COMPORTAMENTO DESTAQUE

A cultura do silêncio

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Em um comercial de cosméticos uma mulher se arruma em frente ao espelho. Ao sair de casa, atrai olhares de desejo e admiração por onde passa. Ela se sente linda e quer que sua beleza seja notada.

Existe um senso comum na sociedade que a mulher quer provocar. Se usa uma saia curta, se está com os cabelos esvoaçantes, se está maquiada, se a roupa é justa, tudo foi milimetricamente pensado para um único objetivo: seduzir. E isso é, no mínimo, uma falácia. Queremos, sim, ser percebidas, mas queremos, acima de tudo, ser respeitadas.

Pensamentos como este fazem a pessoa questionar-se caso acabe por suscitar um comportamento indesejado. “O que eu fiz para dar liberdade de ser tratada assim?”, seguido de “o que eu faço depois disso?”.

Os escândalos permeando o mundo do cinema no mês de novembro estão aí para nos mostrar que não é nada fácil lidar com o assédio sexual. Harvey Weinstein, um dos produtores mais poderosos de Hollywood (responsável por filmes como Pulp Fiction, Shakespeare Apaixonado e Gangues de Nova York), foi acusado por quatro mulheres de assédio sexual e contatos físicos indesejados. Bastou o assunto vir à tona para dezenas de outras vítimas aparecerem. Atrizes, modelos e assistentes relataram terem passado por situações constrangedoras em denúncias que datam há 30 anos. Nomes famosos como Angelina Jolie e Uma Thurman engrossam a lista. E por que demorou tanto tempo para as denúncias aparecerem? “Não sabia como proceder sem prejudicar meu futuro profissional”, disse a atriz Lupita Nyong’o, uma das assediadas por Weinstein, em entrevista ao The New York Times. E este não foi o único relato. Encorajados pelo “basta” dado a essa “conspiração do silêncio”, vários outros casos vieram a público. Embora não seja de hoje os comportamentos predatórios de grandes figurões na indústria cinematográfica, pelo menos desta vez algumas pessoas não estão saindo impunes. Weinstein, por exemplo, foi expulso da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, do maior sindicato de produtores de Hollywood, da companhia que fundou e está sendo investigado pelas polícias de Los Angeles, Nova York e Londres. O ator Kevin Spacey – acusado de ter assediado o ator Anthony Rapp há 30 anos – teve a série que estrelava, House of Cards, suspensa temporariamente pela Netflix e foi substituído por Christopher Plummer na produção do longa Todo o dinheiro do mundo.

Parece que a sujeira se acumulou demais e começou a transbordar por debaixo dos tapetes hollywoodianos.

Predador e presa

Esses acontecimentos levantaram uma discussão sobre o assédio sexual e o quanto os agressores exercem seu controle sobre quem bem entendem, quando em posição de poder. O assédio é qualquer tipo de coerção de caráter sexual praticada, geralmente, por uma pessoa em posição hierárquica superior em relação a um subordinado, no trabalho, na escola, na universidade ou até mesmo em casa. Uma proposta para passar de ano, para ser efetivada no emprego, para subir de cargo. Mas pode começar como algo bem mais sutil.

Foi o que aconteceu com Ana*. Aos 18 anos começou a trabalhar como auxiliar administrativo de um empresário e demorou a perceber que os comentários tecidos pelo chefe eram mais que meros elogios. “Ele sempre dizia que me achava bonita, elogiava minhas roupas, meu cabelo, mas nunca me importei. Não achava aquilo errado. Apenas agradecia e continuava a trabalhar”, conta.

E ela não tinha motivos para se preocupar, uma vez que seu chefe era casado, com um filho adolescente e amigo de seu pai. Ou pelo menos era o que achava. Ao longo de um ano, Ana lidou com as conversas cada vez mais invasivas e convites para tomar café fora do escritório. “Sentia algo me incomodando, mas não sabia dizer o que era. Parei de me arrumar para trabalhar, só deixava os cabelos presos, usava apenas calça e camiseta fechada até o pescoço e vestia casaco em pleno verão. Não queria ser notada por ele”, lembra.

Tímida e sem saber como impor limites, continha-se apenas a sorrir em agradecimento. Isso foi o suficiente para o chefe. Um dia, ele ofereceu carona para Ana, após o expediente. No caminho, a garota percebeu que estava bem longe de casa. Quando o carro parou em frente a um motel, ficou estupefata. “Ele disse que iríamos conversar e eu imediatamente reagi. Disse que aquilo era um absurdo e perguntei o que tinha feito para ele pensar que poderia tomar aquela atitude. Ele apenas respondeu que eu nunca tinha dito nada sobre os elogios recebidos. Mas não havia nada a ser dito. Apenas desci do carro e liguei para o meu irmão me buscar”.

Eu pude dizer ‘chega’, mas quantas devem ter se submetido ao assédio por precisar do emprego?

Ana contou ao pai o ocorrido, mas não quis seu envolvimento. Pediu demissão e fez questão de dizer pessoalmente o motivo ao chefe. Entretanto, carregou por muito tempo a sensação de ter sido responsável pela situação. “Chorava e me culpava. Achava que tinha feito algo para dar essa liberdade a ele. Repassava na minha cabeça tudo o que aconteceu. Em vários momentos, durante aquele ano, cheguei a achar que ele estava dando em cima de mim, mas nunca comentei nada, pois não queria acusa-lo de algo que poderia estar apenas em minha cabeça. Imagino quantas outras meninas passaram pela mesma situação com ele. Eu pude dizer ‘chega’, mas quantas devem ter se submetido ao assédio por precisar do emprego?”, recorda.

Hoje, aos 27 anos, Ana sente a repercussão do episódio na sua vida. Tornou-se mais retraída com colegas de trabalho e desconfiada com seus chefes. “Agora, quando entro na sala do meu chefe já fecho todos os botões da camisa. Tenho receio de trabalhar de saia, para ninguém achar que estou me oferecendo. E tento manter a distância, principalmente com homens mais velhos. Se um homem mais velho me elogia, travo e sinto vontade de chorar. Porque um garoto te falar bobagens e fazer propostas, infelizmente é corriqueiro. Mas uma pessoa de meia idade não age na impulsividade, é premeditado. E isso é ainda mais assustador”, lamenta.

Segundo a psicóloga Ieda Dreger, o sentimento de Ana é muito comum em vítimas de assédio. “Existe uma visão social preconceituosa de que é a mulher quem provoca o homem. É ela quem joga charme e se insinua. Por outro lado, é da nossa natureza humana sempre se perguntar se eu não tive culpa também do que aconteceu. Então, quando ocorre o assédio, a mulher procura um motivo e logo se sente culpada, porque teria sido ela a abrir caminho para isso”, afirma a especialista.

Sentir-se responsável, de acordo com Ieda, afeta a autoestima e pode ocasionar o surgimento de dificuldades de relacionamentos com outras pessoas, inclusive no âmbito sexual. “Algumas mulheres escondem o trauma de si mesmas. Mas é preciso falar, colocar para fora os sentimentos e reelaborar o acontecimento”, orienta.

Dormindo com o inimigo

Uma pesquisa divulgada pela organização internacional ActionAid em 2016, revelou que 86% das brasileiras já sofreram algum tipo de assédio em público. Contudo, não é preciso dados oficiais para sabermos que isso é real, basta sair de casa. Ao caminhar pelas ruas ou andar de ônibus, um assobio, um elogio ou até um suspiro mais longo pode soar ofensivo, especialmente quando vem acompanhado de olhares e gestos maliciosos. “O princípio da cantada na rua não é o elogio. Não é a proposta, o convite. Pelo contrário, é o insulto. É a dominação. É lembrar quem manda aqui. Todos os homens se acham no sagrado direito de avaliar o corpo de uma mulher. Só porque ele é homem, ela é mulher, e uma sociedade patriarcal totalmente ultrapassada decidiu que ele pode”, critica Ieda.

Julia* tem 31 anos e convive com isso desde a adolescência, assim como quase toda população feminina. “Fui sexualizada pelos outros muito cedo. No colégio, davam apelidos porque tinha curvas, os meninos passavam a mão na minha bunda sem o meu consentimento. E todo mundo agia como se fosse um comportamento normal. Nós não temos noção de como isso é agressivo quando somos novas”, desabafa.

Ser vista como um “pedaço de carne” sempre foi algo incômodo para ela em qualquer ambiente. “Os homens acham que são sutis, mas eles não são. Você tem que aturar abraço demorado, beijo molhado no rosto, na mão, um excesso de toque que faz você se sentir violada. Costumava achar que era algo de hierarquia, mas isso já aconteceu com colegas em posição até abaixo da minha. No trabalho sou vista como grossa, e tenho que ser, porque se você falar alguma coisa, ainda corre o risco de ser taxada de louca ou pior, ser mandada embora”.

Você tem que aturar abraço demorado, beijo molhado no rosto, na mão, um excesso de toque que faz você se sentir violada.

Com problemas de autoestima logo cedo, Julia passou a tolerar calada certos tratamentos para ser aceita em amizades e relacionamentos. O fundo do poço, considerado por ela, foi atingido em seu casamento. Foram quatro anos em uma relação extraindo cada gota de amor próprio da sua essência. “Só me preocupava em atingir as expectativas dele e não as minhas. Com o passar do tempo, fui me sentindo novamente um objeto, mas dessa vez pelo meu marido”, relembra.

No início, as críticas vinham disfarçadas de elogios, minando a sua confiança pouco a pouco. Frases como “você vai ficar muito melhor se emagrecer um pouco mais” eram constantes no seu dia a dia. O incentivo não era para melhorar enquanto pessoa, mas melhorar esteticamente para agradar outra pessoa. “Quando saíamos jantar, fi cava nervosa uma hora antes, pois eu estava com fome e não poderia comer o que queria porque ele estaria de olho e me repreenderia”.

Julia demorou a perceber que estava em um relacionamento abusivo e, quando se deu conta, foi todo um processo de recuperação da autoestima para ter confiança em dar um basta. “Meu chão caiu de vez quando, em uma briga, ele disse que só dormia comigo por pena. Não consegui ter uma reação. Demorei um mês para processar que tinha ouvido isso. Esgotei em todos os sentidos. Sofria assédio moral e sexual dentro do meu casamento. Lembro-me várias vezes ele me pegar com mais força para fazer sexo e eu ficar imóvel, de olhos fechados, apenas rezando para aquele momento acabar e ele sair de cima de mim”, recorda com lágrimas aos olhos.

Mas as lágrimas, que não chegam a cair, não são de tristeza ou derrota, mas raiva de consentir a viver assim por tanto tempo. Embora se sentia uma mulher renovada e, acima de tudo, apaixonada por si mesma, Julia guarda com pesar tudo que passou. “É preciso superar, mas é importante lembrar, para não deixarmos acontecer novamente. Na época, tinha vergonha de conversar com minhas melhores amigas, pois não conseguia admitir para mim mesma o que estava acontecendo. Demorei a chegar até aqui (faz quatro anos que me separei), mas hoje não admito ser tratada como objeto”.

Há um julgamento da sociedade com as mulheres que se encontram em situações nas quais são coagidas a aceitarem certos abusos. E a culpa disso, na visão da psicóloga Ieda, é justamente o comportamento machista da humanidade. “Quanto mais mulheres  denunciarem, mais estaremos saindo da ideia da normalidade, que homem pode fazer e está tudo bem. Quanto mais silenciosas ficarmos, mais estaremos contribuindo para sermos vistas com inferioridade”, ressalta. Pensamento este compactuado tanto por Ana quanto Julia. Ambas conseguiram quebrar o ciclo destrutivo em que se encontravam e esperam que as suas histórias ajudem mais mulheres a fazer o mesmo. “Fala-se muito em empoderamento feminino, mas nós devíamos empoderar as meninas de 10 anos, para que elas se amem mais, se sintam fortes e confiantes, para que elas tenham uma adolescência e uma fase adulta mais certas do que querem. Nós nos preocupamos numa fase em que a mulher já sofreu demais. Seria importante tentar evitar ou minimizar esse sofrimento, porque ele não será apagado jamais”, afirma Julia e sugere: “Que tal, a partir de agora, ao invés de cantarmos ‘com quem será que a menina vai casar’ nas festinhas de aniversário, começarmos a perguntar ‘quem você será quando crescer?”.

O art. 216-A do Código Penal

O delegado da Delegacia de Proteção à Criança, Adolescente, Mulher e Idoso de Chapecó (DPCAMI), Rodrigo Silva Moura, orienta para a pessoa que for vítima de assédio sexual a registrar o fato para chegar ao conhecimento da Polícia Civil, mas é preciso manifestar explicitamente a vontade de que a investigação prossiga. “O crime de assédio sexual é um crime contra a dignidade sexual da vítima e, como a maioria desse tipo de delito, é sujeito à ação penal ‘condicionada à representação’, ou seja, a investigação e processamento judicial do delito exigem a manifestação de vontade da ofendida nesse sentido. Essa diferenciação é feita pela lei penal para proteger a intimidade das vítimas, que muitas vezes preferem que o fato, muito embora conhecido da polícia, não seja investigado, a fim de não lhe causar ainda maiores danos, como difamação e represálias”, explica Moura. Esse é um dos motivos para o número de denúncias ser tão pequeno. Apenas 50 casos foram registrados na DPCAMI entre 2015 e 2017. Mas não é tão simples criminalizar o assédio. “Não se pode confundir o ‘assédio sexual’ em sentido genérico com o ‘assédio sexual’ criminoso previsto no art. 216-A do Código Penal. Nem tudo que é tratado como ‘assédio’ é crime. Para que seja criminoso, não basta que a conduta do autor cause na vítima algum tipo de desconforto ou constrangimento. Primeiramente, é indispensável que o autor seja superior hierárquico ou exerça sobre a vítima algum tipo de ascendência inerente ao exercício de emprego, cargo ou função, e se valha dessa condição para constrangê-la. Além disso, é necessário que o intuito (o dolo) do autor seja obter da vítima algum tipo de favor ou vantagem sexual”, esclarece.

 

*Os nomes das entrevistadas foram trocados para preservar as suas identidades.

Foto: Cláudia Soraya On Unsplash

 

 

Sobre o autor

Carol Bonamigo

Carol Bonamigo

Jornalista, pós-graduada em Cinema, viciada em cultura pop e dependente de um app pra organizar todas as séries que assiste.

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