CULTURA E VARIEDADES DESTAQUE

A resitência indígena na terra de Condá

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reportagem e fotos Isadora Stentzler

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A aldeia Condá fica no interior de Chapecó, no caminho para lá da linha Água Amarela. São 2,3 mil hectares ao todo, um espaço que representa 0,0039% do território de Chapecó naturalmente ocupado pelos indígenas. Ali vivem cerca de 300 famílias (quase 900 pessoas) que migraram para a aldeia em 1980, após um acordo que retirou do centro de Chapecó, onde haviam se concentrado. No documento a terra destinada à tribo foi fixada em 2,7 mil hectares, porém apenas 2,3 mil hectares das terras foram compradas pela Funai e usina Foz do Chapecó – que tem parte no processo -, faltando 400 hectares. A falta desses espaços apresenta desafios para o desenvolvimento da comunidade que continua pleitando por terra. Sem a demarcação, os índios acabam se aglomerando ou buscando espaços na cidade, onde não há acolhimento e são expostos a riscos.

Quando termina o asfalto e começa a estrada de chão para lá da linha Água Amarela sabe-se que, não ao longe, se chegará aos hectares de terra deixados aos índios kaingangs após 101 anos de colonização. Retirados do coração da cidade de Chapecó, quando os únicos gigantes eram araucárias e não fileiras de concreto, ficaram à mercê do colonizador, morando no subúrbio de um município que um dia já foi conhecido como Passo dos Índios. A estrada até eles é estreita e levanta a poeira ao longo do caminho que passa por casas simples de madeira, cães, galinhas e árvores – que ajudam a manter a umidade do ar, fazendo com que o frio de agosto aumente à medida em que se cruza a entrada da aldeia. Em 1980, quando o trajeto começou a ser definido e os picões – estradas que ligavam uma extremidade a outra e ajudavam madeireiros e fazendeiros a explorarem a nova terra – foram abertos não havia o resquício do homem branco em casas como as quais eles moravam ou igrejas ou bares. Era o mais puro caminho. A princípio caminho à família Fortes, que após um estudo de um antropólogo identificou haver no hoje bairro Passo dos Fortes kaingangs – de língua e cultura – então beneficiados com a terra que haveria de ser demarcada. Foi a segunda expulsão após o início do século, quando o próprio Índio Condá – que 100 anos depois batizou ruas, estádio e ganhou time de futebol – ajudou a promover o progresso do branco com atitudes até hoje postas em cheque pelos kaingans. EXILADOS NA PRÓPRIA TERRA No meio da poeirenta estrada que se abriu não se encontram mais os índios da Passo dos Índios.

São gerações póstumas que sofreram o impacto do homem branco e ainda suam em resistência para manter viva os motes da tribo original. Dos Fortes ficaram apenas os que ainda falavam a língua kaingang. Muitos já haviam se misturado ao homem branco e perdido a identidade original, o que prejudicaria a descendência da tribo como nata. Portanto, deixados de fora do espaço que serviria para manter, de fato, viva a história do povo de Chapecó. Embora não lembre com memória ativa tais tempos, Augusto Rodrigues, de 71 anos – com um nome já aportuguesado –, ou Augusto Lendô Rodrigues – pronunciado com uma forte atenuação no ô final que fazem os lábios se fechar – é quem detém estas lembranças. Em outros tempos já foi chamado de vice cacique, mas hoje é conselheiro da aldeia e quem sabe de cabeça as histórias da tribo, contando-as como um monólogo. Sua casa fica à direita do caminho de terra e não um quilômetro após a placa de madeira que indica a chegada da Aldeia Condá, no interior de Chapecó. É um senhor baixinho, com ralos cabelos grisalhos que não devem medir mais que dois centímetros cada fio, barba feita, com poucas falhas sob o lábio superior. Usa uma camiseta social polo listrada em branco e lilás, coberta por um casaco cinza, que aparenta ser grosso e capaz de o aquecer dos ventos da região, e uma calça em tons claros. O encontro na porta de sua casa após ser chamado pela esposa.

Augusto Lendô Rodrigues tem 71 anos e carrega a história dos Kaigangs de Chapecó na memória. Já foi vice cacique, mas hoje chama-se de conselheiro da tribo. É paciente e, mesmo diante das mudanças que impactaram a tribo, não esconde sua luta: “A nossa cultura precisa permanecer”

 

Ao me ver, veste as sandálias e caminha pela tribo até a escola da aldeia – uma distância de 300 metros da sua casa – procurando um local para se acostar e despejar suas memórias. Sua fala é lenta e vez ou outra esboça um sorriso. Olha longe ao falar. Mas repete mais de uma vez, como que na intenção de frisar, que o que importa a ele é manter a tradição kaingang, sem deixar que ela se perca. Vez ou outra é interrompido por alguém da tribo que passa pela rua ao lado da escola e lhe grita palavras em kaingangs – sempre respondidas de pronto. Ao longe se escuta uma música funk tocando alto e jovens andando com o mesmo porte dos que se veem em festas de Chapecó, porém com o rosto, pele e trejeitos que denunciam a originalidade kaingang. O comportamento berra que o tipo de vida do branco não está longe das aldeias. Não à toa é nas cidades onde se debruçam dia a dia índios com o que ainda há de mais puro da tradição: o artesanato.

O artesanato é o que há de mais vivo da tradição kayngang. Passados de geração em geração, hoje foram adaptados e aparecem como filtros dos sonhos, colares e balaios, comercializados no centro de Chapecó. Em épocas de calor, eles também viajam a outras cidades para aproveitar a temporada, levando seus fi lhos. Em 2016, o indígena Vitor Pinto, de dois anos, estava com a mãe em uma rodoviária de Imbituba, no Sul do Estado, quando foi degolado por um jovem no dia 30 de dezembro de 2016. Maria (na foto), que também leva o nome do mato de Pó Mag, tem sua casa inúmeras peças que costuma levar nessas viagens.

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Augusto pontua mais e diz que até a escola, onde mantém o ombro direito encostado ao falar, é um lugar já não tradicional, mas que se tornou necessário vide a nova geração de kaingangs, que não só precisam falar a língua nativa, mas o português, em aprendizados que, por vezes, os quitam da aldeia para o trabalho na cidade – de onde muitos não voltam. – A educação está tirando o artesanato. As crianças não sabem se vão permanecer com o artesanato. Se a gente não falar, não aconselhar, vamos perder – sentencia. Nos sonhos de Augusto, as crianças aprenderiam artesanato nas escolas, porque desde que as terras foram minadas, o ar contaminado, as sangas poluídas – impedindo que a cura pela mata fosse o primeiro remédio como em outros tempos – foi se criando uma maior dependência dos hábitos do homem branco. Evocar as lembranças antigas é a forma com a qual ainda conseguem manter tradições e o continuar kaingang em uma terra que precisam olhar como um lar perdido em nome do progresso.

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No mesmo dia em que Augusto fala, Chapecó completa 101 anos. “Anos de invasão”, nas palavras do conselheiro da aldeia. E anos que não foram suficientes para o homem branco aprender a respeitar o indígena e sua cultura, que começa com a união de kamé – marca comprida – e kairu – marca redonda –, das grandes famílias e da venda do artesanato para subsistência, já que a caça e coleta não fazem mais parte da rotina do povo que precisou aprender vender para comprar em mercados. Do que sobreviveu ao tempo, Augusto elenca a língua – por isso obrigatória na escola da aldeia –, um ritual realizado a cada Dia do Índio (19 de abril) com comidas típicas que tem “muita carne assada e bolo de cinzas” – feito de farinha de milho –, o casamento dos marca comprida e marca redonda – os kamé e kairu, que servem de desenhos usados na pintura do corpo dos índios, visível nos dias de festa – as rezas do kuiã– quem é um tipo de pajé e representa um poder espiritual sob a aldeia – e, de novo, o artesanato. O irmão de Augusto, João Luiz, de 84 anos, é capaz de citar outro: o nome do mato, um nome que é kaingang e não aportuguesamento. O dele é Venhagrén. Da esposa, que comumente é Maria, é Pó Mag.

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Antônio Marculino tem um ano e usa na cabeça o mesmo cocar que o avô, João Luiz da Silva, vestiu. A geração do pequeno nunca viverá a realidade Kaingang do avô, mas ao usar o cocar do patriarca, já recebe a missão de manter viva a cultura indígena.

O casal tem oito filhos, “mais ou menos” 20 netos, porque já perderam as contas, e dois bisnetos. Pare deles estão em volta, próximo. E até se aproximam conforme o casal fala. Embora a terra estivesse molhada, João não fazia questão de calçados, e mal se aquecia do vento que cortava a aldeia. Ele sentou-se em um banco em frente à pequena casa de madeira em que vive. A esposa, ao lado. E começa por dizer que falar das suas culturas é “uma história longa”. Mesmo que o próprio pé ao chão dê conta de mostrar que ela ainda persiste. Dentro da casa estão cestos, filtros dos sonhos, arcos, flechas e cocares que vendem na cidade.

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As famílias continuam grandes e vivem unidas. Quando José e Maria começaram a falar, logo se aproximaram os filhos e netos que estavam por perto. A união é marcante no grupo.

Uma de suas filhas, Roseli Sales, de 37 anos, que tem oito filhos e hoje é viúva, diz que em bons dias os objetos são capazes de render entre R$ 30 e R$ 40, e que se adaptaram com o tempo. – Hoje modernizamos o nosso artesanato. Fazemos filtro dos sonhos, casinhas de passarinho e também compramos algumas peças para produzir, já que não achamos todas as coisas na natureza como antes. Por isso precisamos vender para poder comprar e comprar nossa comida. E nos criticam dizendo que levamos as crianças. Mas as crianças querem nos ajudar a vender – defende, adiantando a resposta para a crítica que sempre ouve pelo fato de levar os filhos à cidade onde comercializa o artesanato. Por não poderem mais ensinar a ancestralidade a caça, é na venda do artesanato que passam adiante o ensino à busca pelo sustento. Coisa que ela, beirando os 40, passou na infância e hoje ensina aos menores. – Falam que é crime – aponta –, mas é por causa do artesanato que as crianças não estão roubando ou vendendo droga. Coisa que nunca vi um índio fazer. Eles vendem o artesanato por vender. Tal trabalho une a família que, de geração em geração, os ensina, seja pelo cipó, ou nas linhas, a produzir uma arte que enfeitam carros e casas.

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Embora fizesse frio, João Luiz, ou de nome do Mato Venhagrén, mantinha os pés no chão. Diz que onde tem mato, tem índio, e por isso, o contato com a terra é persistido. A sua própria casa tem chão batido, mantendo características originais.

Longe desses pensamentos, as crianças, a nova geração kaingang, apenas carregam a inocência de quem nasceu indígena em um tempo que o próprio povo tornou-se minoria. Mal sabem o significado profundo de manter as artes que produzem ou de viverem como vivem. Porém as fazem com afinco. No olho a brilhar e na simplicidade, esbravejam: são felizes por ainda resistirem como kaingangs.

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