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Campanha: ajudar faz bem

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O que seria dos animais de rua sem a solidariedade dos homens? E o que seria dos homens sem a benevolência? Um estudo realizado nos Estados Unidos pelo neurocientista brasileiro Jorge Moll Neto mostra que boas ações aliviam tensões, reduzem o estresse e podem até aumentar a expectativa de vida. Mas, bem antes disso, Buda já dizia: a generosidade traz abundância, purifica o coração e a mente e proporciona a maior felicidade.

Entre os dias 23 e 31 de maio, pesquisadores e observadores de aves do Brasil, Argentina e Paraguai se voltaram para o alto das florestas de Araucárias. Os olhos atentos ao céu ajudaram a somar esforços ao Censo Mundial e Nacional do Papagaio-de-peito-roxo, uma das 67 aves de Santa Catarina ameaçadas de extinção. Em Chapecó, um grupo de estudantes do curso de Ciências Biológicas da Unochapecó participou da ação. O trabalho todo ocorreu de forma voluntária e por uma única razão: a manutenção do equilíbrio ecológico do Planeta. “É um desafio grande e, ao mesmo tempo, gratificante por auxiliar na conservação da espécie”, avalia a estudante Viviane Zulian.

Enquanto isso, do outro lado do mundo, cães de rua são acolhidos em um pequeno e bom coração. Depois de levar três cachorros de rua debilitados para casa, o filipino Ken Amante, de nove anos, teve aquela certeza que só as pessoas do bem costumam ter: fazia a coisa certa. A iniciativa, então, evoluiu para um abrigo com nome, logomarga, fanpage e tudo mais e o The Happy Animals Club ganhou o mundo através da internet. Hoje, qualquer pessoa pode contribuir com os custos de assistência veterinária e alimentação dos animais machucados recolhidos pelo pequeno voluntário, com auxílio e colaboração dos pais. Foram eles que compartilharam as fotos do filho nas mídias sociais. As imagens logo se tornaram virais e comoveram usuários do mundo todo.

Do lado do bem

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Claudete já acolheu 60 cães em casa

Os exemplos mostram que, muito embora o mundo esteja cheio de maldades, as boas ações continuam a prevalecer, conduzidas pela bondade humana. O chamado “altruísmo”, que significa, basicamente, ajudar sem esperar recompensa. A funcionária pública Claudete Michailoff sabe disso muito bem. Não suporta ver um bicho abandonado. Leva todos para casa, onde hoje abriga 18 gatos e 38 cachorros. Parece muito, mas o número já foi maior. “Cheguei a ter 60 cães em casa”, conta a voluntária, que mantém o hábito desde 1989. Foram todos encontrados machucados ou doentes. “Se deixar esses animais na rua, o destino é um só: a morte”, lamenta. Engana-se, no entanto, quem vê em Claudete um perfil de acumuladora. Os animais estão para adoção, mas o problema é que a maioria não é adotada. Os mais velhos ou debilitados ficam e, por isso, o número de moradores da casa não diminui.

O auxílio maior também vem das ruas. Basta um pedido em seu perfil no Facebook para que seus quase mil amigos se mobilizem com doações. Não é por menos. São quase 16 quilos de ração por dia. E quando questionada sobre as razões que a fazem continuar, mesmo com dificuldades, ela chora e não consegue responder. Nem precisa. Dez minutos são suficientes para reconhecer um lar cheio de amor. Razão melhor não há.

Todos os animais sob os cuidados de Claudete são castrados, através de uma parceria com a ONG Voluntários Amigos dos Bichos. A saúde dos bichos é acompanhada de perto por médicos veterinários e clínicas da cidade, que fazem um valor diferenciado pelos atendimentos. A maioria cobra apenas o preço de custo dos medicamentos. “Eu recebi muita ajuda em todas as etapas da minha vida. E acho que, se cada um fizer um pouco e deixar de pensar apenas em si ou no material, será possível tornar o mundo melhor”, acredita o veterinário Guilherme Pioczcovski, um dos parceiros da Amigos dos Bichos.

“O altruísmo é um sinal de saúde mental, porque as pessoas saudáveis não se preocupam só consigo mesmas.” chris Kiefer – antropólogo

Na clínica do veterinário, animais não têm classe social. “O mesmo atendimento e qualidade de serviço é destinado a todos. Não existe distinção de tratamento entre o carente e o de alto poder aquisitivo”, afirma o veterinário, lembrando que o mínimo já é muito para quem não possui nada. “Os animais de rua quase não têm ninguém que fale por eles”, reforça.

Quase, no entanto, não significa nenhum. Guilherme é prova disso. Todos colaboradores da Associação Voluntários Amigos dos Bichos também. E a voz que eles dão aos bichos é tão alta que nem parece refletir um grupo de apenas 10 voluntários. “Esse é o número de pessoas diretamente ligadas à entidade. Precisamos de mais gente ajudando, dentro das suas possibilidades”, propõe a presidente da ONG, Juliane Rammé. Há cinco anos, a professora de arquitetura só pensava em encontrar uma companhia para sua cadelinha da raça dachshund. Acabou presidente de uma ONG e com mais cinco vira-latas em casa. Agora, à frente da Associação, ela se dedica, entre tantas coisas, a garimpar novos voluntários. Nos horários de folga, é vista por aí resgatando cães abandonados. “Certa vez recebi uma ligação sobre um cachorro que tinha fugido de um lar de passagem. Eu estava em casa, vestida de qualquer jeito. Saí assim mesmo, toda descabelada. Ela estava escondida e fiquei abaixada esperando. As pessoas passavam por mim e ficavam me olhando, como se eu fosse uma louca”, recorda, achando graça.

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A sensibilidade de Juliana diante de casos de abandono é compartilhada pelos demais voluntários. São eles que emprestam suas casas como lar de passagem, promovem ações, conscientizam a população, principalmente quanto à adoção consciente e a importância do controle populacional dos animais. “Conhecemos várias experiências de municípios que criaram abrigos e sabemos que não dá certo. Você apenas tira o animal de um lado e coloca em outro. E, de cada dez recolhidos, apenas um é adotado. O que acontece com os outros nove?”, expõe a bióloga Jovane Bottin, uma das idealizadoras da ONG e a chamada ‘faz tudo’ da Amigo dos Bichos.

Presidente por dois mandatos e ativista da causa há 15 anos, a voluntária chama atenção para a responsabilidade de cada cidadão. “Se a pessoa encontrar um animal na rua, tem que fazer a sua parte, assim como eu faço a minha. Recolher, procurar a ONG para castração e encontrar um lar para adoção”, orienta. Ela perdeu as contas de quantos já recolheu. Muitos foram adotados e alguns acabaram ficando. “Tenho dois cachorros com a perna torta, um que estava cheio de alergias, um diabético e outro que teve a perna quebrada duas vezes. Não tenho nenhum 100%”, brinca a voluntária.

A ONG foi criada em 2005, com objetivo de trabalhar pelo bem-estar dos animais. Não tem abrigos e não resgata animais de rua. Atua com programas de controle humanitário de populações animais. Realiza cerca de 700 esterilizações anuais e a identificação de todos através da implantação de transponders subcutâneos (microchip). Em 2012, conquistou o 19º Prêmio Expressão de Ecologia. Um reconhecimento pelas atividades desenvolvidas pelo Centro de Esterilização de Pequenos Animais (Cepa), que em maio deste ano realizou 70 procedimentos. O trabalho no Cepa ocorre em parceria com a Prefeitura. Animais de rua, de famílias carentes – cadastradas pelas agentes de saúde – e de protetores independentes são beneficiados.

Quem ajuda na organização do Cepa também são os voluntários da Amigos dos Bichos. O advogado Jaime Botton Pereira, por exemplo, sabe que precisa destinar parte do seu tempo a essa e outras atribuições que possui junto à entidade. Ele mesmo admite, porém, que nem sempre foi assim. “No início, eu reclamava um pouco, porque não era habituado a usar meu tempo para isso”. O que o fez mudar de ideia? O amor. Há quatro anos, incentivado pela noiva Juciane Fazolo, Jaime aderiu ao serviço voluntário. “Torna-se gratificante. Por mais que a gente trabalhe a semana toda, tem como tirar um momento para ajudar. Faz bem para as pessoas e, principalmente, para os animais”, acredita Jaime.

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Jaime Pereira, voluntário

Sinal de saúde

O advogado está certo. Ajudar faz bem. Ser um voluntário estimula a preocupação com os outros e mobiliza causas de interesse comum. E, ao contrário do que dizem os céticos, altruísmo não é coisa para românticos, santos ou idealistas. “O altruísmo é um sinal de saúde mental, porque as pessoas saudáveis não se preocupam só consigo mesmas”, afirma em um estudo o professor de Antropologia da Universidade da Califórnia, Chris Kiefer. Na ajuda ocorre o oposto do estresse. As pessoas relaxam, indica o professor de medicina de Harvard, Herbert Benson, também em uma pesquisa da área. O metabolismo, a pressão arterial, os batimentos cardíacos e a respiração diminuem, assim como a ansiedade, a depressão e a irritação. ‘É difícil a gente se sentir deprimido diante de um sorriso que ajudamos a criar”, assegura Benson.

Mas não precisa ser pesquisador de Harvard para saber disso. A jornalista Bia Piva, autora do blog Amor de Quatro Patas, reconhece a sensação desde pequena. “Ficava sem lanche várias vezes porque acabava dando para algum bichinho no caminho da escola”, conta. Hoje, além de andar com um pote de ração na bolsa, ela escreve sobre boas iniciativas de ONGs e protetores independentes de Chapecó. “Somos parte de um ecossistema que precisa estar em harmonia para sobreviver. Se todos derem as mãos para fazer com que as causas sejam reconhecidas como legítimas, ganharemos força e faremos a diferença. O planeta sofre com o descaso do ser humano. O homem é a causa de tudo e tem o dever de, também, ser a solução”, defende a jornalista.

 

Sobre o autor

Greici Audibert

Greici Audibert

Repórter com interesse em literatura, tecnologia, política, bichos fofos e cultura pop.

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