CULTURA E VARIEDADES DESTAQUE

A loucura dos outros

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Livros. Para estar lendo esta coluna, você deve gostar deles. Tempo. Imagino que como boa parte das pessoas, você não tem a perder. Isto posto, vamos alinhar expectativas? Já que você gosta de livros e não gosta de perder tempo, eu assumo o compromisso de não usar esse espaço para a recomendação de obras que você encontraria facilmente nas listas dos mais vendidos ou nas ilhas de destaque das livrarias por aí. Afinal, você não precisa de mim para encontrar o que já está fartamente divulgado, certo? Agora que já nos entendemos, gostaria de lhes apresentar Nara Vidal, mineira, radicada na Inglaterra desde 2001 e autora de diversos livros, dentre eles, a Loucura dos Outros (Reformatório, 2016).

Vinte e um contos, com nomes de mulheres, que perpassam das impossibilidades conjugais às relações que se deterioram com o tempo do corpo, ficções que de tão verossímeis poderiam ser crônicas. Maridos que não desejam mais suas mulheres. Mulheres que não suportam mais seus maridos. Filhos como subterfúgio contra a solidão. Sexo como fuga contra a frustração ou a dor. Para muito além da leitura superficial que algum leitor incauto poderia ter ao julgar apenas como frias, cruéis ou passivas essas personagens, esse é um livro sobre o quanto se é possível ser humano, sendo mulher, em um mundo projetado por e para homens. Mulheres em busca de algo que não é nem mesmo a felicidade, mas simplesmente o meio do caminho, a condição de não sentirem-se dolorosamente infelizes. Raimundo Carrero já disse que literatura é insatisfação. Nara leva essa máxima a sério. Por isso, não espere aqui uma literatura leve, de entretenimento. Não é do tipo que vira assunto na fila do pão ou no almoço. Não. Esses contos você guarda pra você porque, em algum momento, vai se identificar com algo que vai incomodar, constranger, calar fundo.

Dentre tantos embustes comerciais disfarçados de feminismo, esse é um livro que não precisa se auto-alardear como tal. Simplesmente é. Não tem frase de efeito como nome, não está em livrarias de aeroporto, nem virou série da Globo. Em tempos de extremismos, de explícitas demonstrações da mais completa ausência de empatia, livros assim são fundamentais porque nos dizem certas coisas da forma como mais costumam ter efeito, como espelhos, nos mostrando como podemos ser monstruosos simplesmente sendo quem somos. É que diante de nossos próprios reflexos, fica mais difícil acreditar que a loucura é sempre a dos outros e não a nossa própria, que as loucas são sempre elas e não nós.

André Timm é escritor, roteirista, redator e vamos parar por aí que já está de bom tamanho.

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