GERAL

Campanha: na saúde e na alegria

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Já comentamos aqui que os bichos ajudam a inspirar virtudes e o quanto essa relação de 20 mil anos é capaz de provocar incríveis alterações no comportamento do ser humano. Relatamos ser possível julgar o coração de um homem pelo seu tratamento com os animais, questionamos a crueldade e descobrimos que pessoas saudáveis não se preocupam só com elas mesmas. Começamos uma campanha falando de amor e terminamos falando de saúde e felicidade.

Tramita na Câmara dos Deputados um projeto de lei que regulamenta o uso da Terapia Assistida por Animais (TAA) em hospitais públicos e outros cadastrados no Sistema Único de Saúde. Enquanto a proposta é analisada por comissões, instituições de saúde que já utilizam os bichos como parte integrante do processo de tratamento chegam todas a mesma conclusão: eles fazem bem pra cachorro.

Os resultados obtidos até agora apontam benefícios físicos e mentais, como melhoria da capacidade motora, do sistema imunológico, dos sintomas da depressão; redução da ansiedade e da pressão sanguínea, aumento da sociabilidade e sentimento de auto-estima. O Hospital da Universidade de São Paulo (HSP), por exemplo, usa a terapia com as crianças, os pacientes psiquiátricos e os idosos desde 2006. O relatório do projeto chamado Amicão mostra que a presença do cachorro ameniza o ambiente hospitalar e favorece as relações e a comunicação entre as pessoas, inclusive entre os profissionais de saúde.

Poucas clínicas brasileiras, porém, utilizam a Terapia Assistida por Animais, que precisa de uma certificação internacional para funcionar em ambientes hospitalares. Além do HSP, o Hospital Albert Einstein, o Hospital Infantil Sabará, ambos de São Paulo, e o Hospital Universitário Evangélico de Curitiba estão entre as instituições favorecidas por uma medida já comum em países da Europa, Estados Unidos e Canadá. Por outro lado, a TTA não se restringe a hospitais. E é aí que os bichos entram pra valer nessa história.

A técnica pode ser empregada por profissionais no tratamento de patologias no âmbito da saúde física, mental ou social. Cada vez mais utilizada em escolas, entidades e casas de idosos, é adaptada e direcionada às necessidades de cada pessoa. Os animais são como instrumentos facilitadores de abordagem e estabelecimento de terapias, por isso são considerados co-terapeutas. Em Chapecó, existem pelo menos quatro: Lua, Fênix, Brisa e Bento.

Lua

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A comovente amizade de Gabriel e Lua traduz o afeto e o aprendizado que a equoterapia proporciona aos alunos da Apae.

De pernas longas, fortes e personalidade tão doce quanto a cor do mel de sua pelagem vistosa, Lua se tornou referência de saúde e afeto na Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (Apae). É como se fosse um pote de ouro no fim do arco-íris. É a própria recompensa pela confiança e entrega diante de seus olhos gentis.

Lua é uma égua voluntária e carinhosa. Sua força e postura cortês a capacitaram naturalmente para a equotoreapia, método terapêutico que emprega o cavalo como agente promotor de bem-estar físico e emocional. A Apae de Chapecó conta com a terapia desde 2006, através de um abordagem interdisciplinar nas áreas da saúde, educação e equitação. Os atendimentos ocorrem diariamente e duram 30 minutos. Atualmente, 33 usuários de todas as idades participam das atividades, sempre acompanhados por uma equipe formada por fisioterapeuta, psicólogo, fonoaudiólogo, terapeuta ocupacional e equitador. Uma ação conjunta cujos resultados são tão perceptíveis que chegam a emocionar. “Trata-se de um animal de grande porte que leva o aluno a andar de outra forma. Esse contato proporciona um estímulo capaz de despertar mais confiança, alegria e afetividade. Cria-se um vínculo muito forte”, garante a educadora especial Juliana Froes, que materializa essas sensações ao demonstrar seu trabalho no picadeiro especialmente montado na entidade. Um trabalho que é acompanhado de perto pela equitadora e auxiliar guia, Luiza Queiroz, responsável por zelar pelo bem-estar do animal.

Juliana trabalha cores, tamanhos, coordenação motora fina ou ampla, natureza, pesos, sons, espaço e visão. Todas as percepções possíveis na área educacional e que a equoterapia oferece. “O cavalo tem uma andadura que propicia um movimento tridemensional e favorece o equilíbrio, além de ajudar na postura, na coordenação e na auto-estima do usuário”, explica. Cada profissional, então, aproveita tudo isso e direciona para sua área, assegurando capacidades funcionais que permitam independência nas atividades de vida diária.

É o que faz a fonoaudióloga Micheli Bristot, ao utilizar um brinquedo sonoro para despertar o interesse de Gabriel de Mouro Seguetto, de três anos, um dos seus mais jovens alunos. Naquele momento, completamente entretido com os cabelos de Lua. “Ele está aprendendo a falar agora e todos esses estímulos vem antes da linguagem. Os gestos, o carinho, o cheiro, o afeto”, relata. Cada usuário, no entanto, reage de formas diferentes. Quase todos com um pequena desconfiança, a princípio, por se tratar de um animal grande, mas com uma conexão forte ao estreitar relações.

O picadeiro da Apae possui vários elementos que chamam atenção do aluno. Mas nada se compara ao apego do menino com Lua. Ele abraça, acaricia, cheira, sorri e bate palmas ao comemorar cada tarefa bem feita. Conduz e alimenta a égua, que gentilmente retira as verduras de suas mãos. Quase como se soubesse como são especiais seus parceiros de atividade, em particular o pequeno Gabriel. Tudo é acompanhado de perto pelo pai, o vigilante Gilmar Seguetto. “A equoterapia teve um papel decisivo na vida dele e da gente. Ele passou a ter menos receio do novo e se tornou uma criança mais confiante, mais segura. Nós fazemos questão de acompanhar, de estar perto, porque é um aprendizado que se leva para a vida toda”, observa.

Brisa

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Diferente do vento suave que toca levemente o rosto, a Brisa em questão é capaz de atingir diretamente o coração. Literalmente, já que o convívio com cachorros ajuda a controlar o estresse, diminui a pressão arterial e reduz o risco de problemas cardiovasculares, segundo o American Journal Cardiology, dos Estados Unidos. Brincalhona e atenciosa, a jovem cadela da raça labrador é uma das estrelas da cinoterapia em Chapecó. Junto com Fênix, ela foi treinada para reforçar, estimular e facilitar a reabilitação e reeducação global dos pacientes.

A Associação de Deficientes Visuais do Oeste de Santa Catarina (Adevosc) é uma das entidades que contam com a terapia na cidade. Foi lá que Brisa fez amizade com Andréia Conceição Duarte, 33 anos. Cega desde bebê, ela só dispensa o apoio da bengala quando caminha na companhia da cachorra, o que acontece há três anos, pelo menos uma vez por semana. E, assim, Brisa se tornou sinônimo de liberdade. “Ela me ajudou a superar o medo de caminhar sozinha. Sinto-me mais livre e mais segura quando estou com ela”, conta Andréia.

As caminhadas ocorrem pela manhã, acompanhadas de boas conversas com a professora de educação física e educadora especial Kerli Braum e o cabo Idanir José Zambon, do Corpo de Bombeiros de Chapecó. Mais sete integrantes da Associação participam das atividades desenvolvidas desde 2009. Além da Advosc, o projeto de cinoterapia também acontece em escolas e outras entidades da cidade, como o Serviço de Acolhimento Municipal. Nesse caso, a terapia é realizada através de uma parceria com o programa de extensão Sorriso para a Vida, da Unochapecó. As atividades buscam o estímulo ao desenvolvimento neuropsicomotor, aumento da auto-estima, estimulação da memória, redução da ansiedade e aumento da afetividade. “Os resultados são muito positivos. Tivemos importantes avanços no que se refere à melhora do desenvolvimento, pois o cão é um facilitador desse processo”, aponta a fisioterapeuta Michele Cristina Minozzo dos Anjos, do programa de extensão da Universidade.

São Lourenço e Pinhalzinho são municípios que também desenvolvem o projeto de cinoterapia, através do 6º Batalhão de Bombeiros Militar no Oeste do Estado. Zambon é quem coordena todo o trabalho, além de adestrar os cães. “Sou bombeiro aposentado e fui recontratado para trabalhar com os animais. Por isso, sempre digo que esse foi meu presente de aposentadoria”. Ver os reflexos do seu trabalho, contudo, é ainda mais compensador. “Os cachorros criam uma motivação muito grande nas pessoas, deixam os ambientes repletos de emoção. Quando eu chego em um lugar, a reação é uma. Mas quando o cão aparece, as pessoas mudam, os semblantes se transformam. Querem encostar, fazer carinho, abraçar e todos ficam radiantes”, descreve o bombeiro.

Bento

escolhidaTalvez a principal característica de um golden retriever seja a inteligência e a vontade de agradar ao dono acima de tudo. É a quarta raça no ranking de inteligência para obediência, entre 133 analisadas pelo escritor e doutor em psicologia Stanley Coren, em seu livro A Inteligência dos Cães. E não poderia haver escolha melhor para presentear ao auxiliar administrativo Adair Baldissera. Aos 58 anos, o ex-atleta de Chapecó aproveita ao máximo os benefícios de uma amizade que surgiu dois anos após cair de um telhado e ficar tetraplégico.

Bento tem três anos e chegou envolto a um laço para presente. Esbelto e imponente, ele pode até assustar pelo tamanho. Mas usa a força apenas para brincar, lamber as visitas e, de vez em quando, correr atrás de uma pinscher miniatura, com a qual desenvolveu uma engraçada amizade. Já a famosa inteligência é exercitada todos os dias, quando acompanha Adair junto à cadeira de rodas. Versátil, a raça se adapta perfeitamente ao estilo de vida do dono. Bento até já deu uma de atleta e participou de uma corrida para cadeirantes com seu tutor. Ficou em segundo lugar. “Sempre fui ligado ao esporte e, mesmo depois do acidente, continuo envolvido, dentro das minhas possibilidades. Ele sempre está junto”.

Amigo de todos, o golden é conhecido por sua natureza devota e protetora como companheiro da família. E Bento não é diferente. Adestrado quando filhote, acompanha o dono em todo o lugar. E olha que são vários os lugares. Diz Afair que, depois do acidente, nem tempo deu para ficar triste. Logo partiu retomar sua vida. Trabalha, anda de ônibus, participa de atividades esportivas, se diverte com a família e, claro, brinca com seu cachorro. Bento, aliás, é considerado parte essencial do processo de readaptação. “Com ele junto a motivação é outra. Ajudou muito na terapia, porque é tranquilo, querido e muito dócil. Está sempre ao lado da cadeira e adora um carinho. Desenvolvemos um vínculo muito forte e hoje o considero um amigo fiel e inseparável”, conta Adair, levemente emocionado.

Sobre o autor

Greici Audibert

Greici Audibert

Repórter com interesse em literatura, tecnologia, política, bichos fofos e cultura pop.

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