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Casar ou morar junto? Eis a questão

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Uma reflexão sobre a tradição e a adaptação dos relacionamentos na vida moderna.

A estudante de artes visuais Jayne Werlang estava prestes a fazer 16 anos quando um seguidor do Twitter interagiu com um de seus tweets. Ela brincou com o fato de ter crédito no celular, mas não ter mensagens para responder. Foi aí que músico Thiago Pagnussat, na época com 19 anos, pediu o número do seu telefone e enviou a primeira de cerca de cinco mil mensagens que a jovem precisou responder até conhecê-lo pessoalmente. Isso só aconteceu alguns meses depois, durante o show do baterista em Xaxim. Daquele momento em diante, tudo sucedeu naturalmente rápido. Foram dois anos entre o ritual de conquista, o pedido de namoro, a confiança dos pais, o noivado e o casamento, que ocorreu em outubro deste ano, em Chapecó.

Enfim sós, os dois vivem juntos entre máquinas fotográficas, séries de TV e adereços do Star Wars. Com eles mora também Amélie, a cachorrinha adotada pelo casal. Os jovens ainda estão se adaptando a nova rotina, como pagar as contas, limpar a casa e cozinhar. Aos poucos criam seus hábitos e se acostumam com o cotidiano um do outro. O clima é de lua de mel, felicidade e um futuro cheio de planos e desafios em conjunto. Mas uma das perguntas que eles mais respondem ultimamente nem está relacionada ao amor ou ao tamanho da felicidade por estarem juntos, e sim, por que casar tão cedo?

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Jayne e Thiago: para os recém-casados, quando se casa – e se casa cedo – os dois crescem, aprendem e constroem uma vida juntos.

É mais ou menos o mesmo questionamento que Larissa Rossignol, 19 anos, e Marcelo Cavalli, de 23, eventualmente se deparam quando contam que decidiram morar juntos. A diferença é que os jovens optaram em dividir a mesma casa sem oficializar a união. Faz seis meses que namoram e dois que decidiram viver sob o mesmo teto. Ao contrário de Jayne e Thiago, eles primeiro se conheceram pessoalmente em uma festa em Chapecó e depois manteram contato e fortaleceram laços pelas mídias sociais.

A ideia pareceu uma boa alternativa para o casal poder se ajudar, já que Larissa queria se mudar para a cidade e Marcelo voltava para a região depois de uma temporada no litoral. Juntaram o útil ao agradável. E tem sido assim desde então. Útil porque dividem as despesas e as responsabilidades do apartamento e agradável porque a companhia não poderia ser melhor. Hoje, se intitulam a família um do outro.

Já Bruna Silveira, 29 anos, e Carolina Pauly Silvera, de 30, costumam responder às indagações sobre a escolha de viverem juntas com outra pergunta: e por que não? “Foi o que pensamos, pois nossa família e nossos amigos nos apoiavam e, é claro, todos queriam uma festa para derrubar o preconceito externo”, conta Bruna. Em um relacionamento há seis anos, elas resolveram “juntar as escovas de dente”. A decisão foi tomada após oito meses de namoro, que começou depois de uma festa e algumas ligações. Com a experiência do namoro e da vida em conjunto, decidiram casar, como manda o figurino.

A cerimônia foi oficializada em abril de 2014, no cartório de Chapecó. No dia seguinte, uma festa intimista para familiares e amigos mais próximos celebrou a união. Para elas, um momento de muita emoção, com troca de votos, muito carinho e, claro, dois buquês. Segundo as meninas, o casamento está ótimo e a cada dia elas têm a certeza que não cometeram nenhum erro.

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Três razões e uma escolha

Os três casais, embora por motivos diferentes, optaram por uma escolha em comum: dividir e apreciar a vida com alguém. Mas será que existe diferença entre casar ou morar junto? A partir da prática clínica, a psicóloga Joseana Garcez da Luz Seidler, observa que as escolhas são influenciadas por valores, interesses e critérios conscientes e inconscientes. “O que talvez mais marque essa diferença são as fantasias. Quem opta por morar junto acredita que essa forma protege a individualidade de cada um. Por outro lado, os que optaram pelo contrato matrimonial mantêm a fantasia de que sua relação é inatingível, segura e duradoura”, explica.

A especialista em psicoterapia de casais e família conta que o desejo de estar vinculado, de uma forma ou de outra, sempre esteve presente entre os seres humanos. No entanto, atualmente as relações amorosas passaram a dar ênfase a sentimentos e a interesses pessoais, não mais somente vinculados exclusivamente a interesses econômicos, religiosos e socioculturais. “Os relacionamentos atuais mantêm a ideia de serem reconhecidos e validados por si só, apesar de estarmos na época do chamado amor líquido”.

“O que talvez mais marque essa diferença são as fantasias. Quem opta por morar junto acredita que essa forma protege a individualidade de cada um. Por outro lado, os que optaram pelo contrato matrimonial mantêm a fantasia de que sua relação é inatingível, segura e duradoura.” – Joseana Seidler, psicóloga e terapeuta de casais

Morar junto pode ser uma ótima opção para os casais se conhecerem melhor a amadurecerem o relacionamento. Além de vivenciarem experiências importantes e evoluírem em parceria. Há quem decida viver indefinitivamente assim e não há problema nenhum nisso, quando existe essa compreensão de ambos os lados.

foto de Sthael Zottis

Larissa e Marcelo: dividir o apartamento pareceu uma boa alternativa para o casal poder se ajudar. No fim, tornaram-se a família um do outro.

Larissa e Marcelo, embora não estejam oficialmente casados, se consideram uma família, junto com Thor, o cachorro adotado pelo casal. Priorizam o diálogo, a divisão de tarefas, o respeito, a paciência e o afeto diário que mantém vivo o relacionamento. Ao mesmo tempo, lidam com os mesmos desafios de quem trocou alianças no altar, como as dificuldades naturais da convivência, por exemplo. “O comprometimento é o mesmo, o que muda é o papel e a festa”, acredita Marcelo. Para Larissa, a relação dos dois só se diferencia pela tradição. “Da mesma forma, dormimos e acordamos juntos. Temos para quem dar bom dia e podemos contar um com o outro. E essa é a parte mais legal”.

Jayne e Thiago também não enxergam muitas discrepâncias entre casar ou morar junto e, por isso mesmo, optaram pelo clássico “sim” no altar. Segundo eles, nada imposto pela família, mas uma decisão tomada com base em muito reflexão e na maturidade deles enquanto casal, apesar da idade. Contudo, uma escolha também imbuída de algumas críticas, principalmente vindas daqueles que cresceram diante da frustração de quem não teve um casamento feliz no passado. “Dizem que casar estraga a vida, ainda mais quando se é muito jovem. Desde pequeno você só ouve as pessoas reclamarem do casamento. Mas acho que é algo muito cultural. Quando se casa – e se casa cedo – os dois crescem, aprendem e constroem uma vida juntos”, afirma Thiago.

“Da mesma forma, dormimos e acordamos juntos. Temos para quem dar bom dia e podemos contar um com o outro. E essa é a parte mais legal.” – Larissa Rossignol

Para quem acredita que não casar facilita o desprendimento ou uma possível separação, Jayne explica muito bem que não é esse o caminho. “Quando você gosta de uma pessoa, não é uma briga que vai colocar tudo a perder. Brigas acontecem. Se você desiste na primeira vez, realmente não está com o psicológico pronto para dividir a vida com outra pessoa”. E quando se está pronto para isso? Quando as pessoas se tratam de igual para igual, pensa a estudante. “Ninguém pode querer ser mais e ninguém deve ser menos. Tem que saber respeitar a pessoa e suas limitações”.

foto de Jorge Bortolli

Carolina e Bruna: Constituíram um lar há seis anos, então, por que não casar?

Assim como fazem Bruna e Carolina, que gostam das mesmas músicas, frequentam os mesmos lugares, têm ideologias e estilos de vida parecidos, mas conseguem absorver o conhecimento uma da outra por meio das diferenças. O principal desafio delas sempre foi o de se acostumar uma com as manias da outra. “Claro que também tem a famosa TPM que agora vem junto em dobro”, brinca Bruna. Elas moraram juntas antes de casar e a única diferença agora é na forma como se referenciam. Ou seja, de namoradas passaram para esposas. Já o convívio e tudo mais continua o mesmo, inclusive a melhor parte. “É você chegar em casa e ter a sua companheira lhe esperando para conversar sobre como foi o seu dia, para dividir bons e maus momentos”, relata.

“Ninguém pode querer ser mais e ninguém deve ser menos. Tem que saber respeitar a pessoa e suas limitações.” – Jayne Werlang

Joseana entende que existe uma trajetória em direção ao amadurecimento emocional nas relações e elas tendem a evoluir para níveis mais satisfatórios de interação e uma maior aproximação. “À medida que gradativamente possamos abrir mão do primado da posse e do domínio de uns sobre os outros no contexto relacional”.

A psicóloga concorda com o médico e escritor Luiz Carlos Osório, quando ele enfatiza que é importante aceitarmos a realidade vivencial compartilhada por todos em relações de reciprocidade e mutualidade. “É preciso renunciar a fantasia de que o universo conjugal nos pertence ou existe para atender nossos desejos e necessidades”.

“Respeitar no outro suas histórias e singularidades, ser capaz de, conjuntamente, fazer os ajustes necessários, sem sacrificar as individualidades, tem tudo a ver com saúde mental, maturidade emocional, autoestima e amor pelo parceiro.”

Por essa razão, o maior desafio para os casais que escolhem viver juntos é permitir o crescimento individual, a autonomia e a diferenciação das famílias de origem. “A renomada estudiosa em relacionamentos de casais Iara Camaratta Anton pontua que respeitar no outro suas histórias e singularidades, ser capaz de, conjuntamente, fazer os ajustes necessários, sem sacrificar as individualidades, tem tudo a ver com saúde mental, maturidade emocional, autoestima e amor pelo parceiro”, acrescenta a psicóloga.

Os benefícios de quem opta em morar sob o mesmo teto, em ambos os casos, são construídos pelos casais e com a história de cada um, embora cada caso seja um caso, observa Joseana. De qualquer forma, laços de bem-querer só tendem a aproximar os parceiros, independente de como eles decidam viver.

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Uma relação crescente

Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) de 2013 mostram o que o número de casamentos foi maior do que o de divórcios no Brasil. A pesquisa “Estatísticas do Registro Civil” revela um crescimento de 1,1% em comparação com o ano anterior. Foram 1,1 milhão de casamentos, 11,037 mil a mais do que em 2012. Já o número de divórcios foi de 324,9 mil, 4,9% a menos.

Segundo o Senso Demográfico divulgado em 2012, o número de uniões consensuais, ou seja, quando os casais moram juntos com ou sem contrato, também cresceu no Brasil. De acordo com o IBGE, o aumento foi de 28,6% para 36,4% nos últimos dez anos. Isso quer dizer que um terço dos casais vivem em união consensual no país.

Casamento e união consensual

O Casamento é um contrato de união entre duas pessoas reconhecido e regulamentado pelo Estado. No Brasil, é regulamentado pelo Código Civil. Quando realizado na Igreja, reconhecido pelas comunidades religiosas, é intitulado matrimônio ou casamento religioso.

A união consensual é aquela em que os casais vivem juntos sem casar no civil ou no religioso e pode ser considerada uma união estável. A Constituição Federal (art. 226) passou a proteger a união estável como família a partir de 1988. Diferentemente do casamento, esse tipo de relacionamento não gera um estado civil, ou seja, as pessoas são consideradas solteiras, mas os casais têm a relação regida pelo direito de família.

Não existe um prazo estabelecido para que seja configurada uma união estável. Segundo o Código Civil, “é reconhecida como entidade familiar a união estável entre o homem e a mulher, configurada na convivência pública, contínua e duradoura e estabelecida com o objetivo de constituição de família”. A união estável pode ser hetero ou homoafetiva.

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Faz bem para o coração

Um estudo feito nos Estados Unidos e apresentado na conferência anual do American Collegeof Cardiology, em 2014, revela que estar casado faz bem para a saúde, em especial ao coração. A pesquisa feita com 3,5 milhões de pessoas mostra que os casados têm 5% menos risco de desenvolver qualquer doença no coração. Segundo o autor da pesquisa, o cardiologista Carlos Alviar, do Langone Medical Center da Universidade de Nova York, a parceria entre casados e a menor probabilidade de doenças é ainda maior entre os jovens. O fato dos casais se ajudarem a ter uma vida mais saudável é uma das justificativas para o menor risco de problemas cardiovasculares.

Sobre o autor

Greici Audibert

Greici Audibert

Repórter com interesse em literatura, tecnologia, política, bichos fofos e cultura pop.

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