CULTURA E VARIEDADES DESTAQUE

A revolução dos games

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Como os jogos online têm modificado as interações entre os usuários.

Quais aplicativos você tem baixado no seu celular? Pensando nessa pergunta, é difícil que a resposta não venha acompanhada de pelo menos um game. Seja algo elaborado, com função multiplayer, ou mais simples, como jogos de cartas, quase todos vêm com a opção de conectar-se através do usuário do Facebook, permitindo interação com outros jogadores e ranking de pontos.

E os jogos não são feitos apenas para o público infantil, pelo contrário. A pesquisa Game Brasil 2015, divulgada na Campus Party do mesmo ano, revelou que a faixa etária mais representativa do público gamer é de 15 a 34 anos e 82% deles jogam em smartphones. Mas isso não quer dizer que os consoles são deixados de lado, uma vez que 78% dos jogadores jogam em mais de um dispositivo.

Se ainda restam dúvidas sobre a ascensão do mercado de games, a previsão do site Juniper Research é que, até o final de 2018, o faturamento com jogos digitais ultrapasse os US$ 104 bilhões. No Brasil – considerado o 11º maior mercado do mundo – a arrecadação do setor aumentou 25% apenas nos últimos dois anos, chegando a US$ 1,6 bilhão em 2016.

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Um bom exemplo disso foi o boom gerado pelo Pokémon Go. Lançado no início de julho do ano passado, o game entrou em funcionamento primeiramente na Nova Zelândia, Austrália e Estados Unidos e, facilmente, ultrapassou o número de downloads de apps como Facebook Messenger, Candy Crush e Snapchat. Precisou de meros 19 dias para atingir a marca de 50 milhões de usuários, mesmo estando disponível para apenas 32% dos mercados da Apple Store e Play Store.

Quando chegou ao Brasil, já era febre mundial. O jogo funciona como um aplicativo no qual são utilizados câmera e GPS do celular para achar e capturar as criaturas virtuais espalhadas em locais físicos. Usando locação de tempo real, levou milhares de crianças, jovens e adultos para as ruas à caça dos monstrinhos. Mas não basta o hype do momento para o jogo se manter em alta. No caso do Pokémon Go, após dois meses ativo o app já havia perdido 79% da sua base de jogadores.

De acordo com a Associação Brasileira dos Desenvolvedores de Jogos Digitais (Abragames), o número de empresas desenvolvedoras de games no Brasil saltou 600% num período de oito anos. Mundialmente, os games geraram quase US$ 100 bilhões em 2016.

A experiência multiplayer

Para muitos, jogar virtualmente vai além do passatempo, o entretenimento casual, e se torna algo bem mais sério. É o caso de Angélica Silva de Moraes, de 25 anos. A estudante de medicina de Brasília é jogadora assídua do Covet Fashion há mais de um ano. O game permite aos seus usuários uma interação maior, através das “Casas de Moda”, nas quais até 50 jogadores trocam dicas, experiências e peças de roupas, virtuais, claro.

A Casa de Angélica possui 31 jogadoras tão comprometidas quanto ela, com desafios diários obrigatórios e exigência de satisfação no caso de perder um deles. Para um controle maior e mais ágil, todas participam também de um grupo de WhatsApp para falar sobre o jogo. Trinta e um relacionamentos que tiveram uma rápida evolução. “Juntar-me a Casa foi a melhor coisa que fi z no game. Considero a maioria como amigas, a ponto de desabafar, de vez em quando, sobre minha vida pessoal”, revela.

Lançado em 2013, o aplicativo Covet Fashion possui mais de 500 mil usuários ativos diariamente. O game de moda permite que os jogadores vistam suas dolls com peças de mais de 175 marcas com base nos desafios pré-estabelecidos.

Com dificuldades para se abrir a novas amizades, como a estudante mesma descreve, o jogo acabou proporcionando essa nova janela de possibilidades, onde todas interagem em um nível maior de amizade, aconselhando e consolando em momentos de necessidade. No grupo de Angélica, são pessoas de diversas regiões do Brasil e até do mundo – a moderadora da Casa, por exemplo, vive na Índia – e também diferentes faixas etárias. “Amo essa diversidade cultural! Ter coisas diferentes para mostrar e aprender ao mesmo tempo, seja no sotaque, ou conhecendo mais sobre o estilo de vida dessas pessoas, que é tão distinto do meu. Certa vez fui para o Amazonas e pude compartilhar com elas como é a vida lá”, conta a estudante.

covetA advogada Loyane Velloso, 27 anos, também participa da Casa de Angélica. Apesar de ambas serem brasilienses, nunca se encontraram pessoalmente. “Considero uma relação saudável. Mesmo com opiniões divergentes todos se respeitam, dão conselhos, falam sobre vida pessoal e, principalmente, sobre o jogo, claro. É bom conhecer pessoas novas, de diferentes estados e até de fora do Brasil através de um game. Acho incrível o fato de poder trocar experiências com quem talvez não conheceria se não fosse através do jogo. É algo que a tecnologia nos permitiu, descobrir culturas diferentes sem sair de casa”, afirma.

O tempo dedicado ao game, principalmente com este grau de interação, pode nem sempre ser benéfico, especialmente quando interfere na vida pessoal. “Fiquei viciada quando aprendi a jogar de verdade, chegava a abrir de hora em hora para verificar. Hoje estabeleço horários para entrar e fazer os desafios. Já o meu marido, há um tempo chegava a passar sete horas diárias imerso em games, quando retornava do trabalho. Ele também prefere jogos cooperativos e, às vezes, jogamos juntos. Entendo que ambos precisam de espaço para se divertir com outras pessoas, mas desde que isso não ultrapasse os limites pré-estabelecidos. Hoje fizemos acordos para estabelecer esses limites”, opina Loyane.

Interação nos games

O gamer Hilario Junior dos Santos lembra com nostalgia como costumava jogar em rede com seus amigos. “Era 1998. Eu e meus amigos, colegas na graduação em Ciência da Computação, resolvemos explorar as possibilidades de montar redes de computadores com a tecnologia e os jogos disponíveis na época. Reuníamos na casa, garagem, salão de festas de um de nós e investíamos um longo tempo em configurar a rede para, então, jogar”. E todo esse preparo era boa parte da diversão, sobretudo pelo trabalho de montar a rede de computadores. “Hoje a coisa é mais simples e tanto os videogames exigem conexão com a internet como quase todos os games trazem a opção de jogar em rede, sem mencionar os games mobile, já criados nessa lógica e com uma proposta mais social ainda”, analisa.

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Professor e pesquisador universitário na área de Comunicação Audiovisual, pode-se dizer que Hilario vive imerso aos jogos. Não apenas como jogador, mas também estudioso do ramo, ele interpreta o modo de interação dentro dos games como um reflexo da sociedade em que vivemos. “Os jogos já existiam antes do digital e havia a demanda por colaboração e comprometimento, por exemplo, no esporte e nos board games. O fenômeno de times montados em cima dos jogos e como isso tem virado e-Sport é admirável. De uma hora para outra, jovens deixam de prestigiar jogos como entretenimento, para executá-los como esporte. As opções de games online atualmente são diversas e para todo tipo de gosto”, afirma Hilario.

Uma pesquisa realizada pela consultoria TNS a pedido do Facebook mostrou o smartphone como a plataforma preferida dos brasileiros para jogar. O estudo entrevistou usuários de 12 países com idade superior a 18 anos. E na hora de jogar não há lugar: 45% das pessoas afirmam que jogam enquanto estão a caminho de algum local, 33% o fazem enquanto esperam algo e 24% das pessoas confessaram que jogam até no trabalho. Globalmente, os usuários se mantêm no jogo por se sentirem parte de uma comunidade. “A interação proporcionada pela ludicidade dos games é bela e já de antemão pede por cumplicidade ao aceitar mutuamente a fantasia que ele induz ou produz. Mas me preocupa um pouco jovens enclausurados em seus quartos fazendo vários amigos virtuais e a noção de divertimento dessa experiência”, reflete o professor.

De acordo com um levantamento sobre o perfil do público de games no Brasil realizado pela pesquisa Game Mobile Brasil 2016, as mulheres são quem mais consomem jogos virtuais, com 52,6% dos usuários. Os homens respondem por 47,4% dos jogadores.

O que pode ser uma preocupação para Hilario, foi considerado um alívio para Luiz Augusto Nazari. “Acredito que, para minha geração (nascido nos anos 80), a maior revolução dos games foi a possibilidade de jogar e competir com pessoas do mundo inteiro e com seus amigos sem sair do conforto de sua casa”, diz o empresário de 30 anos. Adepto dos consoles, Luiz vê nos jogos multiplayer uma infinidade de possibilidades. “A principal diferença é a imprevisibilidade. Um jogo online, o qual é disputado com outros jogadores, não há como saber o que esperar, geralmente o nível de dificuldade e desafiante é muito maior, pois não estamos disputando com algoritmos já desenvolvidos e programados a serem executados, mas com pessoas reais”, avalia.

Atraído por games de guerra e estratégia, o empresário costuma marcar as partidas semanalmente através de um grupo de WhatsApp, e há um esforço comum em não perder o compromisso. “Somos em 12 jogadores, a maioria daqui da cidade de Chapecó, alguns do Paraná, Rio Grande do Sul e um jogador do México. O fato de interagir com os outros através do headphone torna tudo ainda mais interessante, pois nos permite tomar decisões em tempo real. Se a estratégia combinada no início de jogo não está funcionando, podemos rever o que não está saindo como esperado e tomar um novo rumo no game. Decidimos na hora se seremos pacíficos ou hostis com outros jogadores e, dependendo das circunstâncias, formamos alianças”.

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Não restam dúvidas que a tecnologia ampliou estrondosamente as possibilidades de interações entre as pessoas. No caso dos games, com centenas de lançamentos à disposição, cabe aos usuários definir quais irão durar mais que uma temporada.

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Dados divulgados no ano passado pela pesquisa TIC Domicílios apontaram que cerca de 58% da população tem acesso regular à internet. Pela primeira vez, o número de internautas bateu a casa dos 100 milhões. Um dos maiores responsáveis por esse crescimento são os telefones celulares. Pesquisas do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que o número de acessos à web por dispositivos móveis ultrapassou o de usuários de computador. Cerca de 89% deles usam telefones para navegar na web.

A plataforma de transferência de fundos digitais PayPal encomendou à BigData Corp um estudo a respeito dos hábitos dos consumidores brasileiros em relação à procura de aplicativos em dispositivos móveis. Foi revelado que os games são o tipo de aplicativo mais visado pelo brasileiro, e representam 18% de todos os downloads em dispositivos móveis no País. 

Sobre o autor

Carol Bonamigo

Carol Bonamigo

Jornalista, pós-graduada em Cinema, viciada em cultura pop e dependente de um app pra organizar todas as séries que assiste.

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