo. A publicitária acredita que a ansiedade patológica é um elemento presente na sua atual geração. “É a forma que nos colocamos perante as nossas conquistas. Antes, a preocupação que tirava o sono eram as boas notas, depois passou a ser a aparência, hoje são as responsabilidades. A cobrança pessoal é muito grande para conquistar coisas que, na minha cabeça, todos os outros já alcançaram”, relata.

A pressão imposta para atingir a perfeição não vem apenas da sociedade, mas internamente. Quando se vive na era da exposição, em que as mídias sociais estão constantemente escancarando os êxitos, mas nada das perdas, a grama do vizinho é sempre mais verde. “Se antigamente bastava uma faculdade, hoje você tem que ser o melhor aluno da melhor faculdade. Ao mesmo tempo em que estamos livres, somos muito cobrados para nos posicionarmos de determinadas maneiras. É uma liberdade ilusória. Se para ser livre eu ‘tenho que ser livre’, já deixa de ser liberdade. O correto é ‘eu quero ser’ e não ‘eu tenho que ser’”, observa a psicóloga Cláudia.

Sair de casa, casar, ter filhos, fazer uma especialização, viajar para outros países, são alguns dos feitos que, comumente, significam sucesso. E a cobrança para a obtenção dessas proezas gera uma ansiedade muito grande. “Muitas pessoas não conseguem admitir que sofrem com isso. A ansiedade é tratada como frescura, não se entende como isso influencia a nossa vida, tanto física como psicologicamente. E como eu gostaria de agir diferente. A ansiedade é vista como uma característica da pessoa e não um problema”, lamenta Géssica.

Hoje, a publicitária diz lidar muito bem com a sua condição, principalmente pelo autoconhecimento que possui. Isso não significa que deixou de ter suas noites de insônia ou suas preocupações exacerbadas perante novos desafios e decisões, mas procura seu ponto de equilíbrio em uma busca constante. “Aceito meu corpo, meu peso e me sinto bela assim. Como uma mulher feminista, minhas preocupações agora são outras, e me cobro muito para me posicionar desta forma”.

A primeira etapa foi concluída: permitir-se olhar para si mesma, conforme orienta Cláudia. “Primeiramente, é importante entender que se amar, se respeitar e se colocar em primeiro lugar não é egoísmo. Eu posso ser livre e não preciso aceitar tudo o que estão me impondo”, aconselha a psicóloga. Apesar da grande evolução na medicina, ainda falta um olhar mais delicado para os transtornos mentais. Um bom exemplo aconteceu com Géssica que, na infância, tinha verdadeiro pavor em dias de prova. Não dormia, sentia palpitações, não conseguia se concentrar, tudo tratado como mera desatenção e nervosismo. Até uma professora identificar que poderia ser algo mais. “Ela chamou minha mãe e disse que eu entendia todo o conteúdo, executava em sala de aula, mas na hora da prova, não conseguia resolver as questões. Foi quando comecei com a psicoterapia”, recorda.

Apesar da grande evolução na medicina, ainda falta um olhar mais delicado para os transtornos mentais. Um bom exemplo aconteceu com Géssica que, na infância, tinha verdadeiro pavor em dias de prova. Não dormia, sentia palpitações, não conseguia se concentrar, tudo tratado como mera desatenção e nervosismo. Até uma professora identificar que poderia ser algo mais. “Ela chamou minha mãe e disse que eu entendia todo o conteúdo, executava em sala de aula, mas na hora da prova, não conseguia resolver as questões. Foi quando comecei com a psicoterapia”, recorda.

“A vida é muito ansiogênica sob vários aspectos. Tudo gera ansiedade, mas quando ela é patológica, significa que a regulagem do gatilho desse sinal de alerta está bem descalibrado. Então uma gota é o prelúdio de uma grande tempestade” – Daniel d’Avila, psiquiatra.

Sobre o autor

Carol Bonamigo

Carol Bonamigo

Jornalista, pós-graduada em Cinema, viciada em cultura pop e dependente de um app pra organizar todas as séries que assiste.

Deixe seu comentário

Gestor Box