CULTURA E VARIEDADES DESTAQUE

Contadores de histórias

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A trajetória de um veículo de comunicação que, há uma década e meia, dedica-se a registrar as mais diversas visões e versões de Chapecó.

Uma estudante de jornalismo e uma ideia. O ano era 2003, o ICQ era uma das empresas mais bem sucedidas da internet, tornando-se o “mensageiro” indispensável, o armazenamento de dados era por disquetes e os blogueiros e youtubers (que só apareceriam a partir de 2005) ainda não eram os grandes influenciadores da opinião pública. A possibilidade de fazer uma revista voltada a retratar a vida social chapecoense, não apenas festas privativas, eventos comerciais, mas as baladas e a vida noturna da cidade, pareceu atraente, especialmente em uma época em que o compartilhamento dos afazeres cotidianos não era realizado com tanta instantaneidade. Desta forma, a Flash Vip sempre se dedicou a registrar o comportamento da população.

Para a idealizadora do projeto e editora chefe há 15 anos, Carla Hirsch, as pessoas que adentraram a sua vida por causa da Revista foram essenciais na evolução da publicação e do seu próprio crescimento profissional. Carla teve como sócia no primeiro ano da Flash Vip a, então colega, Luzi Léa Sturmer. A parceria durou um ano. “Foi e ainda é fundamental trabalhar com pessoas competentes e que vistam a camisa e posso afirmar que passaram várias com esse perfil pela Flash Vip. É muito importante ter diversidade criativa em uma redação”, relembra. Com este mesmo carinho, lembra-se também quem participou deste início pioneiro e um tanto quanto caseiro. O designer Marcos Antonio Brescovici foi o primeiro diagramador da Revista, quando foi realizado seu piloto, como Projeto Experimental de Conclusão de Curso de Jornalismo. “A ideia era ótima, embora, na época, as revistas não fossem muito bem vistas na nossa cidade, pois eram transitórias, poucas duravam porque caiam no descrédito, prometiam um número de edições e não cumpriam. Desde o início a FV se propôs a acabar com essa imagem, com foco em inovação e seriedade”, afirma Brescovici. O princípio foi marcado por comprometimento e dedicação. Sem uma estrutura física própria, a redação era improvisada na casa de quem dispunha dos equipamentos indispensáveis. “Elas traziam as matérias e materiais publicitários para diagramar em casa, e seguíamos noite adentro. 

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Reuníamos toda a equipe na sala da dona Beatriz, minha mãe, que sempre tinha um cafezinho pronto. Sinto-me honrado de ter convivido e aprendido com elas, e feliz por também ter feito parte dessa história”, recorda Marcos Antonio. Outra pessoa que esteve presente nos primeiros passos da FV foi a jornalista Greizi Cristina Andrade. Na época ainda estudante, teve na Revista sua primeira experiência profissional. “Lembro como se fosse hoje do primeiro ‘boneco’ da Flash Vip, da pilha de disquetes com imagens e matérias guardadas, das noites adentro na casa do Marcos Brescovici criando a primeira edição. Apesar de parecer amador, todos os envolvidos eram muito profissionais. Cada página era produzida com o máximo de qualidade que conseguíamos para as condições e para a época”, diz, orgulhosa, e complementa: “Lembro de edições que virei o dia trabalhando, sem perceber que a noite estava se despedindo e mais um dia iniciando. Isso porque era leve, prazeroso e gratificante”. A “família FV” sempre prezou pelo entrosamento e harmonia para que o trabalho pudesse fluir em sinergia – algo extremamente cobrado pela “matriarca”, Carla. “A Flash Vip moldou a profissional que sou hoje. Mais que técnicas, sejam em conteúdo, criação, negociação ou liderança, a Revista me preparou para a vida corporativa, com ensinamentos que levarei para sempre e, como gestora, utilizo diariamente esse método para tornar os dias mais fáceis e a minha equipe mais unida e produtiva. Não é para qualquer um manter um veículo de comunicação, no interior do Estado, por 15 anos. Precisa muita determinação, resiliência e competência”, enaltece Greizi.

Evolução gráfica e editorial

“Como tudo que pensa evolui, com a FV não poderia ser diferente”. Com este pensamento fervilhando em toda a equipe, a Revista passou por uma transição de amadurecimento editorial e gráfico, na qual foi sentida a necessidade de informar sobre temas mais significativos, não tratando-os de forma superficial e, para tanto, era preciso mais espaços nas páginas e também definir uma nova identidade. Com o aumento exponencial das tecnologias e recursos online, o colunismo social precisou ser reformulado para não perder completamente a sua relevância. Desta forma, pautas comportamentais e sociais passaram a estampar as páginas, abordando sexualidade, discriminação, preconceito, diversidade, meio ambiente, política e saúde. “Como boa ‘foca’ recém-formada, queria mostrar que o jornalismo pode fazer a sua parte na construção de um mundo melhor. No ano que ingressei na FV (2008), iniciaram as chamadas ‘campanhas’ da revista, em que se escolhia um tema para grandes reportagens. Naquele ano era sobre o Meio Ambiente. Depois fizemos uma campanha sobre as drogas – muito forte, com um tema da tamanha importância e um debate ainda cheio de preconceitos.

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No ano seguinte levantamos a bandeira ‘Eu respeito as diferenças’, sobre preconceito sexual, racial, social, econômico e de deficiência física”, conta a jornalista Silvane Alves Loro, que até hoje contribui para a Flash Vip como colunista de literatura. Diferente da adrenalina do jornalismo diário, a revista possibilita a realização de pautas mais aprofundadas e reflexivas, ao proporcionar mais tempo e espaço para a produção. E foi isso que sempre atraiu Silvane. “Foi um trabalho em equipe que juntou a liberdade da Carla para mudar o seu perfil editorial, a minha vontade de fazer diferente e a equipe que se engajou em todo o trabalho de forma muito empenhada. Orgulho de ter feito parte da história, percebo que a revista continua numa crescente. Consegue se modelar às demandas de mercado, mantendo a qualidade gráfica, de impressão e, principalmente, editorial. Vejo a revista muito atual, com temas de relevância e debates profundos”, reflete. Esta crescente qualidade também é percebida entre os profissionais mais antigos do ramo, bem como a própria sociedade acadêmica regional. “A FV, no início, possuía um projeto editorial moderno e arrojado, com uma nova geração de jornalistas entrando no mercado e oferecendo novos produtos.

Hoje, tem uma importância transcendental pela sua capacidade de refletir, investigar e redescobrir a complexa realidade social, cultural, econômica e política de Chapecó através do olhar dos seus jornalistas, apresentando, muitas vezes, releituras e ressignificações que nos surpreendem e nos comovem. Uma de suas principais qualidades é a abertura para todas as correntes do pensamento, o que a torna plural e relevante”, confirma o jornalista Marcos Bedin, diretor regional do Oeste da Associação Catarinense de Imprensa/Casa do Jornalista, que também assinou as primeiras edições da Flash Vip como jornalista responsável, antes da editora Carla Hirsch possuir seu registro profissional.

A era de ouro!

“Quinze anos de história. Esse fato, por si só, já diz muito sobre a relevância da FV para a região. Principalmente quando pensamos em um mercado cada vez mais competitivo e uma comunicação tão complexa como a atual. Mas desses 15 anos, vale destacar alguns anos dourados, dos quais tive o privilégio de participar. Entrei na revista em 2013, em uma nova fase. Já se desenhava um novo formato e uma linha editorial alinhada aos principais debates da sociedade. Um público não mais leitor, mas protagonista, diverso, atento e seletivo. Com o olhar sensível e extremamente profissional da diretora de jornalismo, Carol Bonamigo, o talento e a criatividade dos designers Denis Cardoso e Wilian Pereira, as estratégias assertivas do diretor de redação Fernando Sbruzzi e a aval consciente e seguro da editora Carla Hirsch (que comprava as minhas ideias mais malucas) tivemos a liberdade de inovar.

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De tocar as pessoas, ora com temas fortes, hora com muito afeto. Eu diria até que tivemos a liberdade de ousar, com muito respeito e zelo pelo público e pelas causas que gritavam ao nosso redor. E nosso trabalho rendeu belos frutos. Desde o reconhecimento do público, das pessoas que folheavam com carinho as nossas histórias (e como contamos boas histórias) até os nossos prêmios estaduais e nacionais. De 2013 a 2015 foram cinco troféus. Consideração que legitimou as nossas escolhas e o nosso empenho em fazer um jornalismo de profundidade e humanizado em tempos onde todos têm opinião.” por Greici Audibert

A era de Oro!

Uma vertente que faz parte da essência da Flash Vip é a moda. Através dos editoriais produzidos duas vezes ao ano, a Revista compromete-se a levar informação também através da moda, entendendo-a como parte intrínseca da sociedade. A produtora e personal stylist Simone Oro participou da implementação da maneira da FV fazer seus editoriais de moda, sempre trabalhando dentro de um conceito específico, a fim de repassar uma mensagem aos leitores. “Sempre foi muito incrível contribuir com a FV. Acho que a Revista é muito forte na região e se interessar e abrir esse espaço para falar de moda de maneira informativa é muito importante, tornando o conteúdo muito mais interessante. Mostrar as tendências e os conceitos facilita o entendimento da moda”, conta Simone. Muito mais que apresentar looks bonitos, os editoriais de moda da FV sempre quiseram expor uma macrotendência, um comportamento ou movimento que está acontecendo ao redor do mundo. “É enorme a contribuição da FV para a disseminação da informação de moda, que também é cultura e comportamento. Isso sem contar a visibilidade que a Revista dá para o comércio local, mostrando, através dessas parcerias, onde as pessoas podem encontrar essas peças e combinações. A liberdade que tive para poder criar e as reuniões com a equipe, trocando ideias e criando juntos, foi maravilhoso. Pesquisamos o perfil das modelos, do fotógrafo, para encaixar no conceito escolhido. Sempre foi um processo muito maduro e continua sendo. Acompanho a FV, mesmo não estando mais no Brasil, e acho que vocês estão de parabéns”, finaliza.

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Plularidade de vozes

Um dos maiores desafios dos meios de comunicação é expressar a diversidade também nas suas publicações. Por isso, trabalhar grandes temas relevantes e de impacto social é algo que requer tratamento feito a partir de diferentes abordagens e fontes. Essa é a principal percepção que o jornalista e professor da Unochapecó, Vagner Dalbosco, tem da FV, entendendo a Revista como um espaço do debate público de grandes temas. “Lembro, certa vez, a repercussão que presenciei, junto de leitores, acerca de uma capa da Revista que tratava sobre a descriminalização da maconha. Tal abordagem certamente extrapolou seus leitores habituais, conferindo-lhe maior repercussão do que muitas outras capas.

Quando uma publicação atinge este patamar, provocando debate, é porque algo extraordinário ocorreu. Penso que, ao tomar a decisão editorial em abordar e a forma de tratar aquele assunto, por si só, demonstra o compromisso da Revista em dar espaço a temas de interesse público e fontes diversas, fundamentais diante da complexidade de tais assuntos”, afirma. Para Vagner, a Flash Vip contribui em variados aspectos não apenas aos leitores, mas aos jovens acadêmicos que almejam seguir na profissão de jornalistas. “Ela produz efeito simbólico à academia e ao mercado, pois à medida que se mantém e se consolida na comunicação de uma região interiorana, demonstra que, mesmo no interior, é possível aliar negócio com conteúdo socialmente relevante. Numa sociedade em que o acesso à informação e ao contraditório está a um clique, proporcionar ao leitor e ao anunciante um produto com tais características é ser honesto com eles e consigo mesmo”, conclui.

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Vivemos em um mundo diverso e, muitas vezes, controverso. Comunicar às pessoas nas mais variadas formas, decidir o que é relevante para estampar as páginas de uma revista e ainda ganhar a confiança de suas fontes para relatar suas histórias, suas verdades e suas dores, é uma responsabilidade imensurável. Ao menos assim considero. Isso, eu mesma, essa que vos fala (ou melhor, escreve), pois também faço parte desse resgate histórico da Revista Flash Vip, onde estou há mais de seis anos. E, ao lado dos meus amigos e colegas, o publicitário Nando Sbruzzi e a designer Duana Scussiatto, liderados pela Carla Hirsch, contribuímos para a FV permanecer evoluindo e comunicando da melhor maneira possível.

 

 

 

Sobre o autor

Carol Bonamigo

Carol Bonamigo

Jornalista, pós-graduada em Cinema, viciada em cultura pop e dependente de um app pra organizar todas as séries que assiste.

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