CULTURA E VARIEDADES

Abraços Perdidos

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A selfie é um enorme fenômeno social. Há não muito, foi eleita palavra do ano pelo dicionário Oxford e, segundo o próprio, seu uso aumentou dezessete mil por cento desde 2012. É inegável que vivemos uma época de narcisismo hiperaflorado. O novo lago de Narciso são as telas. Há uma necessidade crescente de nos fazermos vistos e a selfie talvez seja o ícone mais representativo dessa vontade. Uma espécie de Retrato de Dorian Gray em tempos de tecnologia.

No romance, o protagonista faz um pacto: é seu retrato, pintado, que passa a envelhecer e não ele. A selfie é a tentativa contemporânea de nos eternizarmos. Uma evolução da foto, mas com um adendo importante: vem acompanhado de pequenas, mas potentes, injeções de autoestima através de curtidas e comentários enaltecedores. Eis aí o motivo do sucesso da selfie, que é também a precisa razão de uma patologia da sociedade: estamos mais carentes do que nunca. Sedentos por reconhecimento, elogios, por alguém que nos valide. O efeito paradoxal da Internet nos aproxima, mas também nos distancia, criando camadas de relacionamento que, muitas vezes, nos privam daquilo que relacionamentos, de fato, deveriam propiciar.

Tudo isso para dizer que Os Abraços Perdidos, de João Chiodini, é um livro que retrata com precisão a ruína de certos valores humanos que não são novidade, mas que foram potencializados por certos aspectos da nossa realidade hoje. O romance narra a história de Pedro e seu pai, Antônio Carlos, um alcoólatra cuja relação com o filho é pontuada por arremedos de um amor um tanto desajeitado, bruto e, em sua maior parte, uma antítese do que significa ser pai. Enquanto Pedro cresce, é desesperadora sua necessidade de aprovação e afeto por parte de Antônio Carlos, um processo que vai se invertendo conforme o protagonista cresce e devido a questões específicas da história. Alternando narradores em primeira terceira pessoa, Chiodini desenvolve com maestria uma narrativa que vai aproximando e entrelaçando personas e tempos.

A escrita é precisa e contundente. Em apenas cento e vinte páginas o autor consegue nos arrastar pelo doloroso trajeto que o personagem percorre. No romance de Chiodini, não há smartphones, não há selfies, likes, shares ou Internet. Mas há todos os beijos ausentes, os “eu te amo” nunca ditos, todos os abraços perdidos, os mesmos que hoje desejamos desesperadamente nessa busca feroz por afeto e reconhecimento e que talvez estejamos buscando no lugar errado, mas talvez, no único lugar que nos resta.

 

Os abraços perdidos: autor João Chiodini editora Da Casa preço sugerido R$ 30

André Timm é escritor, roteirista, redator e vamos parar por aí que já está de bom tamanho.

Sobre o autor

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Revista catarinense com foco em cultura, comportamento, variedades e o que mais for pautado pelo cotidiano.

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