GERAL

Campanha: a revolução dos bichos

Dog sleeping in bed alongside master's feet
Dog sleeping in bed alongside master's feet

Os animais de estimação convivem com os humanos há mais de 20 mil anos, mas nunca foram tão gente como a gente.

Alguém um dia disse que os cães vieram para ensinar a sermos amados e os gatos para nos ensinar a amar. E os demais? O Piu Piu, animal de estimação da estudante de Jornalismo Janquieli Ceruti, a instruiu a ter coragem, determinação e entusiasmo. Ele não deita, não rola, nem brinca com novelo de linha. Tampouco se parece com um desenho animado. “Ele precisa de mim e a sua vida é tão importante quanto a minha”, assegura a jovem sobre seu amigo. Um galo que ostenta hoje mais ou menos seis quilos de pura formosura. “É uma ave linda e certamente vai deixar essas páginas bem mais atraentes”, brinca a estudante.

O destino de Piu Piu, no entanto, não era dos melhores. Até que um pequeno infortúnio lhe abriu horizontes mais seguros. O pé direito do galo, na época recém-chegado de uma agropecuária, foi acometido por um tumor e o bicho já não era mais capaz de ciscar sem delongas. Assim foi que escapou da panela e ainda garantiu espaço privilegiado na casa da estudante. Recebeu tratamento especial, analgésicos, alimento exclusivo e doses extras de carinho. Não antes sem passar por olhares descrentes pela sua singularidade. “Buscamos ajuda em diversas clínicas veterinárias. Quando não riam, não sabiam o que fazer”, conta Janquieli.

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Janquiele e Piu Piu

Hoje, o galo é o xodó da família. Gosta de colo, de afagos e faz amizade fácil. É muito dócil com as pessoas e com os demais animais da casa. Não rejeita ninguém, nem os vizinhos, apesar das piadas sobre caldo de galinha. “Ele toma banho, só come ração e é rodeado de mimos. Quando pega sol no gramado, fica atento aos meus movimentos. Se me afasto, logo canta desesperado como se soubesse que, comigo, está em segurança”, complementa Janquieli, convicta de que esse laço forte de carinho tenha elevado Piu Piu a membro permanente da família, mesmo que um pouco excêntrico. Da mesma forma pensam 30% dos donos de bichos da Europa e dos Estados Unidos, ao considerar seus animais de estimação parte fundamental do seio familiar.

Os donos do campinho

Igualmente reflete o administrador Leonardo Teixeira ao considerar seus bichos integrantes inestimáveis da família. Filhos, na verdade. Eles se chamam Monty e Daisy, um casal de furões estrangeiros. Vieram do Canadá, junto com Bexiga, um cão da raça basset houd, adotado durante uma passagem pelos Estados Unidos. Entraram para o clã enquanto Leonardo estudava no exterior. Na época, ele conheceu Stefane, canadense com quem está casado há seis meses.

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Família cosmopolita: Stefane, Monty e Daisy vieram do Canadá. Leonardo trouxe Bexiga dos Estados Unidos.

Monty, de quatro anos, chegou primeiro e Daisy um ano depois. Viviam em um prédio que não permitia a presença de animais, sem distinção. Nunca foram descobertos, até porque, apesar de serem bastante curiosos, escapam com facilidade. Qualquer canto serve de esconderijo para esses esguios e astutos peludos. Já por aqui a liberdade é tanta que eles festejam passeando pelas ruas de Chapecó. Quando Daisy, de personalidade mais forte, permite por a coleirinha. Eles vivem na cidade desde o ano passado e, segundo Leonardo, não tem quem não pare para observar, passar a mãe ou pegar no colo. Bexiga, claro, está sempre junto, cuidando dos irmãozinhos.

No apartamento onde moram hoje, os bichos se tornaram os donos do pedaço, com direito a um quarto que mais parece um playground. Tem cama, rede para relaxar e brinquedos, muitos brinquedos, aliás. Além disso, não é muito difícil perder algo por lá. Uma das brincadeiras preferidas dos furões é esconder objetos, além de explorar e morder cabos de computadores e televisão. Portanto, organização não é uma palavra de ordem no local. Mas a bagunça é boa, garante o casal, que reserva entre três e quatro horas do dia para brincar a gastar as energias de Monty e Daisy, fora os passeios diários com Bexiga. Leonardo e Stefane contam que os animais retribuem com carinhos tão particulares quanto eles: sobem no ombro, descem para o colo e mordiscam de vez em quando. Também deitam e rolam sob o comando de Stefane, atentos para ganhar um petisco de presente. Um apego que é uma aventura só.

Tudo isso, claro, tem um preço, que começa pelos cuidados. Furões sentem mais frio, por isso eles precisam se manter aquecidos em casa. Além disso, canos e ralos devem ser devidamente tapados, pois Monty já foi pego na botija querendo desvendar os segredos do encanamento. A comida vem de Curitiba e não é barata, revela Leonardo. Já as vitaminas e os petiscos são importados dos Estados Unidos. Os gastos ainda incluem os cuidados com limpeza e saúde, assim como ocorre com Bexiga. Ou seja, eles podem dar uma canseira. “Dá bastante trabalho, mas não vivemos sem eles. Quem gosta de bicho sabe como é. Eles são como pessoas, como verdadeiros filhos”.

Fonte inesgotável de afeto

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Mirian e Sofhy

O espaço que os animais ocupam hoje na casa e na vida das pessoas vai ao encontro de uma configuração diferente de família. Como cresce o número de pessoas que moram sozinhas (7,8 milhões) e de casais que adiam os planos de ter filhos, os bichos se tornaram companheiros inseparáveis. Principalmente por serem fontes concretas e inesgotáveis de afeto. Além disso, cada vez mais estudos apontam não se tratar de um envolvimento unilateral. Pesquisas sobre metabolismo do cérebro fornecem evidências de que os sentimentos dos animais não sejam muito diferentes dos sentimentos dos seres humanos, porque há processos cerebrais comuns. A mais recente, divulgada em julho por cientistas da Universidade da Califórnia, indica que os cachorros podem sentir ciúmes tanto quanto os homens.

É preciso ter cuidado, no entanto, com o antroporfomismo ou humanização, atribuir aos bichos características e emoções humanas. Mimar e chamar de filho não faz mal. O problema, segundo especialistas, é esperar demais por um comportamento que não é essencial dos animais ou priva-los de sua natureza. A enfermeira Mirian Zimermann garante que não é o caso da maltês Sofhy, sua amiga adulada e inseparável desde dezembro de 2009. Amor a primeira vista. “Já a vi como membro da família”.

Sofhy entrou para a vida de Mirian oito meses depois que Demy, uma poodle de dez anos, morreu. “É como se um pouco da gente fosse com eles”, lamenta a enfermeira. Como sua antecessora, a nova integrante da família chegou rodeada de regalos. E assim continua. Visita o pet uma vez por semana, ganha agrados e brinquedos quase todos os dias, toma vitaminas e só come ração específica para a raça. O preço é alto: cerca de R$ 120 em alimentação por mês. “A gente pode comer qualquer tipo de comida e eles apenas uma. Portanto, merecem o melhor”.

Mirian mora sozinha e leva a cachorra para passear todos os dias. Na volta, lava as patinhas e seca com secador. À noite, as duas assistem televisão e mantêm conversas alongadas. “É como se fosse filha, confidente e amiga”. A maltês tem seu próprio álbum de fotografia e uma escadinha especialmente desenvolvida para subir na cama, onde dorme com sua cobertinha felpuda todos os dias junto com sua dona, a qual só reconhece pelo nome de mãe. E, assim como muitos pais, Mirian fica sem comprar algo para si, mas não deixa faltar nada para a filha. “Ela é tão amorosa que não tem como não devolver tanto afeto”.

No carro, Sofhy passeia de cadeirinha, criada justamente para este fim e acompanha Mirian a todos os lugares, pelo menos os quais pode frequentar. E quando a enfermeira precisa viajar, o sofrimento nunca tem fim. “Eu não aproveito a viagem por causa dela e já deixei de sair por não conseguir me afastar”, admite a tutora, que resume sua relação com a cachorra em uma palavra: cumplicidade. “Os cachorros estão sempre bem, não importa o seu humor ou estado de espírito. Se você chega em casa triste ou cansada, eles conseguem transformar o seu dia. Muitas vezes mudamos e nos tornamos pessoas melhores em função deles”.

100 milhões de amigos

O apego e a confiança nos bichos ultimamente são tão grandes, que há quem não deixe faltar absolutamente nada para eles, nem herança. O testamento da apresentadora Oprah Winfrey, por exemplo, garante 30 milhões de dólares para seus cinco cachorros das raças Cocker Spaniel e Golden Retrievers. E, se de melhores amigos os animais de estimação foram promovidos a filhos, por que não dar a eles o mesmo sobrenome na família? No site seupetcomsobrenome.com.br é possível obter certidão de nascimento, de batismo, de casamento, de óbito e até testamento dos animais. Os preços ficam entre 60 e 150,00 reais.

A iniciativa mostra que o mercado está cada vez mais identificando o nicho como uma oportunidade lucrativa. De acordo a Associação Brasileira da Indústria de Produtos para Animais de Estimação (Abinpet), produtos e serviços destinados aos bichos movimentaram mais de 14 bilhões de reais em 2013 e coloca o Brasil como o segundo maior mercado do mundo, atrás apenas dos Estados Unidos. O país também já é o quarto colocado em número de pets, que atendem a soma impressionante de 106,2 milhões bichos com lares garantidos. Um recorde histórico, segundo a Abinpet.

Entre os clientes da veterinária Eloisa Helena Castilho, de Chapecó, a maior parte se considera mãe ou pai dos animais de estimação. Segundo ela, entre 70 e 80% do público levam os bichos a sua clínica ao menos uma vez por semana para estética, além de manter os cuidados com saúde e alimentação super premium. Os gastos vão de 100 a 500 reais por mês, fora o atendimento veterinário e os mimos. “A maioria gosta de laços e gravatas diferentes, perfumes e novos penteados, no caso dos animais de pelagem longa”. Até pedidos especiais para cerimônias de casamento Eloísa recebeu. “Pintamos a pelagem, colocamos mechas coloridas, vendemos sapatinhos de silicone para dias de chuva, carrinhos para passeio, artigos para festa de aniversário, fantasias e diversos brinquedos e roupinhas”, conta a veterinária.

Casa cheia

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A vendedora Rose e o lixador Juarez Boita, ao contrário da maioria, preferem cuidar da estética dos seus cães em casa. Uma grande economia, diga-se de passagem. Afinal, são sete cachorros. Um pastor alemão e seis vira-latas incrivelmente parecidos. Assemelham-se aos pinschers, um pouco mais rechonchudos apenas. Todos têm dia certo tomar banho, escovar os dentes, cortar as unhas, além de lugar definido na residência. Teco, Ana Carolina e Suzi Laura dormem na cama. Pretinha, Iama, Mary Jane e Falcão se ajeitam pelas poltronas e sofá. Por lá, quem se adapta são os donos. “Se um está sentado numa cadeira, eu prefiro pegar outra para não tirar ele de lá”, conta Juarez, que anda pela casa rodeado pelos bichos de roupinha colorida e perfume importado.

O casal deixou de morar no apartamento novo por causa do espaço para os animais. Preferem a casa antiga e cheia. Juarez nem viajar consegue, porque não se aguenta de saudades. “A alegria dele é estar em casa com os cachorros”, comenta Rose, que recentemente foi a um Cruzeiro com uma amiga, porque o marido preferiu permanecer com a bicharada. Mas a vendedora não fica muito atrás. Quando viaja, sente tanta falta que pede para falar com eles pelo viva voz.

A matilha dá trabalho e despesas também, afinal, são sete bocas para cuidar e alimentar. Mas Deus os livre de um dia ficar sem os animais. “Eles são nossos filhos e não conseguimos nos imaginar sem eles nas nossas vidas”, constata Juarez, enquanto equilibra três no colo e Rose acaricia outros três pelo chão. Falcão observa tudo saltitante no gramado.

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Rose e Juarez passam os dias assim: com seis cachorros a tiracolo.

Sobre o autor

Greici Audibert

Greici Audibert

Repórter com interesse em literatura, tecnologia, política, bichos fofos e cultura pop.

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