COMPORTAMENTO DESTAQUE

A superficialização do pensamento

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O mundo da comunicação digital na era da intolerância.

Da próxima vez que se deparar com uma notícia polêmica em um site, sobre qualquer assunto, dê uma passada pela seção de comentários. É incrivelmente assustadora a capacidade do ser humano em proferir palavras agressivas. Um pensamento externado, seja para defender ou acusar algo ou alguém, pode gerar uma enxurrada de respostas igualmente inflamadas e repletas de certezas.

O anonimato permitido pela internet dá respaldo para esse tipo de atitude, e claro que a falta de atenção e reflexão sobre a infinidade de informações recebidas diariamente contribuem para a perpetuação de compartilhamentos e curtidas nada criteriosos.

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O problema não é a internet, é o uso que fazemos dela. Conforme o cientista da comunicação Rodrigo Oliveira, hoje não lidamos mais com a estrutura clássica de comunicação, na qual tinha-se um emissor, meio e receptor. A internet rompe com essa esfera. “O receptor passa a ser um emissor. Ela (a web) dá voz, torna o ser visto e não apenas a audiência. E se dá liberdade para que mais pessoas se enunciem, ela permite que mais discursos se propaguem”, afirma o estudioso.

Opinião não quer dizer que é respeitável. Respeitável é o respeito. – Rodrigo Oliveira, cientista da comunicação

Mesmo com a ideia de que “todos têm voz”, nem todos são ouvidos. Rodrigo alerta para os capitais culturais, sociais e econômicos na influência da disseminação dos discursos. E, neste viés do tudo pode ser dito, o senso comum prevalece. “Muitas vezes, o senso comum acaba sendo uma deturpação do conhecimento. Liberdade de expressão não é a liberdade de expressar qualquer ideia. Opinião não quer dizer que é respeitável. Respeitável é o respeito. A liberdade deve ser usada para diminuir as diferenças, não para aumentá-las”.

Neste último ano, nos deparamos com inúmeras discussões no Facebook, seja por diferenças políticas, religiosas ou orientação sexual. Você mesmo pode ter participado de alguma. Acontece que, neste mundo sem nuances cinza, ou pensamos iguais ou nos tornamos inimigos declarados. “Quando leio um post que colabora para as minhas defesas competitivas, é fácil me afeiçoar a esse discurso. E aí que o senso comum é prejudicial. A internet favorece a isso, onde qualquer coisa pode ser dita e qualquer opinião é válida”, pontua Rodrigo e acrescenta: “Precisamos de empatia, não é porque é opinião que deve ser dito. Temos liberdade e, quando não sabemos usá-la, é um problema. Porque deixa de ser liberdade e passa a ser um ataque”.

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A indução do pensamento

Sabe aquela sensação que todo mundo pensa igualzinho a você? Não é bem assim. Quando você abre o feed de notícias do seu Facebook e se depara com dezenas de postagens corroborando com suas ideias, não quer dizer necessariamente que você faz parte da maioria. Quer dizer apenas que a rede do senhor Zuckerberg já fez uma boa pré-seleção para você. E é muito importante ter plena consciência disso.

Há uma produção massiva de informação na internet e não há qualquer condição de acessarmos todo conteúdo disponível. Por isso, o Face (e outras redes, como o Twitter, por exemplo) faz o “favor” de filtrar isso para você. Com base nas suas informações pessoais, publicações, curtidas, hashtags, acessos e compartilhamentos é criado um algoritmo para organizar, personalizar e distribuir o que você irá receber na sua timeline. Ou seja, quanto mais você se manifestar sobre determinado assunto, mais será direcionado a postagens com ideologias semelhantes à sua opinião.

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A psicóloga Maria Carolina Moesch alerta para este comportamento, estudado pela psicologia social, que a filósofa alemã Hannah Arendt (1906-1975) chamou de “ausência de pensamento”. “O sujeito é fruto da sociedade, do momento vivenciado. Estamos numa fase da superficialidade das informações, a ausência de refletir acerca daquilo que nos cerca. Eu dialogo com os pares ou refuto o que não concordo?”, questiona a professora.

Eu dialogo com os pares ou refuto o que não concordo? – Maria Carolina Moesch, psicóloga

De acordo com Maria Carolina, é positivo assumir posições ideológicas tanto na vida real quanto virtual. Porém, para ela, o extremo de todo esse conhecimento é a intolerância, gerando o adoecimento da sociedade. “Alguns movimentos vêm para revelar o que temos de pior enquanto humanidade. Isso acaba exteriorizando algumas violências, como de gênero ou contra a mulher. Vivenciamos o auge do horror, enquanto a exposição do outro. No período eleitoral, principalmente, vimos pessoas digladiando na frente de um computador, com alguém que, muitas vezes, nem conhece”.

A verdade é que não há respostas prontas. Para cada indivíduo, cada cultura, há uma maneira de enxergar a realidade. Religião e política sempre foram assuntos polêmicos, independente do espaço. “Talvez nas redes sociais as discussões se tornem mais explícitas e pessoalizadas, porque eu tenho um sujeito, um grupo que fala disso, e cada um pode falar o que quiser. O mundo virtual traz empoderamento, pois não tenho o olhar do outro me censurando, condenando ou questionando. Possuo o poder do teclado na minha mão, de um áudio ou vídeo que eu vou produzir. Apodero-me deste espaço, porque não há outro mediador”, reflete a psicóloga.

Um estudo realizado pela plataforma Comunica Que Muda, da agência Nova/sb, entre abril e junho deste ano analisou dez tipos de intolerância praticados pelos internautas brasileiros.

Um estudo realizado pela plataforma Comunica Que Muda, da agência Nova/sb, entre abril e junho deste ano analisou dez tipos de intolerância praticados pelos internautas brasileiros.

Discurso do ódio

Impeachment de uma presidente, eleições municipais, Jogos Olímpicos, PEC 241 e ocupações de instituições de ensino. Podemos dizer que 2016 foi um prato recheado para discussões acaloradas de lados opostos nas redes sociais.
De ataques o psicólogo Lucas Guerra entende bem. Suas opiniões são fortemente expostas nas suas redes sociais, e igualmente combatidas. O ativista é administrador de uma das maiores páginas com conteúdo LGBT do Brasil, a Cartazes & Tirinhas LGBT, com quase 600 mil seguidores. Entende que muitos discordam de seus pensamentos e acredita no debate saudável como principal caminho para a democracia. “Se confunde, muitas vezes, opinião com opressão. E a internet possibilita isso ainda mais, pois como você não está junto com quem está debatendo, é fácil interromper a discussão. Então amplia essa falta de noção dos outros e faz as pessoas se perderem nos argumentos”, opina o psicólogo.

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Dar a sua opinião é uma escolha. E como dizem, o silêncio também é uma liberdade de expressão. Mas e quando você é privado da sua voz por medo de sofrer represálias? Apesar de não ter se calado, Lucas chegou a questionar a militância no seu perfil pessoal, após sofrer ameaças de violência e até de morte. “Foi um ataque virtual que me fez ter medo além da rede. Toda ameaça se estende para a sua vida. A pessoa que comete a opressão pode dizer que foi forma de falar, que não teve a intenção, mas foi como eu me senti. Isso transpassa o virtual e deixa marcas. É falta de sensibilidade não reconhecer isso. Eu tenho essas marcas, medos profundos por causa do que já me ameaçaram. E é recorrente”, lamenta.

Lucas não se calou e foi atrás de seus direitos, no momento que se sentiu lesado. Mas muitas pessoas não fazem o mesmo, às vezes por desconhecer os caminhos possíveis. O promotor de justiça Eduardo Sens dos Santos, da 13ª Promotoria de Justiça de Chapecó, alerta para os cuidados ao postar nas redes sociais. “Para diferenciar o que é ilegal de uma simples brincadeira não se toma apenas como critério o sentimento subjetivo da pessoa ofendida. O proibido é causar dano a alguém. Difamar, caluniar, isso é crime e dá ensejo à indenização. Nem tudo pode ser dito a pretexto de liberdade de expressão”, explica.

No caso de ameaças, por ser crime, cabe registrar boletim de ocorrência e convocar o responsável para o Juizado Especial Criminal, mesmo quando o autor do comentário for anônimo. “Os perfis falsos não geram total anonimato. É relativamente fácil rastrear o autor dos comentários e publicações e, por isso, a responsabilidade deve ser igual”, alerta o promotor.

Dados da SaferNet, ONG dedicada à defesa de direitos na internet, revelam que o Facebook domina quase 50% das denúncias de páginas e perfis dedicados ao ódio e à intolerância. Entre 2013 e 2014, o número de denúncias saltou de 16.600 para 26.800.

Um argumento em 140 caracteres

O fato é que a internet se constitui como um meio de difusão de ideias e manifestações, rápido e eficaz, para expressar o pensamento dos seus usuários. Mas qual é o limite disso, se ele sequer existe? O sociólogo Cesar Camargo acredita que se deve preservar a liberdade de expressão a qualquer custo e coloca a web como a ampliação máxima deste direito. “Passamos por um momento de disputa política, no qual as redes sociais se constituíram no último recurso para veiculação de ideias. Porque a imprensa oficial só dava uma versão da notícia e atacava apenas um grupo político. É importante o partido que esteve no foco ser depurado e submetido à justiça. Mas é importante ser feito de maneira ampla com os outros também. E a internet foi o recurso para as pessoas se expressarem”, avalia o professor.

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Cesar reflete sobre os movimentos emergentes atualmente, com ideologias conservadoras, e aponta como um retrocesso no mundo. “Estamos voltando à Idade Média, com a sociedade do castigo e da vingança. A internet acaba sendo a única válvula para rebater isso. A utopia é que todos tivessem bom senso ao se expressar, mas não sei se chegaremos lá. Se pudermos criar um ambiente e desenvolver a cultura da manifestação livre, mas permeada por princípios éticos de respeito, de preservação do outro, de não destruição, aí teremos um mundo melhor”.

Este pensamento conservador é o que Maria Carolina chama de “período decolonial”. “No caso da intolerância, falamos de um período de transformação social, mais conservador. Compramos pacotes fechados de pensamentos. Precisamos nos atentar a esse retorno ao conservadorismo, político, religioso, e tantos outros. É preciso se conhecer, se reconhecer e encontrar o seu equilíbrio”, completa a psicóloga.

E para encontrar o equilíbrio, a regrinha é simples, aprendida há muitos anos, na época do colégio: a sua liberdade termina onde começa a do próximo.

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Cúmplice?

Neste ano, a jornalista Monica Iozzi foi condenada a pagar R$ 30 mil em indenização a um ministro do Supremo Tribunal Federal, por causa de um comentário feito em sua conta do Instagram. A jornalista criticou uma decisão do ministro Gilmar Mendes, que concedeu habeas corpus ao estuprador Roger Abdelmassih, postando uma foto do ministro com a inscrição “Cúmplice?”.
O sociólogo Cesar Camargo interpreta o caso como um cerceamento à liberdade de expressão. Quem concorda com esse pensamento é o promotor Eduardo Sens dos Santos ao afirmar que para “figuras públicas, como juízes, promotores, políticos, prefeitos, vereadores, a sensibilidade é medida de forma diferente”, onde todos os atos públicos destas autoridades estão sujeitos a críticas, a bem da democracia.

“Pela imagem, está evidente que ela não acusava Gilmar de ser cúmplice no sentido jurídico, ou seja, co-autor dos crimes de estupro, mas sim apenas demonstrava uma opinião de que um juiz que é excessivamente brando com réus ricos acaba sendo responsável pela criminalidade em geral. Ela só traduziu em uma única palavra aquilo que se discute nas faculdades de direito há muito tempo. O caso, entretanto, serve para mostrar que precisamos ter responsabilidade quando postamos ou compartilhamos algo. A internet dá a sensação de poder ilimitado, de irresponsabilidade, o que acaba sendo perigoso. É melhor uma boa dose de reflexão antes de qualquer publicação. E o saudável exercício de se colocar no lugar do outro é igualmente importante”, orienta o promotor.

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O que diz a lei

De acordo com o Ministério Público de Santa Catarina, todas as formas de intolerância são contrárias aos objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil, tal como previstos no Art. 3º, IV da Constituição Federal: “promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação”. Além disso, a Lei ordinária nº 7.716/1989 define como crimes passíveis de punição o racismo, a xenofobia, a intolerância religiosa e o neonazismo. Atualmente encontra-se em tramitação no Congresso Nacional o Projeto de Lei que criminaliza também a homofobia.

Sobre o autor

Carol Bonamigo

Carol Bonamigo

Jornalista, pós-graduada em Cinema, viciada em cultura pop e dependente de um app pra organizar todas as séries que assiste.

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