DESTAQUE SAÚDE E BEM-ESTAR

Combustão Completa

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Enquanto se abre mão da saúde física e mental em prol do sucesso profissional, deixando para desacelerar depois de atingir aquela determinada meta estabelecida, o corpo e a mente estão se exaurindo e vão, eventualmente, acabar pisando no freio por você. É o Burnout chegando. 

Vivemos uma vida frenética, sem tempo para mais nada, a não ser mais compromissos profissionais na agenda já abarrotada. Tirar um momento para si? Nem pensar, isso é coisa de gente ociosa. E nós gostamos de ser ocupados. Dá uma sensação de importância e imponência. Quando gostamos do que fazemos, queremos ir além. E, convenhamos, um bom trabalho é recompensado com ainda mais trabalho. E assumimos, porque damos conta. Até não darmos mais. 

Parece apenas a rotina da vida moderna, como se nos extenuarmos diariamente fosse o novo “normal”, mas não é de hoje que a prática laboral tem adoecido as pessoas ao redor do mundo. Desde a Revolução Industrial, as longas e exaustivas jornadas somadas ao modo de vida capitalista tornaram a precarização do trabalho algo preocupante para a saúde ocupacional. 

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Em 1974, o psicanalista alemão radicado nos Estados Unidos, Herbert Freudenberger (1926-1999), falou pela primeira vez em Síndrome de Burnout. O termo vem do inglês to burn out, que significa queimar-se por completo, e faz menção ao esgotamento físico e mental crônico ocasionado pelo trabalho. Freudenberger falou por experiência própria. Ele mesmo – que trabalhava 12 horas por dia e, à noite, atendia em uma clínica gratuita para dependentes químicos – foi vítima de exaustão, juntamente com seus colegas, os quais utilizou como fonte de estudo para determinar a síndrome. 

Ainda na mesma década, a psicóloga norte-americana Christina Maslach popularizou o conceito, inserindo nele um aspecto social e global, avaliando o indivíduo e a sua relação com o ambiente de trabalho. Hoje, o Maslach Burnout Inventory (MBI) continua como a medida de pesquisa mais utilizada no campo da doença.

Tempos modernos 

A terminologia pode não ser de hoje, nem o diagnóstico, e apesar de Charles Chaplin já ter interpretado tão bem, em 1936, como a ocupação pode levar a uma crise nervosa, nunca se falou tanto de Burnout como neste ano. Isso porque a síndrome teve grande repercussão na mídia nacional, após a jornalista Izabella Camargo ter sido demitida da Rede Globo ao retornar de um afastamento devido à doença, culminada em um colapso nervoso ao vivo. Acompanhamos a novela de desligamento da empresa, ação judicial, determinação de reincorporação, descumprimento da sentença, volta ao trabalho e novo afastamento. Pode-se pensar que para uma repórter a jornada árdua de um telejornal da madrugada é algo corriqueiro, parte da rotina da carreira escolhida por ela, mas lidar com o ritmo de trabalho exaustivo não é tarefa fácil, e certamente afeta cada pessoa de maneira distinta. 

“Na terapia saímos um pouco do CID (Classificação Internacional de Doenças) e buscamos entender o contexto geral. Quando pesquisamos, percebemos que o maior índice de Burnout é entre pessoas que trabalham com relações interpessoais levadas ao extremo, como profissionais das áreas da comunicação, segurança, saúde e educação”, explica o psiquiatra Lucio do Amaral. 

“A síndrome de burnout é conceituada como resultante do estresse crônico no local de trabalho que não foi gerenciado com sucesso” – Organização mundial da saúde (OMS)

Conforme o médico, o Burnout é um desequilíbrio contínuo entre a vida pessoal e profissional. Não é algo desencadeado da noite para o dia, ocasionado por uma semana ruim e pouco produtiva, mas um processo crônico de desgaste que pode levar meses e até anos para se desenvolver. Ao atingir o esgotamento físico e mental, há a somatização de sinais e sintomas que devem ser observados. “Dores articulares e nas costas, insônia, doenças alérgicas, queda de cabelo, candidíase, enxaqueca, problemas gastrointestinais e uma série de outros. As pessoas comentam ‘minha imunidade está baixa’, como se fosse algo normal de acontecer. Esse é o maior alerta dentro da gente. É o nosso corpo nos dizendo que devemos desacelerar. E, geralmente, esses indivíduos têm prazer no trabalho, então demoram a perceber que ele é a causa dos problemas”, alerta Lucio.

 

Está tudo interligado
O psiquiatra Lucio do Amaral alerta para o estado de estresse crônico e as suas consequências para o organismo. “Um dos problemas desencadeados pelo Burnout são os transtornos cardiovasculares, pela liberação de várias catecolaminas. Isso acontece porque você está liberando cortisol o dia inteiro no seu organismo, por dois, cinco, 10 anos a fio. Daqui a pouco, você é um hipertenso há anos e nem sabia”, comenta. O cortisol, principal hormônio catabólico, é liberado quando o corpo se encontra em situações de alto estresse físico e mental e alta temperatura.

 

Pane no sistema 

O Burnout pode afetar qualquer pessoa, independente da idade, sexo ou atividade profissional. Uma pesquisa realizada em 2018, pela International Stress Management Association (Isma- -BR) apontou que 32% dos trabalhadores brasileiros sofrem com o transtorno, totalizando 33 milhões de pessoas. Em um ranking que não queremos ganhar, ultrapassamos chineses e norte-americanos, e ficamos atrás dos japoneses, com 70% da população atingida. 

Tem-se percebido, também, uma maior incidência da síndrome nas mulheres, ocasionada, principalmente, pelo assédio moral – ainda há uma grande desigualdade entre os gêneros nas empresas, conforme mostra o estudo “Assédio moral no trabalho: gênero, raça e poder”, publicado na Revista Brasileira de Saúde Ocupacional, em 2018. Segundo dados do relatório, mulheres sofrem mais assédio moral do que os homens e 65% das entrevistadas relataram atos repetidos de violência psicológica, contra 35% dos homens. Além delas, negros, homossexuais e funcionários que retornam às atividades com algum tipo de sequela são as principais vítimas. “Para a mulher, não basta ser boa profissional, ela tem que ser bonita, atualizada e boa mãe. Há uma baixa flexibilidade entre elas, onde não são permitidos erros”, reflete Lucio.

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Era como se sentia Maria Cristina Vieira. A bancária, de 38 anos, lembra nitidamente o período turbulento que passou, em 2012. Diariamente, dirigia 27 km até Xaxim, para a agência na qual trabalhava, deixando em Chapecó seu filho, na época com dois anos. A frustração em perceber que seus erros eram apontados mais duramente que da maioria dos seus colegas não ajudava a se sentir bem e segura de si em um ambiente considerado opressor. “Não importava o quanto me esforçava, nunca seria o suficiente. Pensava ‘o que eu tenho de tão errado, de tão ruim?’”, recorda.

O mês de abril foi especialmente intenso. Em meio a separação de seu, até então, marido, Maria Cristina descobriu estar grávida de seu segundo filho. O vulcão hormonal certamente não facilitou seu estado emocional. Como era caixa, pediu para ser trocada de setor para não lidar diretamente com dinheiro e o público, além de estar desconfortável no guichê apertado. “A resposta que tive foi ‘trabalhe em pé’. Se reclamava, frases como ‘se você não quer, tem um monte de gente querendo teu emprego’ eram bem comuns”, relata.

Sem autoconfiança para colocar um basta na situação, ela se viu com pensamentos constantes de autossabotagem e, em alguns momentos, foi ainda pior. “Já cheguei a pensar ‘vou jogar o carro na frente de um caminhão ou uma árvore, pelo menos eu não preciso chegar à agência’. Não é só omitir, não nos damos conta que o trabalho está nos adoecendo. Não é só o cansaço, é preferir estar doente e até morrer a ir trabalhar”. 

De acordo com o Ministério da Saúde, no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS), a Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) está apta a oferecer, de forma integral e gratuita, todo tratamento para a Síndrome de Burnout, desde o diagnóstico até o tratamento medicamentoso.

O estopim foi no fim de abril, quando uma situação causou o que Maria Cristina descreve como o “surto geral”. Discutiu com o gerente e ficou em uma sala por horas, até conseguir se acalmar e poder dirigir de volta para Chapecó. Ao retornar à cidade, foi direto ao consultório de seu obstetra, que lhe deu afastamento de 15 dias. O primeiro diagnóstico foi de depressão gestacional, mas ao ser encaminhada a um psiquiatra, o Burnout foi destacado como o real transtorno. “Só de pensar em voltar ao trabalho, sentia dores fortes de estômago, calafrios e não conseguia mais dormir. Ter a ajuda psicológica foi essencial para a minha recuperação. Quando o psiquiatra me disse que meus sentimentos não eram ilusórios, realmente estavam acontecendo, aquilo mesmo foi o melhor diagnóstico. Senti que podia respirar de novo. E isso, por si só, já foi o início da mudança. Ele me ajudou a perceber que não conseguiria mudar a atitude dos outros, mas a minha, perante aquilo. Todo mundo pode passar pela mesma situação, mas nem todos reagem da mesma forma. As percepções são diferentes”, conta a bancária. 

Foram anos até encontrar o equilíbrio, e hoje Maria Cristina trabalha na mesma agência com prazer. Como vice-presidente regional do sindicato da sua categoria, busca alertar seus colegas para os cuidados com a saúde mental. “Temos muito que evoluir nesse quesito. Hoje em dia, as pessoas pensam que isso faz parte do mundo moderno, que todo mundo deve estar esgotado o tempo todo. E não deve ser assim. Não tive tempo de almoçar, de dormir, de descansar porque estava abarrotada de trabalho e os outros ainda dizem ‘parabéns, você é uma guerreira’. Não! Você deve ter tempo para a sua família e para si, você merece descanso e merece ser feliz”, conclui.

 

Atente aos sinais
A enfermeira Patrícia Grando, pós-graduada em Enfermagem do Trabalho, Gestão de Pessoas e Gestão Hospitalar, lida diariamente com a saúde do trabalhador e afirma que o diagnóstico da Síndrome de Burnout depende muito do paciente se abrir com o profissional da saúde e relatar a origem do problema. “Eles têm vergonha em admitir a sobrecarga, para não parecer que não dão conta do trabalho, e assim não reconhecem a necessidade de ajuda profissional”. Mas a responsabilidade não é apenas do paciente. Conforme Patrícia, as empresas, especialmente os setores de Recursos Humanos, devem estar atentos aos sinais que afetam as condições de saúde laboral, como produtividade, rotatividade (a saída constante de funcionários), absenteísmo (a falta repetida de funcionários, atestados e afins) e o clima da empresa.

 

Carga e descarga

O diagnóstico da Síndrome de Burnout depende, também, da abertura que o paciente dá ao médico em relatar seus sinais e sintomas, e a percepção que ele tem das suas origens. Assumir o desgaste ocasionado pelo cargo ou ocupação, não é demérito algum. “Normalmente é uma mistura, com componentes de outras patologias, e há muitos casos não notificados. Às vezes, precisamos de vários encontros e ajuda multidisciplinar, com psicólogos e psiquiatras, para chegar à conclusão precisa. Se for identificado o Burnout, deve ser melhorada a condição laboral dessa pessoa”, explana o médico do trabalho, Paulo Fett Neto. 

Para o profissional, os transtornos psiquiátricos ainda carregam estigma, dificultando o reconhecimento e a autoanálise do indivíduo. “Ele mostra um distanciamento e uma apatia, carregando o sentimento de desesperança, acarretando na diminuição da produtividade no trabalho. Vários casos não são notificados, pois há uma negação do diagnóstico. Isso acontece pela falta de informação, tanto dos pacientes quanto dos profissionais da saúde. Muitas vezes, a própria natureza da tarefa é estressante, e profissionais que lidam com situações de morte e violência estão mais suscetíveis a isso”, explana Paulo, que também é oficial médico da Polícia Militar. 

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Roberto* sentiu na pele como a rotina vertiginosa poderia abalar a sua vida. Policial há sete anos, não percebeu o quanto o excesso de responsabilidades da sua função sobrecarregou seu emocional. “Acontece aos poucos. Você não cuida, não percebe e, quando assimila, se nega a acreditar que aquilo está ocorrendo e te fazendo mal. A cobrança era imensa, quando tudo que estávamos fazendo era tentar ajudar a sociedade”, relembra. 

Um dia ruim se estendia para uma semana péssima e um dia bom dava a falsa sensação de melhora. Gradativamente, Roberto foi se isolando dos amigos e da família. Perdeu vontade de socializar e chegou a emagrecer 10 kg. “A angústia era tão grande que a única saída que via para a minha dor era a morte. Até o ponto de estar com a minha própria arma, apontada para a minha cabeça”. 

A cogitação do suicídio foi o ponto crítico para buscar ajuda. Logo na primeira sessão com a psiquiatra, Roberto foi diagnosticado com Síndrome de Burnout. Ao apresentar o laudo aos seus superiores, sua arma foi retida e ele foi imediatamente afastado de suas funções para iniciar o tratamento. “Tenho certeza que vários outros colegas passam por isso e não buscam ajuda pelo preconceito, deles mesmos e dos outros. Mas a instituição foi extremamente compreensiva e me ajudou em tudo que poderia e deveria”, relata. 

Há dois anos, Roberto está em tratamento, e a trajetória não tem sido fácil. Voltou ao trabalho, em outro setor, mas vive sob constante medo de ter uma recaída. “Não quero ser um peso a ninguém. Quem passa por isso se sente solitário, desamparado. Não posso dizer, de forma alguma, que estive abandonado, pois sempre tive a presença de pessoas queridas ao meu lado, mas ao que diz respeito ao entendimento do que você está passando, o momento e a angústia do que você está vivendo, aí sim, a pessoa se sente sozinha. Mas devo a minha vida às pessoas que estiveram ao meu lado, me ajudando a passar por isso, como minha companheira e meu filho. Sem eles não estaria aqui, falando com você agora. Não consigo cogitar a hipótese de trocar de profissão, faz parte de quem eu sou. Tudo que quero é voltar a ser o policial que eu era antes disso, feliz em ajudar os outros”, reflete. 

E ainda, para qualquer pessoa que esteja passando por algo parecido, Roberto aconselha: busque auxílio. “O caminho a percorrer é tão longo quanto o tempo que você ficou inerte. O fim do seu problema não está em uma dose de remédio ou em um conselho do psicólogo. Está em você. É um dia de cada vez”.

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No Brasil, o Decreto nº 3.048, de 6 de maio de 1999, aprovou o Regulamento da Previdência Social e, em seu Anexo II, trata dos Agentes Patogênicos causadores de Doenças Profi ssionais. O item XII da tabela de Transtornos Mentais e do Comportamento Relacionados com o Trabalho (Grupo V da Classifi cação Internacional das Doenças – CID-10) cita a “Sensação de Estar Acabado” (“Síndrome de Burnout”, “Síndrome do Esgotamento Profi ssional”), recebendo o código Z73.0. Enquanto houve um aumento de 12% no total de auxílios-doença concedidos pelo INSS, entre 2017 e 2018, os benefícios concedidos ao CID-10 Z73.0 aumentaram 198%.
E isso tende a crescer ainda mais. 
Em maio de 2019, a Organização Mundial da Saúde (OMS) publicou a 11ª Revisão da Classificação Internacional de Doenças (CID-11), constando uma definição detalhada da Síndrome de Burnout, que entrará em vigor a partir de janeiro de 2022.

 

*Para preservar a privacidade da fonte, seu nome foi modificado.

 

Sobre o autor

Carol Bonamigo

Carol Bonamigo

Jornalista, pós-graduada em Cinema, viciada em cultura pop e dependente de um app pra organizar todas as séries que assiste.

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